sábado, 19 de novembro de 2011

Para além de estatísticas e teorias, a voz das pessoas


A pesquisadora que foi ao cerne do Bolsa Família

Brasilianas.org entrevista Walquíria Domingues Leão, professora do Programa de pós-graduação em Sociologia da Unicamp sobre a pesquisa realizada por ela analisando os impactos do Bolsa Família na vida das mulheres.
O trabalho de Walquíria Domingues Leão não possui estatísticas complexas, não recorreu a pesquisas com questionários fechados. Durante cinco anos ela foi ouvir mulheres em regiões tradicionalmente não assistidas pelo Estado – como o Vale do Jequitinhonha e o sertão alagoano, entre outras. Sua intenção foi avaliar os impactos sobre as pessoas da renda em dinheiro – tanto do Bolsa Família quanto do aumento do salário mínimo. Quis saber os efeitos sobre a vida pessoal, a cidadania, a maneira como as pessoas passaram a se ver.
Em geral, os pobres são vistos como massa homogênea. Como tal, sujeitos a toda espécie de visão preconceituosa. Seriam pobres por serem preguiçosos; não poderia receber em dinheiro por não saberem fazer cálculo prudencial (calcular o dinheiro até o final do mês); gastariam em supérfluos e bebidas; as mulheres (que são as titulares do Bolsa Família) acabariam cedendo as senhas aos maridos. E assim por diante.
Com forte formação de esquerda, Walquíria se surpreendeu ao perceber a extraordinária função social do dinheiro – especialmente para quem sai da zona da extrema pobreza. O primeiro mito a cair foi o dos cálculos para manuseio do dinheiro. Nos depoimentos colhidos, mulheres confessavam que na primeira vez que receberam do Bolsa Família, gastaram o dinheiro na primeira semana. Na segunda vez, já sabiam calcular para o dinheiro durar até o final do mês.
Do mesmo modo, não encontrou mulheres que tenham cedido às pressões do marido para outras destinações aos recursos. Primeiro, porque tinham contrapartidas a apresentar: pesar as crianças no posto de saúde, apresentar atestados de frequência escolar dos filhos. Depois – como disse uma delas, em um relato que espalhou emoções no seminário: “Isso tudo não é mais para mim. São para meus filhos. Meu tempo já passou”.
Em uma das melhores entrevistas da pesquisa, com uma senhora de Demerval Lobão, interior do Piauí, foi-lhe descrito o sentimento que se apossou dela quando descobriu que tinha “crédito” no comércio. Isto é, os comerciantes acreditavam nela. “Antes eu não era nada. Ninguém me vendia nem uma caixa de fósforos”.
A renda monetária conferiu-lhes dignificação da vida, confiabilidade. A possibilidade de escolha – entre comer feijão ou macarrão, por exemplo – mudou sua percepção sobre a vida, a cidadania, os direitos, constatou Walquíria.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Convivência com o Semiárido no Ceará

meio ambiente

Documento propõe lei para o semiárido

Publicado em 17 de novembro de 2011 

O Pacto pela Convivência com o Semiárido Cearense aponta ações para a sustentabilidade
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O semiárido nordestino sempre foi visto como uma região onde prevalecia o sofrimento. Mas, o documento quer mostrar que isso mudou e hoje com ações pode ser sustentável
FOTO: DIVULGAÇÃO




Fortaleza Será lançada hoje a publicação "Bases para formulação de uma política estadual de convivência com o semiárido cearense", que tem como objetivo elaborar as bases para definir uma lei específica para o semiárido cearense, considerando as questões políticas ambientais, sociais e culturais da região localizada no Nordeste.

O evento acontece às 15 horas, no Plenário 13 de maio, da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. O Conselho de Altos Estudos e Assuntos Estratégicos é que vai realizar a entrega da publicação.

O Pacto pela Convivência com o Semiárido Cearense aponta no documento as diretrizes e identifica instrumentos de ação para a construção de uma política estadual de convivência com o semiárido cearense em seus aspectos fundamentais e em orientações para a integração das diversas políticas setoriais específicas, tendo por base um arcabouço jurídico legal.

Resposta
De acordo com o secretário do Conselho de Altos Estudos e Assuntos Estratégicos, Eudoro Santana, o assunto vem sendo trabalhado há quase dois anos com o Pacto e este documento é como uma resposta à sociedade. "O Ceará foi um dos primeiros Estados a ter uma lei de recursos hídricos. Da mesma maneira queremos fazer agora", disse.

"Como o governo, até hoje, não deu nenhuma atenção maior a essa problemática, resolvemos elaborar esse documento e mostrar que o Ceará poderia - vai depender do parlamento e Estado - criar políticas para o semiárido", afirmou Santana.

Ele salienta que, as políticas elaboradas para esta região não podem ser da mesma maneira que as utilizadas no Sul do País.

Sugestões
Serão sugeridos caminhos para a formulação de instrumentos legais, a partir da criação e operacionalização de comissões especiais do Parlamento Cearense para, em prazos determinados, consolidar a Política Estadual de Convivência com o Semiárido Cearense.

As questões fundamentais são elaboradas a partir dos cinco eixos: Economia; Meio Ambiente; Comunicação, Cultura e Educação; Serviços Básicos e Difusão de Conhecimentos Científicos e Tecnológicos no Semiárido Cearense.

"Pode-se estabelecer algumas medidas, de acordo com as áreas, como: não continuar queimando o roçado, estabelecer limites, punições. Mostrar visões e projetos altamente positivos, por exemplo, criação de caprinos, produção de mel de abelha, que podem contribuir para dar sustentabilidade e deixar de lado a cultura de sofrimento", disse Eudoro Santana.

MAIS INFORMAÇÕES

Conselho de Altos Estudos e Assuntos Estratégicos
Assembleia Legislativa do Ceará
Telefone: (85) 3277.3743

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

História do Sertão - sofrimento das secas é lembrado em caminhada


almas da barragem

Caminhada da Seca reúne 5 mil fiéis

Publicado em 14 de novembro de 2011 

A caminhada em Senador Pompeu é sempre no segundo domingo de novembro. O cortejo inicia às 5 horas
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São cerca de seis quilômetros de distância. São quase duas horas até a chegada ao cemitério da barragem. Neste ano, uma das novidades foi o Cristo Crucificado à frente da procissão
FOTO: ALEX PIMENTEL

Senador Pompeu O ritual se repetiu pelo 29º ano consecutivo. Ainda era madrugada quando milhares se concentraram diante da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, no Centro de Senador Pompeu. Eram fiéis, cerca de 5 mil devotos das Almas da Barragem, a aguardar o sinal para o início do cortejo em homenagem aos retirantes da seca de 1932, dizimados no Campo de Concentração do Açude Patu, na periferia da cidade. Na maioria mulheres, muitas descalças, dispostas a pagar promessas atendidas pelas Santas Almas. Mas havia também o contexto social, representando por organizações não governamentais, e busca de justiça social e reparo histórico da tragédia humana registrada no Açude Patu.

E nesta Caminhada as novidades foram o Cristo Crucificado à frente da procissão e a despedida do padre Carlos Roberto Costa, um dos principais responsáveis pela revitalização da Caminhada da Seca. Foi a última participação dele à frente da Paróquia de Nossa Senhora das Dores. No próximo ano ele deve voltar, mas como missionário de outra freguesia. Nos últimos sete anos, além da mobilização pastoral, era ele quem guiava o rebanho humano pela sinuosa estrada do Santuário da Seca.

Pregação
A cada quilometro percorrido, uma rápida pregação em louvor das santas almas da barragem. Respeitosamente a multidão ouvia algumas passagens do o sofrimento de quem não sobreviveu no curral da fome, como o lugar também ficou conhecido. Um momento de penúria ao saberem de famílias inteiras sepultadas em covas rasas por não conseguirem vencer dois inimigos mortais, a fome e a cólera. "Mas não se foram em vão", justificava a aposentada Maria Augusta Moreira. Mesmo chegando aos 80 anos ela faz questão de participar passo-a-passo de todo o trajeto. Por conta do cansaço nas pernas, caminhada só de ida.

A explicação para a peregrinação, cada vez mais fortalecida, de acordo com o padre Roberto Costa, está no próprio povo, ao depositar suas esperanças no santo coletivo. Com o passar dos anos, os milagres estão surgindo e a fé se fortalecendo. Mas além da religiosidade é preciso refletir sobre o vergonhoso episódio do campo de concentração. Relembrá-lo a cada caminhada é alertar os governantes para que essa passagem nunca mais se repita. Esse é um dos principais propósitos da mobilização criada em 1982 pelo vigário Albino Donatti. Além da fé, a consciência e o desenvolvimento de políticas públicas para convívio com a seca e com o semiárido completam o ato.

E foi justamente o que uma das últimas sobreviventes do Campo de Concentração, Luiza Pereira Lo, relatou para cerca de cinco mil pessoas, mais uma vez, na tradicional missa campal realizada em frente ao Santuário das Almas da Barragem. Tem sido assim ao longo de quase três décadas. Primeiro foi com o padre Albino Donatti, de 1982 a 1994; em seguida, o padre João Paulo, de 1995 a 1999; depois, Frei Duarte, em 2000 e 2001. Ele foi seguido pelo padre José Marques, á frente da Caminhada da Seca até 2004, quando foi substituído pelo pároco Roberto Costa, completando este ano sua sétima participação à frente do movimento católico em louvor das Almas da Barragem.

Distância
São cerca de seis quilômetros de distância. São quase duas horas até a chegada ao cemitério da barragem. O campo santo está situado numa colina com vista para as ruínas da Vila dos Ingleses e a represa pública concluída pelo Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs) em 1987, com capacidade para 71.829.000 m³ e atualmente com 90,5% de sua capacidade, conforme dados da Funceme. Por ironia, justamente onde milhares de flagelados morreram está principal fonte de vida e riqueza da "Terra das almas da barragem".

Além da Igreja Católica, por meio da Diocese de Iguatu, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Antônio Conselheiro (CDDH-AC) e o Instituto Casarão integram o grupo de mobilização da Caminha da Seca.

Alex PimentelColaborador

Energia solar no Sertão


meio ambiente

Agricultor familiar faz cultivo protegido com energia solar

Publicado em 13 de novembro de 2011 

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Com o filho, Clésio da Silva, o produtor Antônio Aroldo Muniz da Silva dá exemplo de como conviver com o semiárido nordestino
FOTOS: ANTÔNIO CARLOS ALVES
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No pomar do agricultor familiar de Itatira estão plantadas, fora da estufa, verduras como tomate, pimentão, beterraba e cenoura, e frutas como goiaba e melancia
Antônio Aroldo Muniz da Silva inova nos Sertões de Canindé com a produção de alimentos orgânicos
Itatira Um agricultor residente na zona rural deste Município, a 216 quilômetros de Fortaleza, localizado no semiárido Nordestino, está dando bom exemplo de como conviver com a falta de chuvas e preservar o meio ambiente. Antônio Aroldo Muniz da Silva, de 49 anos, conhecido no meio rural por "Chico Dôra", morador de Poço da Pedra, que fica a 30 quilômetros da sede do Município, ao lado da CE-366, não esconde a sua alegria de ser o único do Estado do Ceará a produzir alimentos orgânicos que estão sendo utilizados no cardápio da merenda escolar de Itatira.

Energia solar
Tudo começou depois que o Governo do Estado implantou um estufa de 98 metros quadrados para o plantio de 867 pés de tomate e 40 pés de pimentão, para uma experiência. Segundo o agricultor familiar, o projeto faz parte do Fundo de Combate a Pobreza (Fecop) e funciona por meio de energia solar.

A instalação veio da Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA). De início, o projeto atenderia 25 famílias, mas ninguém acreditou no sucesso e tudo ficou nas mãos de seu Chico Dôra, como é conhecido na região, e de seu filho, Antônio Clésio Sousa da Silva, de 23 anos. Foram investidos R$ 26 mil. Além da estufa, existem na horta um tanque de 50 mil litros de água, um cacimbão no leito do Rio São Joaquim e a produção de energia solar por meio de nove placas instaladas ao lado da área de produção.

No pomar do agricultor familiar estão plantados fora da estufa tomate, pimentão, beterraba, cenoura, alface, cheiro verde, goiaba, jerimum, melancia, pimenta de cheiro, quiabo, macaxeira, batata doce, melão verde, pepino, entre outros cultivares.

Permanente
A água permanente, que corre por gravidade, ajuda na produtividade. A renda de produção familiar de Chico Dôra gira em torno de R$ 1.542,34. Além de vender para a Prefeitura, a produção também é comercializada entre as famílias que moram na área. "Minha intenção é ampliar o programa de convivência com a seca. Estou vivendo uma experiência muito boa na minha vida, com essa modalidade de trabalho produtivo sem agrotóxicos", disse o agricultor familiar.

A horta oferece uma série de vantagens. Os produtos são orgânicos, sem veneno e, ainda, ajudam a preservar o meio ambiente. Chico Dôra cria galinhas que se alimentam dos restos de verduras que passam pelo processo de qualidade.

O próximo passo, segundo ele, é a implantação de colmeias para a criação de abelhas Jandaíra, porque elas aproveitariam a flora do maracujá, da goiaba e de outros cultivos naturais para a produção do mel.

Orgânico
Para os técnicos da Ematerce de Itatira, o objetivo é favorecer o plantio orgânico, protegendo as plantas de pragas e doenças, além de incrementar a produção sem agrotóxicos. "Sempre incentivamos a agricultura familiar. Esse projeto do Governo do Estado, graças à força do nosso sertanejo, está dando certo. Está gerando emprego e renda para esse produtor que sempre acreditou na agricultura familiar", observa o prefeito da cidade Zé Dival.

Os resultados positivos que estão sendo alcançados na localidade de Poço da Pedra, com o projeto do cultivo protegido e solar, é uma iniciativa da Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ematerce), Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA), em parceria com a Coordenadoria de Desenvolvimento da Agricultura Familiar do Instituto Agropolos.

Comunitária
Na visão do presidente do Instituto Agropolos do Ceará, Celso Crisóstomo, o projeto de cultivo protegido e energia solar funciona com uma mão-de-obra totalmente comunitária, que busca aproveitar a energia solar para plantação de hortaliças orgânicas. "Essa produção é vendida facilmente, porque hoje a nova realidade do campo já traz a consciência de que se faz necessário o consumo de produtos sem a presença de produtos que tragam prejuízos a saúde humana", ressalta Celso Crisóstomo.

Ele defende e assegura que o cultivo protegido é uma das alternativas de maior viabilidade técnica e econômica para aumentar a produtividade de hortaliças e reduzir a aplicação de defensivos agrícolas.

"Os resultados do cultivo protegido e energia solar em Poço da Pedra em Itatira, onde apenas um agricultor cuida de tudo, mostram que é possível a instalação dessa modalidade em outras áreas dos Sertões de Canindé. Tudo passa pela geração de renda, preservação do meio ambiente e o consumo de alimentos saborosos na mesa da população", destaca Celso.

MAIS INFORMAÇÕES 

Instituto Agropolos do Estado do Ceará
Rua: Barão de Aratanha - 1450
Telefone: (85) 3101.1670

AGRICULTURA FAMILIARProdutos vão ganhar selo de qualidade
O Governo do Estado anunciou a criação do "Selo Agricultura 100% Familiar", certificando os produtos familiares
Canindé Para valorizar a agricultura familiar e ampliar seus espaços de comercialização e facilitar sua identificação, o presidente do Instituto Agropolos do Ceará, Celso Crisóstomo, anunciou que o governador do Estado do Ceará, Cid Gomes, lançou o "Selo Agricultura 100% Familiar".

De acordo com ele, o selo certifica que o produto foi feito por agricultores familiares do Ceará. Uma vantagem para os produtor que tem uma certificação garantida pelo Governo do Estado é para o consumidor que identifica os produtos locais com mais facilidade.

Critérios
Entretanto, para obter o selo, é necessário passar por alguns critérios. É preciso ter a declaração de aptidão ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). DAP física ou jurídica que comprova que a unidade é de produção familiar.

Outro é que os produtos devem atender às exigências de qualidade de mercado, sendo processados e beneficiados segundo normas e orientações que garantam a higiene e a padronização dos produtos.

Padronização
A embalagem também deve ser padronizada e ter um rótulo com informações básicas, identificação do produto, composição, peso líquido, validade, presença ou não de glúten, fabricante ou responsável técnico, endereço do local da produção e, ainda, contato.

Terão prioridade os agricultores familiares que têm acompanhamento de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) com regularidade, os que estão ligados a uma organização social (cooperativa ou associação) e, também, os que adotam técnicas que ajudam a preservar o meio ambiente.

Como obter o selo
O agricultor deve procurar uma unidade do Instituto Agropolos do Ceará, um escritório da Ematerce ou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais em sua região para preencher uma ficha de cadastro. Nesta ficha, o agricultor informa se recebe Assistência Técnica e Extensão Rural de alguma dessas entidades relacionadas. Se recebe, um técnico dessa instituição que trabalha com ele já está credenciado para avaliar a concessão do selo e analisar o pedido. Se o agricultor não recebe assistência técnica, deve indicar qual a entidade que deseja que o avalie.

O técnico credenciado visita a unidade de produção do agricultor, analisa a solicitação e emite um parecer. Quando o parecer positivo é confirmado pela Comissão Gestora do selo, o agricultor recebe um certificado e os selos. O certificado terá validade por dois anos e deve ser renovado depois desse período. Caso o pedido seja negado, as razões de recusa são informadas ao agricultor. Ele pode tentar o cadastro para receber o selo novamente quando corrigir as falhas com a ajuda de entidades de assistência técnica.

Fique por dentro Cesta de produtos
A qualidade dos produtos orgânicos é indiscutível. Por não ser cultivado com agrotóxicos, mas de forma bem natural, é muito mais saudável para o consumidor. No entanto, os preços podem ser um pouco mais caros, mas vale à pena. Confira tabela de preços dos produtos orgânicos em Itatira: tomate: R$ 2,00 o quilo; beterraba: R$ 1,95 o quilo; Cenoura: R$ 1,75 o quilo; maracujá: R$ 0,30 a unidade; goiaba: R$ 2,90 o quilo; macaxeira: R$ 1,50 o quilo; jerimum: R$ 0,70 o quilo; Melancia: R$ 0,70 o quilo; pepino: R$ 1,00 a unidade; melão verde: R$ 2,00 o quilo; pimentão: R$ 0,30 a unidade; alface: R$ 0,80 o molho; cheiro verde: R$ 0, 30 o molhe; quiabo: R$ 2,10 o quilo. Todos os produtos são colhidos pela manhã para evitar que percam o seu paladar.

Antônio Carlos AlvesColaborador

domingo, 13 de novembro de 2011

Cisternas - Convivência com o semiárido


alternativa

Cisternas provam eficácia da convivência com o semiárido

Publicado em 11 de novembro de 2011 

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Cisternas de placa e de calçadão na localidade de Riacho do Meio, zona rural de Cariús, estão garantindo água tanto para consumo humano como para a produção de alimentos
FOTOS: HONÓRIO BARBOSA
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Alimentos produzidos no quintal de casa com água da cisterna calçadão, na localidade de Brilhante
FOTO: SILVANIA CLAUDINO
No passado, o segundo semestre do ano era de sofrimento com a escassez de água. Hoje, a realidade mudou
Cariús Duas organizações não governamentais, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, em Senador Pompeu, e o Instituto Elo Amigo, em Iguatu, integram o esforço da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), para promover o acesso à água e à segurança alimentar a dezenas de famílias de agricultores no sertão cearense.

A construção de cisternas de placas e de calçadão, cujos recursos são oriundos do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), tem se mostrado um meio eficaz de acesso à água para consumo e produção de alimentos.

Até agora, já foram construídas 39.275 cisternas de placas, com a programação de mais 22.500 para o próximo ano, segundo dados da Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Estado (SDA). Há um projeto piloto para a construção de 1.500 cisternas de calçadão, que já foram conveniadas e estão em fase de execução.

Em meio a denúncias de má aplicação de recursos do MDS por algumas Prefeituras no Interior do Ceará para a construção de cisternas de placas (obras inacabadas ou com rachaduras), o esforço de organizações de sociedade civil tem apresentado bons resultados.

As famílias são capacitadas sobre o uso correto das unidades no período de estiagem. Os exemplos, segundo o coordenador da ONG Instituto Elo Amigo, Marcos Jacinto, estão espalhados em diversas comunidades rurais nos Municípios de Cariús, Crato, Jardim, Saboeiro, Piquet Carneiro, Independência, Tauá e Crateús.

Seleção
As instituições que fazem as políticas públicas do Governo Federal chegar à casa dos agricultores integram a articulação do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido. Uma comissão municipal faz a seleção das famílias, que passam por formação técnica, para serem beneficiadas com as obras.

Há dois tipos de cisternas: a de placa, com capacidade para armazenar 16 mil litros de água de chuva captados por calha no telhado, do Programa por Um milhão de Cisternas (P1MC), que começou em 2003; e a cisterna calçadão, do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), que armazena até 52 mil litros de água para uso em irrigação de hortaliças e pomares no quintal das casas.

Para entender a sigla P1+2, Marcos Jacinto, esclarece: "O um significa terra para produção. O numeral dois corresponde a dois tipos de água - a potável, para consumo humano, (armazenada em cisternas de placas), e água para produção de alimentos (armazenada no modelo calçadão)".

As famílias atendidas pelo Programa P1+2 são selecionadas a partir de critérios sociais e econômicos, com prioridade para as casas que já dispõem de cisterna de placa, mulheres na qualidade de chefe de família, presença de crianças de até 6 anos, idosos acima de 65 anos e pessoas portadores de necessidades especiais.

De acordo com a ASA, o objetivo do programa é fomentar a construção de processos participativos de desenvolvimento rural no semiárido brasileiro e promover a soberania, a segurança alimentar e nutricional e a geração de emprego e renda às famílias agricultoras, por meio do acesso e manejo sustentáveis da terra e da água para produção de alimentos.

Na localidade de Riacho do Meio, zona rural de Cariús, quase todas as 54 famílias moradoras do lugar foram atendidas com cisternas de placas e nove do tipo calçadão. Antonieuda Carvalho é uma das beneficiadas e disse que a obra trouxe grande benefício. "Antes, a gente andava com balde na cabeça, indo pegar água distante, no riacho", contou. "Na época do verão, da seca, os poços secavam e água ficava ruim".

Hoje, além da água para o consumo, a família dispõe de verdura e algumas frutas, mesmo no período de verão. "Até abacaxi a gente está plantando", mostrou. "O excesso de produção da verdura a gente dá para os vizinhos". O marido dela é pedreiro e, atualmente, trabalha na construção de outras cisternas em Cariús.

As famílias dão como contrapartida a escavação do terreno, a alimentação dos operários e ajudam no trabalho de construção da unidade. Irani Vieira de Lima, outra beneficiada com a cisterna calçadão, disse que a obra trouxe uma vida nova. "Com certeza, melhorou a nossa qualidade de vida", frisou. "Os frutos que nós produzimos é de forma orgânica, sem veneno". A água acumulada ajuda outra atividade da família: a criação de vacas leiteiras.

O agricultor Emídio Lima, ao lado da esposa, Francisca Lima, mostra-se satisfeito com as duas cisternas. "Foi uma bênção", disse. Inicialmente, o produtor não queria o benefício, por estar idoso, mas hoje agradece. "Já sofri muito indo pegar água no riacho, em poços, mas agora tenho aqui do lado da minha casa".

Na comunidade de Riacho do Meio, a 37Km de Cariús, não se vê mais uma pessoa com lata d´água na cabeça. "A nossa meta é atender outras famílias com cisterna calçadão. Primeiro nós temos a preocupação de capacitar os beneficiários para que usem corretamente as unidades", frisou o técnico do Elo Amigo, Ednaldo do Carmo. A ideia é evitar o uso inadequado ou mesmo a não utilização das cisternas, deixando de captar água no período invernoso. Neste ano, o Elo Amigo em parceria com outras instituições já construiu 77 cisternas de placas, quatro barragens subterrâneas e três tanques comunitários.

MAIS INFORMAÇÕES

Instituto Elo Amigo
Rua 21 de Abril, S/N
Bairro Prado - Município de Iguatu
Telefone: (88) 9962. 5061

Honório Barbosa
Repórter

SERTÃO DOS INHAMUNSTecnologia garante produção
Independência Na localidade de Brilhante, a 9Km da sede deste Município, existem quatro cisternas calçadão. Construídas há quase dois anos, como projeto piloto de uma parceria entre o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) e o Instituto Elo Amigo, a iniciativa comprova a eficiência desta tecnologia de convivência com o semiárido.

Torna possível, com o armazenamento de água proveniente da chuva no período de inverno a produção de frutas, legumes e criação de pequenos animais durante todo o verão, tanto para o consumo das famílias como para gerar renda com a venda do excedente.

"É um sonho por uma época dessa não termos a preocupação com a falta de água, não termos que ir buscar água longe ou correr o risco de não ter onde ir buscar. Temos água em casa, aqui no nosso quintal", comemora Celma Pereira. Para além de possuir a água como um bem necessário ao dia a dia, para beber, banho, cozinhar e outras utilidades do cotidiano de uma família de cinco pessoas, Celma se anima também com a realidade de transformação de vida conquistada por meio da cisterna calçadão, no que diz respeito à produção. "Plantamos primeiro para o nosso consumo, depois vendemos o que sobra".

Depois da construção da cisterna, dá gosto visitar o quintal da casa de Celma e da comadre Isabel Cristina, vizinhas que dividem os benefícios e trabalho advindos da cisterna e canteiros. Está tudo no início, mas a família já se serve da produção de verduras e frutas. "Nesse período o cuidado tem sido dobrado e a produção diminui", afirma Celma. O sol castiga muito a plantação, é tempo da seca. O tomate é o mais prejudicado. O que tem colhido dos canteiros é a cebolinha, coentro e algumas frutas para consumo da família. Diz que vai cuidando e mantendo, enquanto o inverno chega. Quando a produção é boa, vende para a própria comunidade e até manda para vender na sede.

Maracujá, goiaba, abacate, acerola, seriguela, manga, macaxeira, banana, coco, mamão. Tem um pouco de tudo no quintal da Celma. Tudo muito bem cuidado e aguado com o que ainda resta dos 53 mil litros da cisterna calçadão, que ficou cheia com o inverno deste ano. A água é bem aproveitada de todas as formas pela família. Além da produção de frutas e hortaliças, beneficia na criação de animais domésticos. Ela cria galinhas e suínos. Diz que com a chegada da cisterna de produção tudo mudou na vida da família, a partir da alimentação. "Aproveitamos a água de todo jeito em nosso benefício e hoje temos uma alimentação com muita qualidade. Além do feijão e outras misturas trazidas da cidade, temos muitas frutas, legumes, ovos e boa carne. Tudo isso é uma bênção", reflete a agricultora.

Com a cisterna, Celma teve a oportunidade de participar de cursos e conhecer outras formas de plantio para aproveitar a água acumulada na cisterna. Por meio do projeto de implantação viajou, inclusive, para outras cidades que tinham experiências de sucesso em plantios dessa natureza. E decidiu, junto com a vizinha, implantar os canteiros econômicos, nos quais a semente é adubada na terra que depois é coberta com lona, esterco e uma camada de telha, tudo intercalado por canos furados. Fizeram quatro canteiros.

A experiência, viagens, cursos e a prática nos canteiros lhe deram uma nova visão em relação à vida e de como lidar com o seu sistema de produção. Agora, de forma mais sustentável.

Silvania ClaudinoRepórter