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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Profetas da Chuva e o Inverno de 2011

PESQUISADORES DA NATUREZA

Profetas populares preveem ´bom inverno´ para 2011

7/1/2011 Clique para Ampliar
Estudiosos da natureza, os profetas Paroara e Jacaré ainda procuram mais sinais da fauna e da flora para fazerem suas previsões. A maioria está otimista para um bom inverno
FOTOS: ALEX PIMENTEL

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A Professora Lurdinha utiliza a tábua de Santa Luzia para prevê a próxima estação chuvosa
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O profeta José da Silva, o "Zé da Preta", observa punhado de terra para fazer o prognóstico
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No ano passado, aconteceu contradição entre os profetas. Alguns acreditaram no inverno outros não
Nos sinais da natureza, profetas populares participam de encontro e fazem previsão para a estação das chuvas

Quixadá. "Dessa vez a gente acerta". Quando se reunirem novamente amanhã pela manhã, no XV Encontro dos Profetas das Chuvas, Antônio Lima, Chico Leiteiro, Paroara, Paulo Costa e mais de 30 cientistas populares deverão anunciar no antigo Clube do Agrônomo de Quixadá a chegada de "bom inverno" este ano.

Na ultima edição do tradicional Encontro, a maioria havia apresentado boas perspectivas para a quadra chuvosa no Estado. Todavia, a média pluviométrica foi bem abaixo do esperado, provocando perdas de safra e frustração para quem tira o sustento do campo.

O profeta Renato Lino foi um dos poucos a contrariar os companheiros observadores do tempo. Havia motivo para a preocupação. As cascas de algumas árvores nativas, como a umarizeira e o sabiá, estavam caindo. Sinal ruim. A previsão pessimista foi ofuscada pelos aplausos a Erasmo Barreira, outro profeta da terra. 

"Vai ter inverno dos bons", anunciava, erguendo o ninho de João-de-barro. Mas dessa vez, assegura o lavrador de Tapuiará que a previsão não vai contrariar o anseio da maioria. Afinal, as formigas estão se mudando para os altos, os inchuis subindo mais nos troncos das árvores. "Vem inverno por ai", acrescenta o profeta Lino.

Barra do Sol

Na opinião dele, a maioria dos profetas erraram suas previsões no ano passado porque não observaram atentamente os sinais da natureza ou se empolgaram com a plateia e a imprensa. Nessas horas, ninguém quer dar notícia ruim. Chico Leiteiro e Paulo Costa concordam. Este ultimo acrescenta a dificuldade na realização de seus estudos. A barra do sol não está acompanhando o ciclo astral. Justamente nos intervalos encontrados entre os dias e noites, associados aos meses, encontrava resposta certa. Neste ano não está sendo diferente. "A natureza está nos enganando", acrescenta.

Herança do avô

Enquanto Paulo Costa enfrenta dificuldades para definir suas previsões, o profeta José Pereira da Silva, o Zé da Preta, tem garantido nas mãos a chegada de inverno dos bons. Ele firma seu diagnóstico numa experiência herdada do avô. Joga um punhado de poeira ao alto.

Arrastada pelo vento no sentido do Sul é bom sinal. Hoje com 83 anos, ele participará do Encontro pela primeira vez. Zé da Preta é natural de Banabuiú. Mora na localidade de Pedras Brancas. Foi encontrado por Chico Javali, o "Caçador de Profetas", como ficou conhecido por sua habilidade de localizar esses sábios populares.

A professora Maria de Lurdes Leite Lemos, ou simplesmente Lurdinha, também foi encontrada por Chico Javali. Ela foi a primeira mulher profeta a participar do Encontro. Divide a atenção do público e repórteres com a estudante Catarina Lima, filha do profeta Antonio Lima. A professora tem como base para suas previsões a tábua de Santa Luzia.

 De 13 de dezembro, dia dedicado à santa, a 13 de junho, ela observa todos os meses o punhado de sal colocado na tábua, sobre cada mês. Quando fica úmido é sinal de inverno. "Também choveu na tarde de 13 de dezembro. Mais uma certeza de chuvas fartas", acrescentou ela.

Segundo João Soares, presidente do Instituto de Pesquisa de Violas e Poesia Cultural Popular do Sertão Central, responsável pela realização do Encontro e um de seus idealizadores, estão sendo aguardados profetas de todos os cantos do Ceará e até de Estados vizinhos. Além dos sábios da natureza, devem comparecer estudiosos de algumas universidades. "Uma caravana de Sobral formada por professores e universitários já garantiu presença", acrescentou. 

Todavia, o cantor Raimundo Fagner, mais uma vez, não estará presente. Além do geógrafo Caio Lóssio, ele havia sido convidado no ano anterior, para receberem juntos uma homenagem especial. O pesquisador, por sua dedicação aos estudos meteorológicos, e o artista, por valorizar a cultura regional através de sua viola.

Para Soares, nos últimos anos, o Encontro dos Profetas das Chuvas ganhou destaque nacional e internacional. Não existe no Mundo nenhum outro tipo de evento dessa natureza. Além do interesse dos agricultores e da curiosidade da população acabou se tornando uma atração cultural. 

Os encontros, antes realizados no auditório da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Quixadá, ganhou proporções maiores. Foi transferido para o antigo Clube do Agrônomo, na jusante do Açude do Cedro. Sempre contando com a participação de tocadores de viola na solenidade, ele decidiu então reunir os músicos, profetas e convidados na noite anterior ao Encontro. Foi criado então o Encanta Quixadá.

Repente

Hoje à noite, pelo sexto ano consecutivo, duplas de repentistas sobem ao palco da Fundação Cultural Rachel de Queiroz, no Centro de Quixadá, para exaltarem a sabedoria popular. O show integra a programação do Encontro de Profetas. Desta vez, eles pretendem prenunciar as boas notícias a serem divulgadas para o público e acertar nas suas previsões.

Participantes

34 profetas populares vão participar do XV Encontro dos Profetas das Chuvas, quando devem anunciar prognósticos para a quadra chuvosa deste ano. Evento será no Clube do Agrônomo

MAIS INFORMAÇÕES 

XV Encontro dos Profetas da Chuva , no antigo Clube do Agrônomo, e VI Encanta Quixadá, hoje e amanhã, (88) 9635.0828

EXPERIÊNCIAS

Cuidado redobrado no prognóstico

Muitos profetas estão indo diariamente ao campo a fim de não haver erros de previsão como ocorreram em 2010

Quixadá. Preocupados em não cometerem enganos, muitos profetas estão sendo mais cuidadosos ao realizar suas experiências. Antônio Anastácio da Silva, o Paroara, e José Felipe dos Santos, o Jacaré, acreditam numa boa quadra chuvosa. No ano passado haviam previsto o mesmo. Eles afirmam terem sido traídos pelos sinais da natureza, como ocorreu com Paulo Costa e a maioria dos outros profetas.

Por esse motivo voltam praticamente todos os dias ao campo. Observam o movimento do vento, o canto dos pássaros, os insetos e a vegetação. "Mas como errar se o mandacaru está florando?", comenta Jacaré, apontando para o amigo o cactáceo encontrado com abundância no semiárido do Nordeste. "A barra do Natal disse a mesma coisa. A chuva de Santa Luzia também, veio no dia certo. Quando vem é inverno certo", completou inconformado com o deslize do ano passado.

Paroara conforma o amigo lembrando que assim como os equipamentos eletrônicos apresentam defeitos, os elementos da natureza poderiam se enganar. Acreditando nos astros, sendo o ano de 2011 regido por Mercúrio, não receia em afirmar que em janeiro chove bem; em fevereiro o dobro; em março variando para bom e de abril a junho, excelente. "Agora estamos tomando mais cuidado, mas, às vezes, a natureza dá rasteira da gente", acrescentou ele.

No ano passado 27 profetas anunciaram publicamente suas previsões. Luiz Gonzaga, de Camocim, abriu o Encontro prevendo por meio das frentes frias no Sul poucas chuvas em janeiro e fevereiro. Em março seriam dentro do normal; Renato do Pau D´Arco definiu o inverno de 2010 como fraco; José Irismar anunciou inverno a partir de março a junho;

Acompanhado de Chico Mariano, Chico Leiteiro exagerou, prevendo grande inverno, inclusive com o Açude do Cedro sangrando. Além de Renato Lino, o agricultor de Tapuiará, apenas Severino Silveira e Francisco Alves acertaram as previsões. Mesmo assim, foram criticados pela maioria dos profetas. "Eles costumam ser pessimistas", comentou Antônio Lima, considerado um dos mais experientes do grupo, ressaltando que o desafio de prever se transformou em uma tradição, aguardada por todos.

Outro encontro

O Município de Tejuçuoca, na Zona Norte do Estado, também sedia, na próxima segunda-feira, a oitava edição do Encontro dos Profetas Populares da Natureza das Chuvas de Tejuçuoca.

O evento será realizado no Centro Inter Escolar de Tejuçuoca, a partir das 10 horas. A programação inclui o momento para profetas vindos da cidade de Quixadá e a presença de cientistas do Canadá. A Secretaria do Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente de Tejuçuoca fará uma exposição de atividades e distribuição de mudas de árvores e sementes. A expectativa é bom para o encontro.

ALEX PIMENTEL
COLABORADOR

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Chuvas no Sertão


TEMPO DE PLANTAR

Profeta diz que chuvas no Cariri só em maio

19/2/2010 Clique para Ampliar
Lino Alves, profeta popular em Missão Velha, observa a estrela D´Alva para fazer o prognóstico das chuvas
Tradição herdada do pai, o profeta das chuvas, "seu Lino", faz novo prognóstico para as chuvas no Cariri

Crato. "O inverno no Cariri só vai começar em maio. Por enquanto, são somente chuvas esparsas que garantem a pastagem do gado, mas não apresentam umidade suficiente para o plantio". A avaliação foi feita pelo profeta de chuvas Lino Alves Martins, residente na cidade de Missão Velha.

Já meteorologista da Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme), Eduardo Peixoto, reafirma a previsão anterior que é de chuvas abaixo da média, de fevereiro a maio. No caso do Cariri, onde as precipitações são maiores, a média de janeiro a maio é de 761 milímetros.

A 3ª previsão oficial para o semiárido nordestino, segundo Peixoto, deve ser divulgada no próximo dia 22, ao final de uma reunião que está sendo realizada em Natal (RN), com meteorologistas dos centros de pesquisa da Região Nordeste, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Instituto Nacional de Metereologia (Inmet).

Essa é terceira vez que os especialistas se reúnem para fazer a previsão para o inverno no semiárido nordestino. As outras duas reuniões foram realizadas em Campina Grande (PB), em dezembro, e em Fortaleza, no mês de janeiro. Nesses dois encontros, a previsão foi de que o inverno no semiárido seria de normal a abaixo da média, com uma pré-estação chuvosa (janeiro e fevereiro) de chuvas fortes, principalmente no sertão do Nordeste. Eduardo Peixoto antecipa que o quadro provavelmente não vai mudar.

Em parte, a avaliação dos meteorologistas coincide com as previsões do profeta que, no mês de janeiro, advertiu os agricultores quanto à falta de chuvas. Seu Lino, como é conhecido, afirmou que previu a irregularidade de chuvas em dezembro, janeiro e fevereiro. Ele avisou para os agricultores que o consultam que não plantassem, porque as chuvas só seriam intensificadas a partir de maio.

As experiências do profeta estão fundamentadas nas datas religiosas do ano: Dia de Santa Luzia, Natal e Ano Novo. No amanhecer destas dias, ele observa sinais que o orientam sobre período invernoso. No entanto, as mais importantes indicações, na sua avaliação, é o posicionamento da estrela D´Alva e a direção dos relâmpagos.

No momento, a estrela D´Alva está no poente. "É sinal de chuvas fracas. Quando ela passa para o nascente, as chuvas aumentam", afirma.

No caso dos relâmpagos, ele afirma que "quando eles estrondam no nascente, pode botar o pote na biqueira porque é chuva na certa. Aí sim, você pode plantar". Ao fazer este comentário, o profeta explica que, por enquanto, as trovoadas estão concentradas no poente, o que, segundo afirma, é sinal de pouca chuva.

Natural da zona rural de Iguatu, seu Lino, que sempre trabalhou na agricultura, aprendeu com o pai estas experiências de observar a natureza. Ele acrescenta que, quando morava no Sítio Emboscada, suas pesquisas eram feitas também com a floração das plantas.

ANTÔNIO VICELMO
Repórter

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ceará - Adivinhas da chuva

17/1/2010

UMA TEM 72 ANOS, A OUTRA, 14. EMBORA DE GERAÇÕES DIFERENTES, COMUNGAM DO MESMO CREDO QUANDO, POR MEIO DE INSTRUMENTOS DA NATUREZA, ANUNCIAM COMO SERÁ O INVERNO

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Lourdes Leite, 72 anos, é a única mulher com direito à voz no Encontro Anual dos Profetas da Chuva. Já a adolescente Catarina Silva, 14, segue os passos do pai, profeta Antônio Lima

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A natureza oferece aos profetas da chuva, como dona Lourdes, os indícios de um inverno promissor ou de uma estiagem rigorosa

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Lourdes em frente ao sombreão todo florido, um sinal, segundo ela, de que o inverno de 2010 será bom . Acima, detalhe da flor


No frechal da cozinha, uma pequena tábua de madeira espera até a manhã seguinte pelo olhar atento de dona Lourdes Leite, 72 anos. É 14 de dezembro, um dia após a data reservada a Santa Luzia, e lá está a profetisa a adivinhar a sorte das chuvas para 2010.


Passadas algumas semanas após as indicações da tábua de madeira, a professora aposentada avalia: "Nas minhas previsões, o inverno já começou. Aqui, tem chovido desde o dia 31, tô é com medo, penso que vai ser forte. Teve uma chuva que achei até que era pedra de gelo".

Lourdes mora no bairro Campo Velho, em Quixadá. Ela é a única mulher com direito à voz no tradicional Encontro dos Profetas da Chuva, que acontece, anualmente, no segundo sábado de janeiro.

Sal grosso

Ela orgulha-se do instrumento com o qual prevê o destino de muita gente, principalmente dos agricultores. O sal grosso, colocado sobre os pontinhos correspondentes aos meses do ano, "chora", como se diz.

Sentada em sua receptiva sala, Lourdes anuncia os resultados da experiência: "Todos os meses molharam, mas é pra maio que vem mais chuva. Escrevi até junho, porque esse ano o inverno será mais curto".

Se os homens estão satisfeitos com a existência de uma profetisa? "Acho que ficam meio de orelha em pé: olhe essa mulher nos desafiando!", brinca a alegre senhora, que faz piada de tudo, até da recente cirurgia de catarata que lhe fez enxergar melhor os moços bonitos. Sobre o universo masculino, aliás, ela tem muito o que dizer.

Gerou seis meninos, embora nunca perdesse a esperança de ganhar uma mulher. O sonho acabou se realizando, pois criou Maria do Socorro, hoje, residente em São Paulo, mas que sempre está em contato com Lourdes. Contudo, é no filho Emanuel Lucindo Júnior em quem mais aposta na hora de indicar um sucessor. "Ele é formado em história. Fez uma monografia sobre os profetas da chuva. Eu digo que vai assumir meu posto, e ele só faz achar graça".

O talento para adivinhação, no entanto, não é mera coincidência na vida dela. O pai, o agricultor Francisco Leite, foi, conforme Lourdes, o primeiro profeta do Ceará. O irmão, de mesmo nome, é hoje respeitado pelas previsões e também participa do evento. "Minha mãe dizia para eu não tomar a frente dele, mas eu sempre tive vontade de participar do encontro. Foi aí que, em 2007, comecei a anunciar. Todos os anos, faço a abertura e rezo", conta.

Lourdes, a mais velha dos nove filhos, aprendeu a ler aos cinco anos e tornou-se o xodó do pai, analfabeto, que se apegava à menina na hora de ouvir alguma carta ou romance. Companhia certa de seu Francisco, foi com ele que aprendeu a decifrar a natureza. Lua nublada, como se estivesse rodeada por uma lagoa; estrela d´alva mudando de lugar cedo; sombreão bem florado; e até as formigas que tanto lhe incomodavam na roça - onde passou a trabalhar ao lado do pai aos 12 anos - são sinais de bom inverno.

No sertão de Banabuiú, além de ensinar, continuou fazendo suas previsões, mas o marido não acreditava muito nelas. "Em 64, eu falei: ´Emanuel, não plante na vazante´. Ele não obedeceu, daí a chuva carregou tudo. Só fiz ´mangar´. Já meu sogro confiava em mim".

Aposentada como professora, mas em plena atividade com as previsões, confidencia: "Meu sonho agora é ver meu livro impresso e publicado: ´A professorinha da zona rural´ e ter um fusca rosa".

Firme, a profetisa fala sobre tudo, sem papas na língua. "Perguntei uma vez à Funceme porque eles dizem que é frente fria e não inverno. Deram uma explicação que eu não entendi nada e nunca mais voltaram", orgulha-se. E assim anuncia mais uma vez até a própria sorte. Embora católica e devota de Santa Luzia, acredita ainda em astrologia. "Sou do signo de peixes, gosto muito de nadar, morrer no seco, não".

CURIOSIDADES

Com 15 anos, Lourdes descobriu o talento para o ensino e passou a se dedicar aos seus alunos. "Ensinava de criança a rapagão. Até à noite, dava aula em minha casa"

Aos 23, depois de ter passado por três noivados, porque o pai não queria "perder" a filha, casou-se finalmente com o agricultor Emanuel Lucindo. "Eu não tinha vocação pra casamento, mas também não queria mais ser chamada de vitalina"

Aprendeu a botar cartas, mas viu seu sonho de prever o futuro ir por água abaixo, literalmente. "O Emanuel ficou dizendo que aquilo era macumba e jogou tudo no rio". A insistência de dona Lourdes, aliás, era coisa que o marido custava a aceitar. "Vim embora pra Quixadá e só seis meses depois ele veio. Se eu deixasse meus meninos lá, só iam trabalhar na enxada, casar novinho e não iam aprender nada, porque era eu quem os ensinava"

Na volta para Quixadá, passou no supletivo, terminou o 2° grau e seguiu dando aulas, apesar da advertência do marido de Emanuel de que ela não iria dar conta de tudo. "Eu fui quem sustentei a casa sempre. Há 11 anos, ele morreu de leucemia. Bebia muito", conta, enquanto lembra também que o marido nunca lhe encostou um dedo, era bom homem. Hoje, Lourdes adora dançar e participa do conselho de idosos.

SÍRIA MAPURUNGA
ENVIADA A QUIXADÁ

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=719956

Fonte: Jornal Diário do Nordeste. Caderno Eva. Fortaleza, 17 de janeiro de 2010.

Ceará - Profetas da chuva viram fenômeno cultural no Estado

17/1/2010

Ritual de previsão da quadra invernosa no Interior do Ceará se transforma em sarau de teatro, literatura e canto

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AS ATRIZES CARIOCAS Clara Ccolin (esquerda) e Paula Cavalcanti (direita) levam para o teatro os costumes sertanejos dos profetas da chuva. Elas interpretam Chico Mariano e Paroara

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OS IDEALIZADORES E ORGANIZADORES do Encontro de Profetas da Chuva classificam a expansão do espetáculo sertanejo como uma constante ebulição cultural. A cantoria de viola é um exemplo, realizada no Encanta Quixadá

Quixadá Clara Colin, 22 anos e Paula Cavalcanti, 24, duas universitárias apaixonadas pelo teatro, perceberam por meio dessa arte a possibilidade de representar no palco o hábito popular de personagens místicos sertanejos, os profetas da chuva. Elas interpretam Chico Mariano e Paroara, dois dentre tantos cientistas populares do interior nordestino. Encantam pela encenação e mais ainda pela fidelidade aos costumes da dupla, conforme comentários de Hélder Cortez e João Soares, idealizadores e promotores do Encontro dos Profetas da Chuva, realizado anualmente em Quixadá, no Sertão Central do Ceará.

As atrizes confessam admiração pela cultura nordestina. Cariocas da gema, a primeira de Niterói, a outra da capital do Rio, encontraram casualmente nas páginas do livro "Profetas da chuva", publicado pela psicanalista e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), Karla Patrícia Martins, relatos de dezenas deles. Os enredos bibliográficos reforçaram o fascínio pelas raízes sertanejas. Resolveram então pesquisar e assistir o espetáculo de perto. De cara, simpatizaram com o poeta José Anastácio da Silva, o Paroara, e Francisco Mariano Filho. Aprenderam as manias e o jeito manso da prosa dos profetas.

E assim, entre contos e cantos, puxam o público para o saudosismo poético do sertão, dos tempos em que se respeitava pela idade, de emocionar até mesmo quem está acostumado com essas histórias ou faz parte delas, como Ribamar Lima, um dos muitos observadores da região. "Essas meninas simplesmente incorporaram a alma do nosso povo. Isso é fantástico", comentou o servidor público e radialista, logo após a apresentação especial na sala de exibições Mestre Adolfo, no Centro Cultural Rachel de Queiroz.

Mesmo sem recursos, resolveram montar o prólogo, como definem a apresentação de cenário simples, com aproximadamente uma hora de duração. Esse trabalho começou em 2007. Durante sua elaboração, elas apresentaram um trecho de 15 minutos, no Festival de Esquetes de Resende, no Rio. No ano seguinte repetiram o espetáculo, dessa vez no Festival de Niterói, também no Rio. Elas definem a recepção do público como muito positiva. Nunca haviam visto nada igual.

Homenageadas

Clara e Paula foram agraciadas com prêmios de melhor atriz. O reconhecimento incentivou a continuidade do espetáculo. No ano passado fizeram curta temporada no Teatro Paschoal Carlos Magno, na UniRio. Elas também se apresentaram na Festa Internacional de Teatro de Angra. Mas, para elas, o ápice artístico ocorreu mesmo em Quixadá. Além de poderem mostrar seu trabalho para os próprios protagonistas, seus personagens reais, foram homenageadas. "Participar de uma feira cultural tão maravilhosa como esta é o sonho de qualquer artista", destacam.

As atrizes se referiam aos instrumentos culturais associados ao propósito preliminar do Encontro, a divulgação do prognóstico para a estação chuvosa do ano no Sertão do Ceará.

Jeitos, gestos, falas, manias e poesias. "Reunir tudo isso num só lugar, é enriquecer ainda mais a nossa cultura. Às vésperas de completarmos uma década e meia, conquistamos naturalmente esses predicados. Ao mesmo tempo encontramos uma maneira de divulgar nossos costumes. Sinceramente, eu não imaginava que nossos profetas iam chegar tão longe", comenta Soares.

Alex Pimentel
Colaborador

CONTINUIDADE DA TRADIÇÃO
Novas propostas buscam preservação

A luta agora é para tentar manter a tradição e estimular os jovens a aprenderem a observar os sinais da natureza

Quixadá "A preservação da nossa cultura, a perpetuação desses costumes, precisamos encontrar alternativas para assegurar a continuidade dessa tradição". O desafio de prever o tempo acabou se transformando em um desafio ainda maior. Essa questão foi abordada na mesa redonda realizada logo após o XIV Encontro dos Profetas da Chuva. O idealizador do evento, Hélder Cortez, enfatizou a necessidade de estimular os jovens a aprenderem os métodos de observação da natureza. Levá-los para dentro das escolas é uma opção.

"Além do aspecto educativo, da formação de novos profetas, a tradição precisa de sangue novo, A maioria deles passa dos 60", enfatizavam admiradores e colaboradores. A proposta das duas atrizes, a peça, foi citada como uma possibilidade de sensibilização dentro do espaço estudantil. Por meio da interpretação dramática fica mais fácil de entender como esses observadores desenvolvem suas experiências. Na opinião de João Soares, outro promotor do evento, com dedicação é possível aprender a prever o tempo.

Ele cita a realização dos espetáculos como forma de estímulo ao interesse pelos modelos culturais da região. Aponta o Encanta Quixadá como exemplo. Este ano o festival de cantoria chegou à sua quinta edição. Repetindo o modelo dos anos anteriores, seis duplas se apresentaram. Gente de longe veio assistir. Foi o caso do deputado estadual da Bahia, Gilberto Brito, e da engenheira sanitarista mineira, Mônica Rodrigues. "Um novo público está se formando", ressaltou Soares.

Acostumado a motes e sextilhas em desafios de viola, João de Oliveira fez parceria com Antônio Limeira. Terminada a apresentação, reconheceu na iniciativa uma interessante maneira de exaltar a arte popular. Todos os dias, quando está amanhecendo, Oliveira apresenta um programa de cantoria em parceria com Sebastião Gomes numa emissora de Quixadá. Lamenta a dificuldade para manterem as violas no ar. Não fosse o auxílio econômico de alguns ouvintes, seria ainda mais difícil bancar o horário na rádio.

Pensando nessas dificuldades e na expansão do evento anual, Soares e Cortez fundaram o Instituto de Pesquisa de Violas e Poesia Cultural Popular do Sertão Central. O nome do instituto é tão grande quanto a vontade de fortalecer as artes e a ciência popular de adivinhar fenômenos da natureza. Para o próximo ano apostam em leis de incentivo à cultura e no apoio da iniciativa privada. Soares patenteou o título do evento, "Profetas da chuva".

Segundo Cortez, por meio da captação de recursos será possível trabalhar na 2ª Edição do livro de Karla Martins. Com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado, haverá um segundo festival de violas este ano. A data prevista é 19 de março. Na oportunidade, profetas, organizadores e público se reúnem novamente em Quixadá. Farão avaliação das previsões.

Oportunidade

"Foi nas páginas deste jornal que encontrei este tesouro da cultura nordestina"

Gilberto Brito
Deputado estadual da Bahia

"Previsões, poesias, cantorias, não é todo dia que surge uma oportunidade assim"

Mônica Rodrigues
Engenheira sanitarista

Trajetória dos poetas

Paroara nasceu aos 22 de março de 1935, na localidade de Boa Hora, Pacoti, no Maciço de Baturité. Se diz sujeito andador. Morou no Amazonas, Acre, Pontaporã e Goiás. Em Quixadá, chegou ainda moço. Se orgulha do pai, que ajudou a vencer a Segunda Guerra Mundial.

Antônio Anastácio da Silva

Chico Mariano nasceu aos 22 de agosto de 1934 em General Sampaio, no Médio Curu do Ceará. Acompanhou os passos do pai desde a construção do açude de sua terra natal. O convívio com a seca praticamente o obrigou a desvendar os segredos do inverno.

Francisco Mariano Filho

MAIS INFORMAÇÕES
Profetas da chuva - A Peça
(21) 9921.8892


Fonte: Jornal Diário do Nordeste. Caderno Regional. Fortaleza, 17 de janeiro de 2010.