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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

História do Sertão - sofrimento das secas é lembrado em caminhada


almas da barragem

Caminhada da Seca reúne 5 mil fiéis

Publicado em 14 de novembro de 2011 

A caminhada em Senador Pompeu é sempre no segundo domingo de novembro. O cortejo inicia às 5 horas
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São cerca de seis quilômetros de distância. São quase duas horas até a chegada ao cemitério da barragem. Neste ano, uma das novidades foi o Cristo Crucificado à frente da procissão
FOTO: ALEX PIMENTEL

Senador Pompeu O ritual se repetiu pelo 29º ano consecutivo. Ainda era madrugada quando milhares se concentraram diante da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, no Centro de Senador Pompeu. Eram fiéis, cerca de 5 mil devotos das Almas da Barragem, a aguardar o sinal para o início do cortejo em homenagem aos retirantes da seca de 1932, dizimados no Campo de Concentração do Açude Patu, na periferia da cidade. Na maioria mulheres, muitas descalças, dispostas a pagar promessas atendidas pelas Santas Almas. Mas havia também o contexto social, representando por organizações não governamentais, e busca de justiça social e reparo histórico da tragédia humana registrada no Açude Patu.

E nesta Caminhada as novidades foram o Cristo Crucificado à frente da procissão e a despedida do padre Carlos Roberto Costa, um dos principais responsáveis pela revitalização da Caminhada da Seca. Foi a última participação dele à frente da Paróquia de Nossa Senhora das Dores. No próximo ano ele deve voltar, mas como missionário de outra freguesia. Nos últimos sete anos, além da mobilização pastoral, era ele quem guiava o rebanho humano pela sinuosa estrada do Santuário da Seca.

Pregação
A cada quilometro percorrido, uma rápida pregação em louvor das santas almas da barragem. Respeitosamente a multidão ouvia algumas passagens do o sofrimento de quem não sobreviveu no curral da fome, como o lugar também ficou conhecido. Um momento de penúria ao saberem de famílias inteiras sepultadas em covas rasas por não conseguirem vencer dois inimigos mortais, a fome e a cólera. "Mas não se foram em vão", justificava a aposentada Maria Augusta Moreira. Mesmo chegando aos 80 anos ela faz questão de participar passo-a-passo de todo o trajeto. Por conta do cansaço nas pernas, caminhada só de ida.

A explicação para a peregrinação, cada vez mais fortalecida, de acordo com o padre Roberto Costa, está no próprio povo, ao depositar suas esperanças no santo coletivo. Com o passar dos anos, os milagres estão surgindo e a fé se fortalecendo. Mas além da religiosidade é preciso refletir sobre o vergonhoso episódio do campo de concentração. Relembrá-lo a cada caminhada é alertar os governantes para que essa passagem nunca mais se repita. Esse é um dos principais propósitos da mobilização criada em 1982 pelo vigário Albino Donatti. Além da fé, a consciência e o desenvolvimento de políticas públicas para convívio com a seca e com o semiárido completam o ato.

E foi justamente o que uma das últimas sobreviventes do Campo de Concentração, Luiza Pereira Lo, relatou para cerca de cinco mil pessoas, mais uma vez, na tradicional missa campal realizada em frente ao Santuário das Almas da Barragem. Tem sido assim ao longo de quase três décadas. Primeiro foi com o padre Albino Donatti, de 1982 a 1994; em seguida, o padre João Paulo, de 1995 a 1999; depois, Frei Duarte, em 2000 e 2001. Ele foi seguido pelo padre José Marques, á frente da Caminhada da Seca até 2004, quando foi substituído pelo pároco Roberto Costa, completando este ano sua sétima participação à frente do movimento católico em louvor das Almas da Barragem.

Distância
São cerca de seis quilômetros de distância. São quase duas horas até a chegada ao cemitério da barragem. O campo santo está situado numa colina com vista para as ruínas da Vila dos Ingleses e a represa pública concluída pelo Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs) em 1987, com capacidade para 71.829.000 m³ e atualmente com 90,5% de sua capacidade, conforme dados da Funceme. Por ironia, justamente onde milhares de flagelados morreram está principal fonte de vida e riqueza da "Terra das almas da barragem".

Além da Igreja Católica, por meio da Diocese de Iguatu, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Antônio Conselheiro (CDDH-AC) e o Instituto Casarão integram o grupo de mobilização da Caminha da Seca.

Alex PimentelColaborador

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

História do Sertão ameaçada


alerta

Abandono de sítios históricos

Publicado em 13 de agosto de 2011 

Dois campos que remontam às memórias das vítimas da seca de 32 estão abandonados em bairros do Crato
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NA MARGEM da Av. Padre Cícero, entre Crato e Juazeiro, cruzes indicam que no local existiu um cemitério para as vítimas da cólera, na seca de 32. Construções invadem o local 
FOTOS: ANTÔNIO VICELMO
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NA MARGEM da Av. Padre Cícero, entre Crato e Juazeiro, cruzes indicam que no local existiu um cemitério para as vítimas da cólera, na seca de 32. Construções invadem o local 
ANTÔNIO VICELMO

Crato. A especulação imobiliária está destruindo os últimos vestígios do cemitério da cólera e do campo de concentração que funcionaram no Crato na seca de 32. Os tratores passaram por cima das cruzes que assinalavam os locais onde as vítimas da seca e da cólera foram sepultadas. Restam somente três cruzes no local, que só não foram arrancadas porque estão na base de um poste de energia elétrica.

O cemitério estava localizado na margem da Avenida Padre Cícero, que liga Crato a Juazeiro do Norte, no campo de futebol, ao lado do terreno da Cerâmica Norguaçu. Ali, os parentes das vítimas da cólera costumavam acender velas, no Dia de Finados. A área está sendo coberta por construções.

A dona de casa Maria Auxiliadora, que reside nas proximidades, disse que sobraram apenas três cruzes que serão brevemente destruídas.

Quanto ao campo de concentração, ou curral dos flagelados, que foi instalado na seca de 32, no Bairro Muriti, ao lado da via férrea, não existe nenhum marco, a não ser a própria linha de ferro e os depoimentos de pessoas que ouviram de seus pais e avós. A aposentada Maria Helenice Brito Vilar conta que o campo de concentração era um curral de crueldades. As pessoas morriam de fome e de cólera. Eram enterradas em valados. As crianças pagãs eram levadas para o cemitério dos coléricos. A alimentação vinha de trem de Fortaleza.

Indústria da seca
Os campos próximos a Fortaleza reuniram em torno de 5,5 mil pessoas. O do Buriti, por sua vez, programado para uma lotação máxima de cinco mil, chegou a manter 18 mil no período de maior intensidade. O comando desse campo coube ao tenente João de Pinho, do Exército Brasileiro. O médico e escritor Napoleão Tavares Neves afirma que a chamada "indústria da seca" nasceu nestes campos de concentração. "Ali eram desviados os alimentos destinados aos pobres", diz Napoleão.

O campo de concentração do Crato fazia parte de sete campos que foram instalados no Ceará nas cidades Senador Pompeu, Quixeramobim, Patu, Cariús, Ipu e Fortaleza (nos lugares Otávio Bonfim e Urubu). Segundo a historiadora Kênia Sousa Rios, os campos "eram locais para onde grande parte dos retirantes foi recolhida a fim de receber do governo comida e assistência médica. Dali não podiam sair sem autorização dos inspetores do Campo. Havia guardas vigiando constantemente o movimento dos concentrados. Ali ficavam concentrados milhares de retirantes a morrer de fome e doenças´´

Ainda que livres em certas horas para circular fora do campo, os refugiados recebiam ração constituída de derivado da mandioca conhecido por "farinha do barco", de cor amarela, trazida do Estado do Pará, cuja má digestão causava males digestivos e insistentes mortes.

Em virtude da desnutrição e de doenças, "morria gente todos os dias, e um caminhão passava recolhendo os corpos no final da tarde para jogá-los em valas na parte alta do campo", afirma a historiadora Rosângela Martins.

O escritor e advogado Emerson Monteiro lembra que naquele ano, à época da moagem, por volta do meio do ano, levas de refugiados saiam pelos brejos do sopé da serra, na busca de alimento. Derivados da cana e o pequi auxiliaram sobremodo na preservação das vidas, apesar de existir ordem expressa do comando do campo para que os proprietários dos engenhos não fornecessem alimento aos famintos. Alguns desobedeciam, a exemplo de José Pinheiro Gonçalves, no Sítio Belmonte.

Ao final da malograda experiência de controle social, no Cariri restaram centenas de crianças órfãs, muitas delas que aqui permaneceram abrigadas por famílias da região.

MAIS INFORMAÇÕES 
Pesquisador Emerson
Monteiro: (88) 3521.3118, Crato
Escritor Napoleão Tavares Neto
(88) 3532.0559, Barbalha


Antônio VicelmoRepórter

terça-feira, 17 de agosto de 2010

História do Sertão preservada em Quixeramobim - CE

SERTÃO CENTRAL (2/8/2010)

Trilhas e pinturas rupestres contam história do sertão

2/8/2010 Clique para Ampliar
Pedra do Letreiro, em Quixeramobim, é um dos locais que registra traços dos povos primitivos que viveram no sertão. São mais de 800 inscrições 
FOTOS: ALEX PIMENTEL

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Trilha do Olho D´água. Nos fins de semana, caravanas de empresas visitam trilhas. São disputadas gincanas com caça ao tesouro e provas voltadas à preservação do meio ambiente.
Mesmo necessitando de cuidados, percursos naturais e históricos conservam tesouros do Vale Monumental

Quixeramobim - Imaginar um sertão sem opções de lazer é não conhecer suas potencialidades, principalmente, as naturais. A mata seca, fechada, esconde segredos perceptíveis aos olhos dos aventureiros, de quem está disposto a caminhar léguas, superar obstáculos, desafios e o próprio cansaço.

De repente pode surgir uma interessante atração diante dos nossos olhos. Trilhas, dezenas delas espalhadas pelo Vale Monumental do Sertão Central, são um desafio e tanto, para se guardar na memória.

Uma delas dá acesso a um dos mais importantes sítios arqueológicos da América Latina, a Trilha do Letreiro. São pouco mais de 3Km de travessia na mata nativa até chegar às formações rochosas com inscrições rupestres de seis a sete milhões de anos. Somente quem tem muita experiência está acostumado com a vegetação e a geografia da região, e consegue ir até o parque recheado de história.

Essa experiência já foi vivida pelo professor e historiador Neto Camorim. Agora nas férias seria ideal formar grupos de excursão até o recanto histórico situado na Fazenda Alegre, situada a 15Km do Centro de Quixeramobim. Uma oportunidade e tanto para conhecer uma das mais curiosas provas da evolução humana. Mas quem resolver ir até lá vai chegar cansado e decepcionado. A trilha não existe mais. O educador alerta as secretarias de Turismo do Município e do Estado para a recuperação do acesso.

Percurso

Mesmo assim, participar do passeio, com pouco mais de uma hora de caminhada, apreciando veredas e mata branca - vegetação tipicamente sertaneja - até a área com centenas de inscrições e gravuras, é no mínimo interessante. Para a educadora Gilmara Araújo, os exóticos símbolos ajudam a reconstruir a vida das primeiras civilizações a habitarem aquela faixa de terras. "Nossos ancestrais deixaram um grande acervo a ser pesquisado. Aspectos da vida cotidiana como a caça, o sexo e a morte são essências das primeiras criações da humanidade. Estão lá", diz.

Pinturas

Segundo a geógrafa e ex-secretária de Turismo de Quixeramobim, Terezinha Oliveira, o Município registra em pedra os traços e costumes de alguns povos primitivos do sertão. Além da Pedra do Letreiro, as marcas espalham-se na zona rural: Canhotinho, São José, Mocó, Poço da Serra e Serrote Santa Maria, na Fazenda Caraíbas; e ainda, na Cachoeira do Nêgo; os serrotes da Onça e da Fortuna, na localidade de Tanquinhos e o serrote da Lagoa do Fofo, na Fazenda Jordão.

A trilha do Olho D´Água costuma ser uma das mais procuradas no inverno. Nesta época do ano ainda seria possível ver a fonte que deu origem ao nome do lugar, mas o castigo da estiagem também chegou por lá este ano. Não bastasse a desventura meteorológica, o portal desabou, literalmente. Sobra a exuberante paisagem a ser apreciada, mas falta manutenção. Vândalos depredaram placas de sinalização e pontos de apoio.

Apesar da falta de cuidado, bromélias e cactos dão um colorido especial ao trajeto. Juremas, paus brancos, catingueiras, pereiros, timbaúbas, araçás e marmeleiros emolduram a enorme rocha.

Vale Monumental

A homogeneidade da paisagem de Quixeramobim e Quixadá levou a Secretaria de Turismo do Ceará (Setur) a agrupar os dois municípios no "Vale Monumental do Ceará", região delimitada pela Setur com o intuito de inclusão dos roteiros dirigidos ao meio científico e aos apreciadores da natureza. Em Quixeramobim, foram realizadas melhorias na Pedra do Letreiro e no Olho D´Água, entretanto, é necessário recuperar as estruturas. Foram danificadas ao longo do tempo, pela ação da chuva e o descuido dos visitantes, avalia Terezinha Oliveira.

Divulgação

Em 2008, a Prefeitura de Quixeramobim formulou projeto enviado ao Ministério do Turismo e Setur, para a obtenção de recursos voltados a uma ação de divulgação destes locais, através informativos, como catálogos e folders a serem distribuídos nos centros de estudos e junto às operadoras de turismo, cuja atenção é voltada apenas para o litoral. "Cabe aos órgãos governamentais uma revisão do ´marketing´ quanto aos destinos turísticos do Estado", completa a especialista.

Conforme o atual secretário de Cultura e Turismo de Quixeramobim, Clébio Pavone, a Prefeitura está levantando orçamento para a recuperação das trilhas do Letreiro e do Olho D´Água. Pelos cálculos da secretaria, dentro de 90 dias os acessos estarão recuperados. Ele ressaltou, porém, a necessidade da conscientização dos visitantes quanto a preservação desses lugares e da história.

AÇÃO EDUCATIVA
Funcionários mobilizam-se para conservar monólitos. 

Quixadá - O exercício ecológico proposto pelo secretário municipal de Quixeramobim é praticado por trabalhadores da Mississipi Indústria de Calçados, neste Município. Nos dias de folga, geralmente nos finais de semana, eles organizam caravanas. Nelas são disputadas gincanas como caça ao tesouro e provas voltadas a preservação do meio ambiente. Coincidentemente, a última delas foi em uma trilha, a da Barriguda, situada na Fazenda Magé, a pouco mais de 5Km do Centro da cidade. Deslumbraram a paisagem sem sujar e nem depredar.

Essa transformação está acontecendo porque há três anos os funcionários participam do programa Ecovidas, criado pelo grupo empresarial Dakota. Através de palestras e apresentações, eles passaram a pôr em prática lições ecológicas transmitidas na empresa. Recentemente, recolheram mais de uma tonelada de lixo do entorno do Açude do Cedro. Na mobilização, orientaram barraqueiros e moradores ribeirinhos. Também distribuíram cestos de lixo.

Os organizadores do Ecovidas estão programando uma expedição por uma das mais interessantes trilhas da região, a da Galinha Choca. São aproximadamente duas horas de caminhada seguindo o rastro de outros exploradores. A enorme quantidade de monólitos - formações rochosas características do lugar - dificulta ainda mais o percurso. Por esse motivo a excursão está sendo bem planejada. Além de água e mantimentos, paramédicos deverão acompanhar os aventureiros.

As equipes Azul, Verde e Vermelha estão participando de uma disputadíssima gincana ecológica. O prêmio: manter a cada dia os monólitos da cidade mais limpos e acessíveis. O encerramento da gincana socioambiental estava previsto para ontem, na Praça da Cultura, no Centro de Quixadá. Na programação, passeata, apresentação de atrações culturais e escolha da Miss Ecologia e do mascote da empresa. Luna, Tito, Guru e Balu, são alguns dos personagens de estimação criados pelos próprios funcionários.

Pinturas Rupestres

A Pedra do Letreiro tem 875 inscrições rupestres. É rodeada de outras 16 formações rochosas em forma de círculo, no leito de um riacho com queda d´água.

A trilha do Olho D´Água fica no sítio Serra do Caboclo, a 32Km da sede de Quixeramobim.

Canhotinho, na fazenda com o mesmo nome, é rota para inscrições rupestres e um olho d´água cercado por belos monólitos.

A Trilha da Barriguda, em Quixadá, recebe esse nome porque, após atravessar uma fresta de 10 metros de comprimento, entre uma imensa formação rochosa, ao se deparar com uma clareira, vê-se uma enorme paineira cujo tronco lembra a barriga de uma mulher grávida.

Mississipi Indústria de Calçados
Quixadá/CE
(88) 3445.0004

MAIS INFORMAÇÕES 

Secretaria Municipal de Turismo
Quixeramobim/CE
(88) 3441.1326

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=825316

domingo, 1 de agosto de 2010

História do Ceará passa pelo Sertão

Ferrovia completa centenário

1/8/2010 Clique para Ampliar
Estação de trem de Iguatu em 1910, ano de sua construção e, junto, trouxe o desenvolvimento econômico. Foto histórica mostra fardos de algodão para serem transportados 
FOTO: HONÓRIO BARBOSA

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Ponte sobre o Rio Jaguaribe era necessária para facilitar o trajeto do trem. Obra demorou seis anos para ser concluída
Inaugurada em 5 de novembro de 1910, a ferrovia promoveu o desenvolvimento econômico de Iguatu

Iguatu - Neste ano, acontece o centenário da chegada do trem a esta cidade. A ferrovia trouxe o crescimento da antiga vila da Telha, impulsionando os negócios, favorecendo o transporte de passageiros e de produtos agropecuários. Deixava-se de transportar mercadorias em lombos de animais, em tropas de burro, para usar vagões puxados por uma máquina a vapor, a Maria Fumaça. Ganhava-se tempo e dinheiro.

A chegada da ferrovia é um acontecimento histórico que mudou significativamente o destino deste centro urbano, que passou a ser um dos cinco maiores do Interior do Ceará. Provocou profundas transformações no cenário urbano, nos hábitos de vida e aproximou mais esta cidade da Capital. As comunicações foram modernizadas.

De acordo com relato histórico do advogado Luiz Barros, publicado em 1982 na revista do Instituto Histórico do Ceará, em comemoração ao centenário do magistrado, a estrada de ferro ligando Iguatu a Fortaleza é inaugurada oficialmente em 5 de novembro de 1910.

A solenidade festiva de inauguração aconteceu em frente à casa do intendente municipal da época, Belizário Cícero Alexandrino. O presidente da Província do Ceará, comendador Antonio Pinto Nogueira Acioli, foi representado pelo juiz de Direito, Alerano de Barros. O ato contou com a participação do diretor da Estrada de Ferro, Zózimo Barroso e de centenas de moradores. "Houve muitos discursos, queima de fogos, balões foram soltos em comemoração ao acontecimento", disse o pesquisador e memorialista Wilson Lima Verde.

As transformações ocorridas foram visíveis a partir do funcionamento regular do trem ligando Iguatu a Fortaleza. A pesquisa histórica de Barros relaciona: muitas casas foram construídas, dois hotéis foram instalados e foi preciso implantar um novo cemitério porque o antigo ficava muito próximo à estação ferroviária. A rua do comércio chegou até a Praça da Estação. Abriu-se um cinema.

Um detalhe da vida social mundana não foi esquecido no relato histórico de Barros. As irmãs Batistas abriram um cabaré, que reunia homens e atraia clientes aos domingos. Costumava-se beber muito no lugar.

Festejos

A Secretaria de Cultura do Município se prepara para festejar a data. De acordo com a secretária, Diana Mendonça, em meados de agosto próximo, haverá uma reunião para definir o programa de comemoração do centenário da chegada da ferrovia a esta cidade.

"A programação deverá durar uma semana, com palestras, homenagens, exposições, lançamento de artigos e pesquisa histórica", adiantou. O pesquisador Wilson Lima Verde lembra que a primeira máquina a vapor era apelidada de ´Cafuringa´ e a primeira que chegou a esta cidade era a de número 10. "A chegada do trem era um acontecimento social. Dezenas de pessoas, bem vestidas, ocupavam a plataforma da estação", conta.

Os moradores iam receber parentes, amigos, simplesmente ver quem estava viajando, desembarcando, e comprar jornais e revistas que vinham da Capital. Três anos após a instalação da ferrovia, foi instalada a primeira fábrica local de beneficiamento de arroz e depois de algodão, numa iniciativa do coronel José Mendonça.

Indústrias

Em 1920, o empresário Trajano de Medeiros implantou a indústria Cidao, de beneficiamento de algodão e óleo. Na mesma década, seguiram-se outros empreendimentos: quatro fábricas de beneficiamento de algodão. A indústria São José, de Lafaiete Teixeira; Santa Margarida, de Virgílio Correia; uma de Otaviano Benevides e outra da viúva Romeiro. "O surgimento dessas empresas mostram a importância da ferrovia que impulsionou o desenvolvimento local", frisou Lima Verde.

A passagem da ferrovia por Iguatu relaciona-se com uma decisão de lideranças políticas da cidade de Icó, que no final do século XIX era o maior entreposto comercial do Estado.

OBRA INGLESA
Ponte marca engenharia

Iguatu - A ponte ferroviária metálica sobre o Rio Jaguaribe, nesta cidade, é considerada um marco de engenharia para a época. A obra era necessária após a chegada da ferrovia a Iguatu em 1910 para que o trem pudesse ultrapassar o obstáculo natural e os trilhos tivessem continuidade em direção à região do Cariri. Enquanto os operários abriam picadas e instalavam trilhos, aguardava-se a chegada das peças da Inglaterra e a montagem da ponte que demorou seis anos.

De acordo com pesquisa em documentos históricos da extinta Rede Ferroviária Federal, feita pelo engenheiro César Albuquerque Marques, a ponte metálica ferroviária sobre o rio Jaguaribe, nesta cidade, foi construída pela companhia inglesa "South American Railway Construction Company Limited", que assumiu em 1910, por meio de regime de arrendamento, as operações de prolongamento das ferrovias no Ceará. Na época, a Estrada de Ferro Baturité e a Estrada de Ferro Sobral.

Em 1909, aquelas duas ferrovias foram fundidas e surgiu uma nova empresa, denominada Rede Viação Cearense (RVC). Com o novo contrato, os ingleses criaram a "Brazil North Eastern Railway", com o objetivo de construir as estradas de ferro no Estado.

A nova empresa ferroviária encontrou construída ou em fase de conclusão o trecho Girau, na atual cidade de Piquet Carneiro e Afonso Pena, atualmente Acopiara.

A Estação de Iguatu foi inaugurada oficialmente em 5 de Novembro de 1910. Para a conclusão, a ferrovia ficou com as obras naquela cidade aguardando a construção da ponte sobre o Rio Jaguaribe.

Fique por Dentro 
História

A ponte metálica sobre o Rio Jaguaribe consta de dois vãos em arco com 80 metros cada, totalizando 160 metros de extensão. A obra foi inaugurada após a realização de vários testes no dia 23 de Janeiro de 1916, permitindo o tráfego ferroviário para o distrito de José de Alencar, cuja estação foi inaugurada em 30 de março de 1916, seis anos após a inauguração da ferrovia em Iguatu. "A mencionada obra, que na época foi um marco da engenharia, foi construída e projetada pela companhia inglesa e as estruturas metálicas fabricadas em Liverpool", recorda o historiador Albuquerque. A obra ferroviária seguiu um novo trajeto, beneficiando a cidade de Iguatu, que era uma vila pequena, provinciana, mas que passou a assistir um crescimento econômico e formidável e assumiu a liderança econômica da região Centro-Sul do Estado do Ceará. Há de se observar que Iguatu já fora distrito de Icó, antes de emancipar-se.

HONÓRIO BARBOSARepórter

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Exposição sobre Lampião

HISTÓRIA (5/5/2010)

Faces de Lampião

5/5/2010 Clique para Ampliar
Mulheres passaram a integrar o bando depois do ingresso de Maria Bonita
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Lampião tinha prazer em posar para as fotos segundo a historiadora Élise Jasmin, que publicou o livro "Cangaceiros"
Exposição com objetos pessoais e cerca de cem fotografias do cangaceiro mais famoso e seu bando podem ser apreciados a partir de amanhã no Espaço Cultural Porto Freire, com presença da neta dele, a jornalista Vera Ferreira

Figura polêmica, que circula entre os dois extremos (bandido e herói), Lampião ainda hoje exerce fascínio e curiosidade. De trajes de couro, chapéu, armas sempre à vista e acompanhado de seu bando, era temido por onde passava, fazendo a "justiça" pela vingança.

A partir de amanhã, a exposição "Cangaceiros", que já esteve no Dragão do Mar há dois anos, conta a trajetória de Virgulino Ferreira da Silva por meio de fotografias, objetos e recortes de jornais. "Essa mostra foi vista, pela primeira vez, em Montpellier, na França, e depois em Paris. No Dragão, teve 25 mil visitantes", explica o coordenador Ricardo Albuquerque.

Para abrir a exposição, a jornalista Vera Ferreira, neta de Lampião, fará uma palestra sobre o avô. "Todos os depoimentos que ouvi, falam dele como homem de palavra e correto. As coisas não são bem colocadas, admite-se sempre a história do vencedor, as pessoas precisam entender a história das revoluções sociais no Brasil, os Conselheiros, as Balaiadas, enfim. Sou a favor da história, não do ego de cada um. Nem como neta, tenho o direito de mudar isso", defende.

Segundo Vera, há casos de jornais da época, de estados diferentes, que noticiam Lampião praticando atrocidades ao mesmo tempo. Dos depoimentos que ouviu cita, por exemplo, as conversas que teve com integrantes do bando, como Candeeiro, ainda vivo, reiterando o respeito entre eles e descrevendo Lampião como pessoa calma e tranquila.

Com 100 fotografias, que estampam o livro da historiadora francesa Élise Jasmin, a exposição é feita de vários momentos. Registra, por exemplo, as primeiras imagens do grupo em 1926, quando Lampião se dirigiu para Juazeiro do Norte para receber a patente de Capitão do Padre Cícero, e os subgrupos nos quais o bando estava dividido, a exemplo do comandado por Corisco. "De acordo com a necessidade, eles se separavam para facilitar", explica Ricardo.

Há ainda uma série de imagens das mulheres, que depois do ingresso de Maria Bonita, também passaram a acompanhar Lampião. Responsáveis pelo desenvolvimento dos trajes, elas começaram a fazer enfeites para as roupas, que podem ser vistos principalmente depois da chegada do grupo a Juazeiro. As chamadas volantes, polícias estaduais, também aparecem nas fotografias durante a fase de repressão, seguidas pelas imagens do cangaceiro morto e decapitado.

Vídeo

Haverá ainda a exibição do vídeo realizado pelo mascate libanês Benjamin Abrahão, que filmou Lampião e seu bando, transformando-se em seu fotógrafo e cineasta oficial. A cada sábado de maio, será apresentado um filme sobre o cangaço. Nos sábados de junho, acontece uma feira mix com artesanatos, comidas típicas e danças. Os direitos das imagens pertencem ao ICCA e à Sociedade do Cangaço

MAIS INFORMAÇÕES:
"Cangaceiros". De amanhã a 30 de julho, no Parque del Sol (Rua Joãozito Arruda, s/n - Cidade dos Funcionários). De terça a sexta, das 9 às 19 h, sábados e domingos, das 14 às 19 h

SÍRIA MAPURUNGA
REPÓRTER

Fonte: Jornal Diário do Nordeste - Caderno 3 - http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=779716