sábado, 30 de abril de 2011

História de Juazeiro

História de Juazeiro é revelada ao mundo

Publicado em 24 de abril de 2011 

Numa missão quase profética, o sociólogo Ralph Della Cava leva a história de Juazeiro para a esfera mundial
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A fé dos romeiros
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Ralph Della Cava em sua última visita ao Ceará, durante a III Conferência Internacional sobre o Padre Cícero
FOTO: CID BARBOSA

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Juazeiro permite que sua história seja descoberta inúmeras vezes, não só pelos trabalhos acadêmicos que inspira, como também na fotografia e no cinema
FOTOS: ELIZÂNGELA SANTOS/THIAGO GASPAR

Fortaleza. "Vá a Juazeiro e conte a história", disse o antropólogo Charles Wagley ao seu jovem orientando, Ralph Della Cava. Ele não sabia, mas a ordem do professor, na Nova York dos anos 60, continha o mesmo tom profético da visão relatada pelo Padre Cícero Romão Batista no final do século XIX, em sua primeira visita a Juazeiro, quando Jesus apresenta-lhe em sonho uma multidão de famintos e ordena: "E você, Padre Cícero, tome conta deles".

Para quem acredita que o futuro não é uma obra somente de nosso fazer ou querer, tais momentos têm a força de selar um destino. Foi assim que, entre as diversas opções para a tese de doutoramento, o brasilianista e sociólogo optou por pesquisar o suposto milagre ocorrido numa pequena cidade do Cariri cearense, protagonizado por este tal Padre Cícero, misto de proscrito e santo popular.

A pesquisa deu origem à obra referencial sobre os fatos que levaram Juazeiro do Norte a se tornar um dos mais importantes espaços de devoção popular do Brasil. Publicado em 1977, "Milagre em Joaseiro" também abriu caminho para que pesquisadores de outras áreas abordassem o fenômeno.

O conselho de pesquisa do orientador foi quase uma instância, diante da falta de estudos sobre o milagre em Juazeiro. "Wagley, que era um grande antropólogo, me falou assim depois de ter lido um ensaio de aula que escrevi sobre Juazeiro: ´Euclydes escreveu sobre Antonio Conselheiro e eu quis fazer justiça ao grande protetor do povo do Nordeste, o Padre Cícero Romão Batista; mas não o fiz. Della Cava, vá lá você e conta a história´", recorda o pesquisador em entrevista exclusiva.

Mas "contar a história" de Juazeiro não era (e nunca é) uma questão tão simples. "Os arquivos a que tive acesso e as conversas de que participei quase todas as noites nas rodas de calçada revelaram um mundo bem mais complexo do que até então foi descrito pelos historiadores. Aos poucos eu ia inserindo a história de Juazeiro do Padre Cícero nos contextos mais globais. Para mim, Juazeiro era inseparável da política nacional da República Velha, das instâncias local, nacional e internacional da Igreja Católica, e finalmente, da economia internacional, sempre em mudança, da qual o sertão e o Cariri faziam parte", avalia.

Foram 14 meses de pesquisa no Rio de Janeiro, Fortaleza e Juazeiro do Norte, entre levantamento de documentação e coleta de relatos de pessoas que conviveram com Padre Cícero ainda vivas. A ligação afetiva com o Ceará se estende à família, já que a filha Miriam nasceu em Fortaleza e passou os primeiros meses de vida em Juazeiro.

Mudanças

Após a publicação do livro, Della Cava retornou ao Ceará em outras ocasiões, "uma vez em cada uma das últimas quatro décadas", precisou. A última foi em 2006, durante a III Conferência Internacional sobre o Padre Cícero. Nos últimos anos, o sociólogo acompanhou a gradual mudança de postura da Igreja Católica.

A Diocese do Crato, antes combativa em relação à fé romeira, agora lidera um esforço pela reabilitação do Padre Cícero. Mas para Della Cava, este é um movimento que remonta à ação pastoral do monsenhor Francisco Murilo de Sá Barreto, que foi vigário de Juazeiro e defensor das romarias.

"A iniciativa do dom Fernando [Panico, atual bispo do Crato] também responde ao número crescente das romarias para Juazeiro, ao mesmo tempo que reconhece a grande oportunidade e o dever de cuidar deste rebanho-peregrino. Há também os que citam o aumento de cristãos católicos que trocam a sua fé histórica pelas confissões pentecostais, e depreciam esta ´nova postura de acolhimento´ como uma reviravolta, destinada principalmente a recuperar as ´almas perdidas´".

E se o processo levar à canonização do Padre Cícero? "Para muitos devotos, o Padim já é santo. E se um dia Roma o proclamar, dirá o devoto: ´Não Lho disse, ô Seu Mercê?´. Em bom latim isto seria a prova do refrão: ´Vox Populi, vox Dei´, a voz do povo é a voz de Deus".


FIQUE POR DENTRO

Compromisso

Ralph Della Cava atualmente é professor de História no Queens College da Universidade da Cidade de Nova York. Lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade de Columbia. "Milagre em Joazeiro" foi publicado em 1970, pela Columbia University Press, e teve sua primeira edição brasileira em 1976, pela Editora Paz e Terra. O livro é uma referência não apenas para a historiografia brasileira, como também para a Sociologia e a Ciência Política, pelo referencial teórico e metodológico. Ao investigar uma realidade local, Della Cava compreendeu que ela só poderia ser analisada no contexto de outras relações, a partir de vinculações com a história nacional e geral. Seu compromisso com o Brasil foi além da pesquisa acadêmica, ao liderar nos Estados Unidos uma corajosa campanha de esclarecimento sobre o regime militar nos anos 60.


RECONHECIMENTO

Pesquisador ganhará título "honoris causa" pela UFC

Fortaleza. Cerca de 40 anos depois de sua vinda ao Brasil, a Universidade Federal do Ceará (UFC) decidiu outorgar a Ralph Della Cava o título de doutor "honoris causa", durante as comemorações do centenário de Juazeiro do Norte. Em princípio, a outorga seria realizada em junho, durante a realização do Cine Ceará em Juazeiro.

"É uma honra incrível, mal merecida. Infelizmente, não posso vir em junho. Bem antes de saber da honra, decidimos, a minha esposa Olga e eu, fazer em junho uma espécie de romaria histórica: iremos visitar a aldeia na Alemanha onde ela, menina, se refugiu nos dias finais da Segunda Guerra Mundial. Ainda aguardo o convite oficial da Universidade para poder colaborar com seus planos e contemplar uma data mutuamente conveniente para minha vinda", justifica o sociólogo.

O estudo de Della Cava incentivou outros pesquisadores a abordar Juazeiro sob outros enfoques. "A produção tem sido enorme. Nos últimos decênios a Academia virou uma verdadeira fábrica de trabalhos de mestrado e doutorado sobre o Juazeiro. Minha ótica global ia ficando concorrida por tantas outras, nenhuma melhor ou pior. Mas, quando são tomadas no seu conjunto, elas ampliam, aprofundam e diversificam as abordagens".

O sociólogo ressalta os trabalhos realizados por Diatahy Bezerra de Menezes (sobre o papel das classes populares em Juazeiro), Luitigarde Cavalcante Barros (com foco na cultura sertaneja), Geová Sobreira e Gilmar de Carvalho (mostrando como o cordel e a xilogravura contribuíram para a memória coletiva) e Maria do Carmo Pagan (que restaurou a centralidade da Beata Maria de Araújo na história de Juazeiro).

"Há ainda coleções de documentos escavados de cartórios, genealogias familiares e cartas pessoais. Fotografias de Juazeiro de todas as épocas publicadas pelo Daniel Walker na internet. Para não falar da preservação de documentários cinematográficos e o sucesso do filme de Wolney Oliveira ["Milagre em Juazeiro"]".

Mudanças

Questionado sobre a percepção das atuais mudanças em Juazeiro, ele destaca os avanços no campo acadêmico e de pesquisa histórica. "Menciono somente três que me interessam mais de perto: a própria implantação da Universidade Federal do Ceará no campus de Juazeiro, os dez anos de estudos sobre a educação no Ceará, sob a iniciativa da professora Juraci Maia, e o descobrimento e a consolidação de inumeráveis ´novos´ arquivos sobre o Padre Cícero, levados para frente pela garimpagem dedicada e incansável do professor Renato Casimiro e do padre Francisco Roserlândio".

Na abundância de fontes e possibilidades de abordagem de um tema tão complexo, Della Cava entrevê que Juazeiro ainda tem muita história para contar ao mundo. "A história de Juazeiro não é fixa, estática. É móvel, dinâmica, capaz de ser descoberta repetidamente. Na vitalidade de seus habitantes e na atualidade de sua cultura, Juazeiro está nutrindo os seus futuros historiadores".


Karoline VianaRepórter

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