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sábado, 19 de novembro de 2011

Para além de estatísticas e teorias, a voz das pessoas


A pesquisadora que foi ao cerne do Bolsa Família

Brasilianas.org entrevista Walquíria Domingues Leão, professora do Programa de pós-graduação em Sociologia da Unicamp sobre a pesquisa realizada por ela analisando os impactos do Bolsa Família na vida das mulheres.
O trabalho de Walquíria Domingues Leão não possui estatísticas complexas, não recorreu a pesquisas com questionários fechados. Durante cinco anos ela foi ouvir mulheres em regiões tradicionalmente não assistidas pelo Estado – como o Vale do Jequitinhonha e o sertão alagoano, entre outras. Sua intenção foi avaliar os impactos sobre as pessoas da renda em dinheiro – tanto do Bolsa Família quanto do aumento do salário mínimo. Quis saber os efeitos sobre a vida pessoal, a cidadania, a maneira como as pessoas passaram a se ver.
Em geral, os pobres são vistos como massa homogênea. Como tal, sujeitos a toda espécie de visão preconceituosa. Seriam pobres por serem preguiçosos; não poderia receber em dinheiro por não saberem fazer cálculo prudencial (calcular o dinheiro até o final do mês); gastariam em supérfluos e bebidas; as mulheres (que são as titulares do Bolsa Família) acabariam cedendo as senhas aos maridos. E assim por diante.
Com forte formação de esquerda, Walquíria se surpreendeu ao perceber a extraordinária função social do dinheiro – especialmente para quem sai da zona da extrema pobreza. O primeiro mito a cair foi o dos cálculos para manuseio do dinheiro. Nos depoimentos colhidos, mulheres confessavam que na primeira vez que receberam do Bolsa Família, gastaram o dinheiro na primeira semana. Na segunda vez, já sabiam calcular para o dinheiro durar até o final do mês.
Do mesmo modo, não encontrou mulheres que tenham cedido às pressões do marido para outras destinações aos recursos. Primeiro, porque tinham contrapartidas a apresentar: pesar as crianças no posto de saúde, apresentar atestados de frequência escolar dos filhos. Depois – como disse uma delas, em um relato que espalhou emoções no seminário: “Isso tudo não é mais para mim. São para meus filhos. Meu tempo já passou”.
Em uma das melhores entrevistas da pesquisa, com uma senhora de Demerval Lobão, interior do Piauí, foi-lhe descrito o sentimento que se apossou dela quando descobriu que tinha “crédito” no comércio. Isto é, os comerciantes acreditavam nela. “Antes eu não era nada. Ninguém me vendia nem uma caixa de fósforos”.
A renda monetária conferiu-lhes dignificação da vida, confiabilidade. A possibilidade de escolha – entre comer feijão ou macarrão, por exemplo – mudou sua percepção sobre a vida, a cidadania, os direitos, constatou Walquíria.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Bolsa Família e Microcrédito - um casamento possível

Sobre o Crediamigo, Néri destaca que o programa já é usado no Rio de Janeiro


ESPECIALISTA DEFENDE - Bolsa Família poderia servir como seguro

Um casamento ainda não institucionalizado, que tende a dar certo. É assim que o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Marcelo Néri, vê o futuro da relação entre o programa de microcrédito Crediamigo e o programa social do governo Lula Bolsa Família. Os dois programas foram temas de debate, ontem, na sede do Banco do Nordeste (BNB), em Fortaleza, durante o Fórum BNB de Desenvolvimento, que segue até hoje, no Passaré.

Crítico abertamente declarado do Programa Fome Zero, Néri se diz ´fã´ do Bolsa Família que, para ele, poderia se transformar num grande seguro a ser usado para atender a população mais pobre em situações de crise. ´Melhor do que abater o Imposto de Renda é dar o Bolsa Família para o pobre, mas de forma temporária, usando a infra-estrutura que o programa já tem´, propõe.

Programa revolucionário

Para o pesquisador da FGV, o programa é uma revolução diante de seu alcance e da relação entre a educação dos filhos e o acesso ao benefício. O pesquisador destacou ainda o baixo custo do programa. ´Ele custa apenas 0,4% do nosso PIB (Produto Interno Bruto) e atende quase toda a população brasileira´, reforça.

Falando do Crediamigo, Marcelo Néri diz que o programa é ´exemplo por achar riqueza no meio da pobreza´.

Programa de microcrédito de referência no país e na América Latina, o Crediamigo teve sua tecnologia exportada para o Rio de Janeiro onde está implementado, em caráter experimental, desde março.

´A gente tem que dar crédito às políticas que merecem. O Bolsa e o Crediamigo são dois marcos do Brasil nas áreas econômica e social e também pelo fato de o Nordeste está exportando tecnologia para o Sudeste´, diz o professor.

Até 2003 o lucro mensal de quem entrava no Crediamigo era de R$ 1.212,00, hoje esse valor cresceu para R$ 1.727,00. Antes de 2003 a operação inicial do cliente, ou seja, antes de tomar o empréstimo, era R$ 1.500,00. Em 2008 o lucro inicial é de R$ 1.097,00.

´Isso mostra que chega-se mais na base a cada ano´, observa o pesquisador.

Néri destaca o alto índice de adimplência dos clientes incluídos no programa.

´Mesmo com a crise, a taxa de inadimplência do Crediamigo está hoje em 1,13%´, friza. Para Néri não existe melhor política social do que oferecer um posto de trabalho eficiente a um indivíduo.

Crise mundial

Embora reconheça que a crise financeira mundial não chegou muito forte ao Brasil, Marcelo Néri acredita na capacidade do país para superar seus reflexos. ´Temos um conjunto de políticas sociais excelentes e com a vantagem de respeitar as regras de mercado´, ressalta o pesquisador, que pondera: ´Podemos jogar melhor´, diz. Segundo ele, uma das formas de melhorar as defesas do país contra a crise é baixar os juros mais rapidamente.

Para o professor da FGV, o momento de crise é visto como oportunidade de inovar políticas públicas e tirar lições das dificuldades. ´O ganho transitório do Bolsa Família pode contribuir para diminuir as diferenças regionais´, exemplifica. Como no programa, Néri diz que o Brasil precisa ter o olhar sobre os mais pobres para reduzir as desigualdades de maneira mais geral.

Caráter permanente

A secretária Nacional de Renda de Cidadania Substituta, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Camile Sahb Mesquita, entende que o cadastro do Bolsa Família poderia ser utilizado para atender a população em situações de calamidade, entretanto, ela lembrou que a proposta do programa é permanente.

´Falam que o Bolsa (Família) dá o peixe e não ensina a pescar. Mas, o importante no programa é a articulação que ele tem com saúde e educação. Isso é fundamental´, defende.

Ângela Cavalcante
Repórter

Fonte: Jornal Diário do Nordeste - Caderno Negócios. Fortaleza, 17 de julho de 2009.
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=655095