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domingo, 16 de maio de 2010

Mel - Alternativas Sustentáveis para o Semiárido


ABELHAS NATIVAS

Sustentabilidade ambiental

16/5/2010 Clique para Ampliar
AS MELGUEIRAS ESPECIAIS SÃO instaladas nos troncos das árvores nativas. A preferida pelas abelhas melíponas é a imburana 
ALEX PIMENTEL

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CRISTOVÃO SLVA Farias é o engenheiro agrônomo e técnico do Cetra, que trabalha no projeto em Quixadá
ALEX PIMENTEL
Projeto, em Quixadá, recruta abelhas como parceiras de economia alternativa e preservação ambiental

Quixadá. Pequenos produtores da comunidade de Lagoa do Mato, zona rural de Quixadá, são incentivados ao manejo sustentável de abelhas nativas como fonte de economia alternativa e preservação ambiental. A iniciativa é do Centro de Estudos e Defesa do Trabalhador (Cetra). Um engenheiro agrônomo acompanha a implantação do projeto de revitalização da Caatinga voltado para produção de mel orgânico e de pasto apícola. A proposta se complementa com a recuperação das colônias de melíponas.
Além da oficina sobre o manejo e a coleta de mel, a entidade parceira do Projeto Dom Helder Câmara distribuiu criatórios com os grupos da agricultura familiar. É a primeira experiência realizada no Sertão Central do Ceará. Dezoito famílias estão montando 40 caixas de melíponas no entorno de Lagoa do Mato, comunidade rural situada a 58Km do Centro de Quixadá. Foi a recompensa recebida pelo aprendizado da lição de sensibilização.
No curso, a Caatinga é citada como um dos biomas mais ameaçados do Brasil, sendo o único exclusivamente brasileiro, abriga fauna e flora endêmicas. O desmatamento para produção de carvão, a criação de gado extensivo, a produção de queimadas para agricultura proporciona o desaparecimento de espécies polinizadoras, como as abelhas nativas. Também são responsáveis pela degradação desse ecossistema tipicamente brasileiro.
Conforme um dos agentes sociais do Cetra, Rosângelo Marcelino da Silva, a sensibilização é crucial para a sucesso da experiência. A prática exploracionista de muitos meleiros colabora para o sumiço das abelhas. O mel é extraído sem critério, deixando esses insetos vulneráveis ao ataque de predadores. O avanço do corte de lenha, de umburana e catingueira são outras razões para a extinção das melíponas, enfatiza o mobilizador do Cetra.

Função
O agrônomo do Cetra, Cristóvão Farias, expõe as melíponas como abelhas nativas. Co-evoluíram com as florestas. Elas desempenham uma função importante de polinização das plantas e consequentemente na preservação da Caatinga. Pesquisas apontam as abelhas como responsáveis por 90% da transferência dos grãos de pólen de uma flor para a outra nas matas nativas. Na opinião deles, esse processo natural justifica os ganhos ambientais e, ainda, a importância de ações dessa natureza.
Quanto ao modelo de criação de melíponas implantado no Sertão Central é fundamento na experiência pioneira no Ceará, desenvolvida na comunidade de Lagoa das Pedras, município de Apuiarés, no Vale do Curu, Zona Norte do Estado. "Dá certo. Vale a pena trabalhar com esse tipo de abelha", comenta empolgado Everardo Moreira, um dos 39 apicultores daquela localidade. Ele foi o primeiro a acreditar na alternativa. Possui 32 colmeias povoadas. Em 2009 recolheu 20 quilos. Lucrou R$ 1.600,00.
Segundo o Cetra, no Ceará, além de Lagoa das Pedras, apenas pequenos produtores de Vieira dos Carlos, no Trairi, compartilhavam essa experiência. Agora, Lagoa do Mato e outras oito comunidades do Sertão Central estão sendo beneficiadas: Camará, Serrinha, Recreio e Lages, em Quixeramobim e Campo Alegre, Palmares e Sítio Veiga, em Quixadá. O projeto conta com recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (Cida) e apoio do Sebrae.

MAIS INFORMAÇÕES
Cetra
(88) 3444.3006
E-mail: quixeramobim@cetra.org.br

VANTAGENS
Atividade não representa risco

Quixadá. De acordo com o engenheiro agrônomo e técnico do Centro de Estudos e Defesa do Trabalhador (Cetra), Cristóvão Silva Farias, "a principal vantagem na criação de abelhas sem ferrão, as melíponas, está no prazer que o manejo diário proporciona às famílias rurais, uma vez que esta atividade não representa qualquer risco de acidentes com os enxames. São assim chamadas por apresentarem este instrumento de defesa atrofiado, são verdadeiramente insetos sociais".
O mel desse tipo de abelha também é mais medicinal do que de outras abelhas agregando assim mais valor comercial ao produto. Segundo ele, isso ocorre por duas razões.

Seletivas
"As melíponas, como a jandaíra, são seletivas na escolha das flores visitadas, e também porque elas produzem um antibiótico no mel, chamado de inibina, evitando o desenvolvimento de fungos e bactérias que possam azeda-lo. Esse processo está relacionado ao amadurecimento desse tipo de mel. Apresenta menor viscosidade e maior umidade, em média 40%, sendo mais fácil de fermentar e, portanto, com maior teor de inibina em relação as africanizadas", explicou o engenheiro. Já as jandaíras são abelhas indígenas, nativas do território brasileiro, não foram trazidas e introduzidas pelo homem de outras partes do mundo, como ocorreu com as abelhas do gênero Apis melífera. Diz que elas constroem seus ninhos em ocos de árvores, cupinzeiros e formigueiros, e nos mais variados locais onde encontram espaço e segurança suficientes para o desenvolvimento da colônia.

Materiais
"Na elaboração dos ninhos utilizam diversos ´materiais de construção´ tais como a cera pura, o cerume (mistura de cera + própolis) ou ainda o batume (própolis + barro), destinados e vedação e delimitação do espaço. No interior do País é comum encontrarmos abelhas sem ferrão sendo criadas em troncos de árvores cortados e fechados com barro. Para dar condições ao homem de coletar o mel devidamente, foram criados diversos tipos de caixas racionais para as mais diversas espécies de abelhas", finalizou.

Alex PimentelColaborador
Fonte: Jornal Diário do Nordeste - Caderno Regional - http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=786094

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ceará - Adivinhas da chuva

17/1/2010

UMA TEM 72 ANOS, A OUTRA, 14. EMBORA DE GERAÇÕES DIFERENTES, COMUNGAM DO MESMO CREDO QUANDO, POR MEIO DE INSTRUMENTOS DA NATUREZA, ANUNCIAM COMO SERÁ O INVERNO

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Lourdes Leite, 72 anos, é a única mulher com direito à voz no Encontro Anual dos Profetas da Chuva. Já a adolescente Catarina Silva, 14, segue os passos do pai, profeta Antônio Lima

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A natureza oferece aos profetas da chuva, como dona Lourdes, os indícios de um inverno promissor ou de uma estiagem rigorosa

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Lourdes em frente ao sombreão todo florido, um sinal, segundo ela, de que o inverno de 2010 será bom . Acima, detalhe da flor


No frechal da cozinha, uma pequena tábua de madeira espera até a manhã seguinte pelo olhar atento de dona Lourdes Leite, 72 anos. É 14 de dezembro, um dia após a data reservada a Santa Luzia, e lá está a profetisa a adivinhar a sorte das chuvas para 2010.


Passadas algumas semanas após as indicações da tábua de madeira, a professora aposentada avalia: "Nas minhas previsões, o inverno já começou. Aqui, tem chovido desde o dia 31, tô é com medo, penso que vai ser forte. Teve uma chuva que achei até que era pedra de gelo".

Lourdes mora no bairro Campo Velho, em Quixadá. Ela é a única mulher com direito à voz no tradicional Encontro dos Profetas da Chuva, que acontece, anualmente, no segundo sábado de janeiro.

Sal grosso

Ela orgulha-se do instrumento com o qual prevê o destino de muita gente, principalmente dos agricultores. O sal grosso, colocado sobre os pontinhos correspondentes aos meses do ano, "chora", como se diz.

Sentada em sua receptiva sala, Lourdes anuncia os resultados da experiência: "Todos os meses molharam, mas é pra maio que vem mais chuva. Escrevi até junho, porque esse ano o inverno será mais curto".

Se os homens estão satisfeitos com a existência de uma profetisa? "Acho que ficam meio de orelha em pé: olhe essa mulher nos desafiando!", brinca a alegre senhora, que faz piada de tudo, até da recente cirurgia de catarata que lhe fez enxergar melhor os moços bonitos. Sobre o universo masculino, aliás, ela tem muito o que dizer.

Gerou seis meninos, embora nunca perdesse a esperança de ganhar uma mulher. O sonho acabou se realizando, pois criou Maria do Socorro, hoje, residente em São Paulo, mas que sempre está em contato com Lourdes. Contudo, é no filho Emanuel Lucindo Júnior em quem mais aposta na hora de indicar um sucessor. "Ele é formado em história. Fez uma monografia sobre os profetas da chuva. Eu digo que vai assumir meu posto, e ele só faz achar graça".

O talento para adivinhação, no entanto, não é mera coincidência na vida dela. O pai, o agricultor Francisco Leite, foi, conforme Lourdes, o primeiro profeta do Ceará. O irmão, de mesmo nome, é hoje respeitado pelas previsões e também participa do evento. "Minha mãe dizia para eu não tomar a frente dele, mas eu sempre tive vontade de participar do encontro. Foi aí que, em 2007, comecei a anunciar. Todos os anos, faço a abertura e rezo", conta.

Lourdes, a mais velha dos nove filhos, aprendeu a ler aos cinco anos e tornou-se o xodó do pai, analfabeto, que se apegava à menina na hora de ouvir alguma carta ou romance. Companhia certa de seu Francisco, foi com ele que aprendeu a decifrar a natureza. Lua nublada, como se estivesse rodeada por uma lagoa; estrela d´alva mudando de lugar cedo; sombreão bem florado; e até as formigas que tanto lhe incomodavam na roça - onde passou a trabalhar ao lado do pai aos 12 anos - são sinais de bom inverno.

No sertão de Banabuiú, além de ensinar, continuou fazendo suas previsões, mas o marido não acreditava muito nelas. "Em 64, eu falei: ´Emanuel, não plante na vazante´. Ele não obedeceu, daí a chuva carregou tudo. Só fiz ´mangar´. Já meu sogro confiava em mim".

Aposentada como professora, mas em plena atividade com as previsões, confidencia: "Meu sonho agora é ver meu livro impresso e publicado: ´A professorinha da zona rural´ e ter um fusca rosa".

Firme, a profetisa fala sobre tudo, sem papas na língua. "Perguntei uma vez à Funceme porque eles dizem que é frente fria e não inverno. Deram uma explicação que eu não entendi nada e nunca mais voltaram", orgulha-se. E assim anuncia mais uma vez até a própria sorte. Embora católica e devota de Santa Luzia, acredita ainda em astrologia. "Sou do signo de peixes, gosto muito de nadar, morrer no seco, não".

CURIOSIDADES

Com 15 anos, Lourdes descobriu o talento para o ensino e passou a se dedicar aos seus alunos. "Ensinava de criança a rapagão. Até à noite, dava aula em minha casa"

Aos 23, depois de ter passado por três noivados, porque o pai não queria "perder" a filha, casou-se finalmente com o agricultor Emanuel Lucindo. "Eu não tinha vocação pra casamento, mas também não queria mais ser chamada de vitalina"

Aprendeu a botar cartas, mas viu seu sonho de prever o futuro ir por água abaixo, literalmente. "O Emanuel ficou dizendo que aquilo era macumba e jogou tudo no rio". A insistência de dona Lourdes, aliás, era coisa que o marido custava a aceitar. "Vim embora pra Quixadá e só seis meses depois ele veio. Se eu deixasse meus meninos lá, só iam trabalhar na enxada, casar novinho e não iam aprender nada, porque era eu quem os ensinava"

Na volta para Quixadá, passou no supletivo, terminou o 2° grau e seguiu dando aulas, apesar da advertência do marido de Emanuel de que ela não iria dar conta de tudo. "Eu fui quem sustentei a casa sempre. Há 11 anos, ele morreu de leucemia. Bebia muito", conta, enquanto lembra também que o marido nunca lhe encostou um dedo, era bom homem. Hoje, Lourdes adora dançar e participa do conselho de idosos.

SÍRIA MAPURUNGA
ENVIADA A QUIXADÁ

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=719956

Fonte: Jornal Diário do Nordeste. Caderno Eva. Fortaleza, 17 de janeiro de 2010.

Ceará - Profetas da chuva viram fenômeno cultural no Estado

17/1/2010

Ritual de previsão da quadra invernosa no Interior do Ceará se transforma em sarau de teatro, literatura e canto

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AS ATRIZES CARIOCAS Clara Ccolin (esquerda) e Paula Cavalcanti (direita) levam para o teatro os costumes sertanejos dos profetas da chuva. Elas interpretam Chico Mariano e Paroara

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OS IDEALIZADORES E ORGANIZADORES do Encontro de Profetas da Chuva classificam a expansão do espetáculo sertanejo como uma constante ebulição cultural. A cantoria de viola é um exemplo, realizada no Encanta Quixadá

Quixadá Clara Colin, 22 anos e Paula Cavalcanti, 24, duas universitárias apaixonadas pelo teatro, perceberam por meio dessa arte a possibilidade de representar no palco o hábito popular de personagens místicos sertanejos, os profetas da chuva. Elas interpretam Chico Mariano e Paroara, dois dentre tantos cientistas populares do interior nordestino. Encantam pela encenação e mais ainda pela fidelidade aos costumes da dupla, conforme comentários de Hélder Cortez e João Soares, idealizadores e promotores do Encontro dos Profetas da Chuva, realizado anualmente em Quixadá, no Sertão Central do Ceará.

As atrizes confessam admiração pela cultura nordestina. Cariocas da gema, a primeira de Niterói, a outra da capital do Rio, encontraram casualmente nas páginas do livro "Profetas da chuva", publicado pela psicanalista e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), Karla Patrícia Martins, relatos de dezenas deles. Os enredos bibliográficos reforçaram o fascínio pelas raízes sertanejas. Resolveram então pesquisar e assistir o espetáculo de perto. De cara, simpatizaram com o poeta José Anastácio da Silva, o Paroara, e Francisco Mariano Filho. Aprenderam as manias e o jeito manso da prosa dos profetas.

E assim, entre contos e cantos, puxam o público para o saudosismo poético do sertão, dos tempos em que se respeitava pela idade, de emocionar até mesmo quem está acostumado com essas histórias ou faz parte delas, como Ribamar Lima, um dos muitos observadores da região. "Essas meninas simplesmente incorporaram a alma do nosso povo. Isso é fantástico", comentou o servidor público e radialista, logo após a apresentação especial na sala de exibições Mestre Adolfo, no Centro Cultural Rachel de Queiroz.

Mesmo sem recursos, resolveram montar o prólogo, como definem a apresentação de cenário simples, com aproximadamente uma hora de duração. Esse trabalho começou em 2007. Durante sua elaboração, elas apresentaram um trecho de 15 minutos, no Festival de Esquetes de Resende, no Rio. No ano seguinte repetiram o espetáculo, dessa vez no Festival de Niterói, também no Rio. Elas definem a recepção do público como muito positiva. Nunca haviam visto nada igual.

Homenageadas

Clara e Paula foram agraciadas com prêmios de melhor atriz. O reconhecimento incentivou a continuidade do espetáculo. No ano passado fizeram curta temporada no Teatro Paschoal Carlos Magno, na UniRio. Elas também se apresentaram na Festa Internacional de Teatro de Angra. Mas, para elas, o ápice artístico ocorreu mesmo em Quixadá. Além de poderem mostrar seu trabalho para os próprios protagonistas, seus personagens reais, foram homenageadas. "Participar de uma feira cultural tão maravilhosa como esta é o sonho de qualquer artista", destacam.

As atrizes se referiam aos instrumentos culturais associados ao propósito preliminar do Encontro, a divulgação do prognóstico para a estação chuvosa do ano no Sertão do Ceará.

Jeitos, gestos, falas, manias e poesias. "Reunir tudo isso num só lugar, é enriquecer ainda mais a nossa cultura. Às vésperas de completarmos uma década e meia, conquistamos naturalmente esses predicados. Ao mesmo tempo encontramos uma maneira de divulgar nossos costumes. Sinceramente, eu não imaginava que nossos profetas iam chegar tão longe", comenta Soares.

Alex Pimentel
Colaborador

CONTINUIDADE DA TRADIÇÃO
Novas propostas buscam preservação

A luta agora é para tentar manter a tradição e estimular os jovens a aprenderem a observar os sinais da natureza

Quixadá "A preservação da nossa cultura, a perpetuação desses costumes, precisamos encontrar alternativas para assegurar a continuidade dessa tradição". O desafio de prever o tempo acabou se transformando em um desafio ainda maior. Essa questão foi abordada na mesa redonda realizada logo após o XIV Encontro dos Profetas da Chuva. O idealizador do evento, Hélder Cortez, enfatizou a necessidade de estimular os jovens a aprenderem os métodos de observação da natureza. Levá-los para dentro das escolas é uma opção.

"Além do aspecto educativo, da formação de novos profetas, a tradição precisa de sangue novo, A maioria deles passa dos 60", enfatizavam admiradores e colaboradores. A proposta das duas atrizes, a peça, foi citada como uma possibilidade de sensibilização dentro do espaço estudantil. Por meio da interpretação dramática fica mais fácil de entender como esses observadores desenvolvem suas experiências. Na opinião de João Soares, outro promotor do evento, com dedicação é possível aprender a prever o tempo.

Ele cita a realização dos espetáculos como forma de estímulo ao interesse pelos modelos culturais da região. Aponta o Encanta Quixadá como exemplo. Este ano o festival de cantoria chegou à sua quinta edição. Repetindo o modelo dos anos anteriores, seis duplas se apresentaram. Gente de longe veio assistir. Foi o caso do deputado estadual da Bahia, Gilberto Brito, e da engenheira sanitarista mineira, Mônica Rodrigues. "Um novo público está se formando", ressaltou Soares.

Acostumado a motes e sextilhas em desafios de viola, João de Oliveira fez parceria com Antônio Limeira. Terminada a apresentação, reconheceu na iniciativa uma interessante maneira de exaltar a arte popular. Todos os dias, quando está amanhecendo, Oliveira apresenta um programa de cantoria em parceria com Sebastião Gomes numa emissora de Quixadá. Lamenta a dificuldade para manterem as violas no ar. Não fosse o auxílio econômico de alguns ouvintes, seria ainda mais difícil bancar o horário na rádio.

Pensando nessas dificuldades e na expansão do evento anual, Soares e Cortez fundaram o Instituto de Pesquisa de Violas e Poesia Cultural Popular do Sertão Central. O nome do instituto é tão grande quanto a vontade de fortalecer as artes e a ciência popular de adivinhar fenômenos da natureza. Para o próximo ano apostam em leis de incentivo à cultura e no apoio da iniciativa privada. Soares patenteou o título do evento, "Profetas da chuva".

Segundo Cortez, por meio da captação de recursos será possível trabalhar na 2ª Edição do livro de Karla Martins. Com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado, haverá um segundo festival de violas este ano. A data prevista é 19 de março. Na oportunidade, profetas, organizadores e público se reúnem novamente em Quixadá. Farão avaliação das previsões.

Oportunidade

"Foi nas páginas deste jornal que encontrei este tesouro da cultura nordestina"

Gilberto Brito
Deputado estadual da Bahia

"Previsões, poesias, cantorias, não é todo dia que surge uma oportunidade assim"

Mônica Rodrigues
Engenheira sanitarista

Trajetória dos poetas

Paroara nasceu aos 22 de março de 1935, na localidade de Boa Hora, Pacoti, no Maciço de Baturité. Se diz sujeito andador. Morou no Amazonas, Acre, Pontaporã e Goiás. Em Quixadá, chegou ainda moço. Se orgulha do pai, que ajudou a vencer a Segunda Guerra Mundial.

Antônio Anastácio da Silva

Chico Mariano nasceu aos 22 de agosto de 1934 em General Sampaio, no Médio Curu do Ceará. Acompanhou os passos do pai desde a construção do açude de sua terra natal. O convívio com a seca praticamente o obrigou a desvendar os segredos do inverno.

Francisco Mariano Filho

MAIS INFORMAÇÕES
Profetas da chuva - A Peça
(21) 9921.8892


Fonte: Jornal Diário do Nordeste. Caderno Regional. Fortaleza, 17 de janeiro de 2010.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Violência no Sertão

Infelizmente o nosso Sertão vive cada vez mais em meio à violência desmedida. Em 2004, quando fiz a pesquisa de campo para minha tese de Doutorado, já ouvi muitas queixas do pessoal do Sertão Central. Jovens ociosos, envolvidos com droga e bebida, tumultuavam a vida da população. Começavam os furtos e brigas. As queridas comadres reclamavam que já nem mesmo tinham coragem de ir aos pequenos cemitérios visitar seus entes que se foram, com medo de serem abordadas nos caminhos mais ermos. As mães desgostosas com os filhos que iam "para a capital" e voltavam com essas "novidades" (o jeito agressivo e as drogas). E o mais velhos constatando que os jovens não queriam mais trabalhar na roça.
O tempo passou e as coisas se agravaram, como mostra a reportagem abaixo. A violência aumentou e a insegurança, já comum nas grandes cidades, agora assola nosso sertão. A população cobra atitudes das autoridades e protesta. Queremos voltar a ter liberdade! Não podemos deixar de nos encontrarmos e conversarmos sem medo.





SERTÃO CENTRAL
População protesta contra violência


Quixadá. “Senhor Governador, Quixadá aguarda ações concretas”. Atrás da mensagem dirigida ao chefe do Poder Executivo do Estado mais de três mil pessoas caminharam, na manhã de ontem, pelo Centro desta cidade localizada no Sertão Central cearense. Clamavam por paz e melhorias na estrutura de segurança pública do município mais desenvolvido da região. Praticamente todo o comércio baixou as portas. Protestavam contra a situação precária dos órgãos responsáveis pelo combate ao crime nos municípios da região.
Um mês após a mobilização da Igreja Católica na Caminhada da Paz, o movimento em defesa da vida voltou novamente às ruas. Dessa vez ganhou força com o apoio de outros segmentos religiosos e de mais familiares de vítimas da violência. Nesse período mais quatro pessoas foram assassinadas. Juizes, representantes da Promotoria de Justiça e Defensoria Pública também estiveram presentes na manifestação promovida por segmentos sociais e empresariais de Quixadá.
Roubos e homicídios
O empresário Ricardo Carneiro falou em nome da classe. Estão assustados com os roubos e homicídios registrados nos últimos meses na região. Ele destacou a necessidade da imediata implantação do Ronda do Quarteirão na cidade. Ressaltou que a Polícia Civil também precisa de mais policiais. Apesar do esforço, a violência não está sendo coibida. “Quixadá não pode esperar mais”, desabafou.
Esse também era o sentimento de quem acompanhava a passeata. Não estavam ali à toa. Exigem um direito básico em qualquer lugar civilizado: segurança. “Não é justo ficarmos presos atrás de grades, acuados pelo medo”, bradava o humorista Adriano Vidal, popularmente conhecido por Velho Didi, a arrastar a multidão atrás de um paredão de som. Acostumado a criar personagens cômicos para suas apresentações, dessa vez ele fez um dos mais tristes papéis de sua vida, o da “Violência”.
Na opinião do delegado Edílson Sobrinho, com mais de 30 anos dedicados ao ofício policial, a situação vivida em Quixadá não é diferente de outras cidades de médio porte do Ceará. Estão sendo afetadas pelo êxodo dos criminosos para o Interior, em razão da implantação do programa especial de segurança pública na Capital e Região Metropolitana de Fortaleza. Enquanto os efetivos e as estruturas das polícias Civil e Militar não forem reforçados o problema deve continuar. Ela aguarda uma nova viatura e mais três escrivães. O comandante do Batalhão Provisório de Quixadá, tenente-coronel Rômulo Tavares, informou que não há data definida, mas, até o fim de julho, mais três viaturas e pelo menos 24 policiais estarão reforçando o trabalho preventivo neste município.
Tavares esclareceu que a informação ainda não é oficial. Foi repassada pela equipe da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), responsável pela implantação do Ronda do Quarteirão nos municípios cearenses.
Mais informações:
Associação Comercial e Industrial de Quixadá (Aciq)
Sertão Central do Estado do Ceará
(88) 3414.3142
Alex Pimentel
Colaborador

Fonte: Jornal Diário do Nordeste - Caderno Regional - Fortaleza, 02 de julho de 2009.

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=651142

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Mamona sem uso em Quixadá gera nova polêmica

Usina da Petrobrás em Quixadá - CE


Contratos da Petrobras com cooperativas para produzir biodiesel na mira da CPI da estatal


Os convênios firmados entre a Petrobras e cooperativas agrícolas no Nordeste para incentivar a produção da mamona para produção de biodiesel estão na mira da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), que investiga denúncias contra a estatal no Senado. Os parlamentares pretendem cobrar explicações sobre os repasses de verbas do programa do biodiesel a entidades ligadas ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem terra) e à Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura).


As dúvidas surgiram porque apesar dos contratos terem sido assinados para estimular o plantio da oleaginosa para produção de biodiesel, nada foi utilizado até então pela Petrobras para esta finalidade. No Ceará, por exemplo, onde a empresa mantém uma usina para produção desse combustível, em Quixadá, a 160 quilômetros de Fortaleza, cerca de 1,2 tonelada de mamona, oriunda das safras de 2007 e 2008, estão estocadas em depósitos naquela Cidade e em Santa Quitéria, em condições apontadas como inadequadas. Estima-se que de março a setembro de 2008, a Petrobras tenha repassado pelo menos R$ 3,5 milhões a três cooperativas na Bahia e no Ceará.


Em maio último, conforme publicado na edição do dia 30 pelo Diário do Nordeste, o presidente da Petrobras Biocombustível, Miguel Rossetto, informou que foram assinados seis contratos de assistência técnica agrícola no valor total de R$ 22 milhões, para capacitação de 31.450 pequenos produtores de mamona no interior do Ceará e do Piauí. Os contratos foram celebrados com o Instituto Agropólos, com a Ematerce do Piauí e outras quatro cooperativas de microprodutores nos dois estados.


Questionada pela reportagem sobre as denúncias, a Petrobras rebate dizendo que não está utilizando o óleo de mamona para produção do biodiesel, porque a produção dessa oleaginosa ainda não atingiu a escala necessária, o que se reflete no preço atual do produto. ´Enquanto o litro do óleo da mamona custa R$ 3,00, o da soja é encontrado a R$ 1,90´, informa. Segundo a empresa, para obter escala e preço é essencial incentivar o aumento da produção e ela trabalha justamente para desenvolver o mercado agrícola regional e expandir a lavoura da mamona no semi-árido, ampliando, assim, a oferta do grão e reduzindo preços. Por isso, as usinas ainda operam apenas com óleo de soja e de algodão.


Com relação à mamona não utilizada para produção de biodiesel, guardada em depósitos no interior do Ceará, a Petrobras assegura que a oleaginosa está devidamente armazenada e está estocada para concentrar o transporte e o processo de esmagamento dos grãos, obtendo, assim, uma eficiência logística maior para escoamento.


Ainda de acordo com a estatal, a usina de Quixadá está em plena operação, porém utilizando óleo de soja e algodão, oriundos de outros estados do Nordeste e do Centro-oeste. No último leilão de biodiesel, a unidade vendeu a capacidade máxima autorizada de 11.280 m3 para entrega nos meses julho, agosto e setembro.

ANCHIETA DANTAS JR.
Repórter



Fonte: Jornal Diário do Nordeste - Caderno Negócios - Fortaleza, 09-06-09