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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Brasil - Mercado de Carbono e REDD

07/05/2010 - 17:10:43 

Ministério da Fazenda estuda mercado de carbono

Fernanda B. Muller, CarbonoBrasil
No contexto de uma economia de baixo carbono o Brasil já possui algumas iniciativas ligadas ao controle das emissões de gases do efeito do estufa, como o programa GHG Protocol brasileiro, a introdução de critérios no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e leilões na BM&F Bovespa.
Porém estas são iniciativas de caráter voluntário. Como este cenário deve mudar ao longo dos próximos anos com a introdução de medidas cada vez mais rígidas para a redução destas emissões na atmosfera, faz-se necessário uma abordagem mais abrangente, compulsória e regulamentada a nível nacional.
Esta tentativa está sendo analisada pelo Ministério da fazenda, que de acordo com um estudo visto pelo jornal o Estado de São Paulo, considera a introdução de um mercado de carbono regulado no Brasil.
O modelo chamado ‘cap and trade’, aplicado na Europa, impõe limites sobre as emissões de vários setores da economia criando um sistema de comércio para que as companhias que ficarem acima da meta possam comprar ‘permissões’ de emissão e as que ficarem abaixo possam vender a quantidade extra, equivalente a sua redução nas emissões.
O Brasil já participa neste sistema de ‘cap and trade’ principalmente como fornecedor de créditos de carbono, que servem como uma forma de compensação de emissões para as empresas que precisam cumprir metas sob o Protocolo de Quioto e não conseguiram reduzir os GEEs, como as européias. Através do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, sob Quioto, projetos desenvolvidos no Brasil e em outros países em desenvolvimento podem oferecer estes créditos.
As metas assumidas pelo governo brasileiro no ano passado visam a redução entre 36,1% e 38,9% das emissões de carbono previstas em 2020, sendo que até agora o seu principal componente é o corte nas taxas de desmatamento, em 80% na Amazônia e 40% no Cerrado.
O primeiro alvo da regulamentação do mercado de carbono brasileiro seriam as usinas térmicas de geração de energia a carvão e óleo diesel, segundo o Estadão. Para tal seria criada uma agência reguladora, que expediria as permissões de emissão e supervisionaria o funcionamento do mercado de carbono.
(CarbonoBrasil)
06/05/2010 - 13:46:48 

Desinformação prejudica desenvolvimento do REDD

Fabiano Ávila, da CarbonoBrasil
A Conferência dos Povos rechaçou o mecanismo dizendo se tratar de uma forma de lucrar com a devastação, porém especialistas afirmam que não precisa ser assim e que a falta de conhecimento ainda é um grande obstáculo para a ferramenta
Em abril foi realizada em Cochabamba, na Bolívia, a Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra e uma de suas grandes decisões do encontro foi se posicionar de forma totalmente contrária ao uso de ferramentas de mercado para a preservação, entre as quais foi incluído o REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação).
“É uma maneira de fazer negócio com a morte do planeta e, quando se trata de negócios, não há limite”, afirmou na ocasião o escritor Hernando Rojas, criador do programa “MUYU: fruta comida, semente semeada”, que conseguiu incorporar atividades de reflorestamento às rotinas escolares no Equador.
Esse é o tipo de sentimento é encontrado em muitas manifestações contrárias ao REDD. Algumas comunidades nativas e povos indígenas se sentem ameaçados pela possibilidade do mercado falar mais forte e eles perderem os direitos de viver da forma e no local que seus ancestrais sempre viveram.
“Existe uma desinformação muito grande do que é o REDD. Para começar ele não é necessariamente uma ferramenta de mercado”, explicou Paula Moreira Franco, advogada do Programa de Mudança Climática do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM).
Segundo Paula, o REDD pode contar apenas com financiamentos governamentais e doações, com seus recursos sendo utilizados somente para a conservação e não visando o lucro. “O conceito do REDD é novo, é ainda uma sigla estranha. Por isso tanta gente tem dificuldade de entender do que realmente se trata. Mas se formos ver, a idéia de financiar a preservação já é bem antiga”, disse.
Porém, ela reconhece que é compreensível que os povos que vivem nas florestas tenham cautela, pois existem situações onde realmente podem vir a ser ameaçados. “Se formos olhar para fora das nossas fronteiras, para a África, por exemplo, não é difícil imaginar um governante interessado em receber recursos internacionais expulsando uma comunidade de uma floresta sob o pretexto que essas pessoas cortam árvores para o uso de lenha para cozinhar”.
Negociações
O REDD ainda não existe formalmente, o que existem são mercados voluntários para a compra e venda de créditos desses projetos florestais e programas de preparação para a sua implementação.
As negociações para a consolidação das regras do mecanismo seguem conjuntamente com o diálogo climático nas Nações Unidas. Mas esse processo está muito lento e como o próprio Yvo de Boer, líder do braço climático da ONU (UNFCCC), já afirmou, não deverá ser em 2010 que teremos um acordo compulsório assinado sobre o assunto. Porém, ainda existe a esperança de que muitas definições sobre o REDD possam ser esclarecidas no encontro do final do ano em Cancun.
Paula destaca que, apesar da lentidão das negociações na ONU, existem parcerias e outras iniciativas que estão avançando bem mais rápido e que provavelmente será delas que teremos mais novidades em breve. “O processo de negociação conhecido como Paris-Oslo é bastante promissor, assim como as parcerias entre os estados brasileiros e a Califórnia. Temos ainda o Fundo Amazônia e outras políticas nacionais. Estamos avançando no desenvolvimento do REDD, disto não há dúvidas”.
Um fato disso é o anúncio feito nesta quarta-feira (5) pelo Ministro do Meio Ambiente da Noruega, Erik Solheim, de que as nações ricas devem comprometer até US$ 5 bilhões em maio para a proteção das florestas em países em desenvolvimento, aumentando as promessas anteriores como parte de uma estratégia para reduzir os efeitos das mudanças climáticas.
“Alguns países precisam de recursos para conservar suas florestas enquanto outros precisam de créditos para reduzir ou compensar suas emissões. O REDD bem implementado é uma boa maneira para atingir esses objetivos”, resumiu Paula.
(CarbonoBrasil)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Florestas - Muito mais que depósitos de carbono

Marcela Valente, da Terramérica
26/10/2009 - 19:41:43



As florestas e selvas do mundo são muito mais do que instrumentos para armazenar carbono e abrandar o aquecimento global, alertaram especialistas e ativistas aos governos que negociam um pacto para enfrentar a mudança climática. As florestas abrigam dois terços da diversidade biológica da Terra, proporcionam serviços vitais de fornecimento de água e alimentos, e sustentam a identidade cultural e espiritual de 1,6 bilhão de pessoas, muitas delas de povos ancestrais que devem sobreviver em seus hábitat.

Esta parece ser a principal conclusão deixada pelo XIII Congresso Florestal Mundial, realizado de 18 a 23 deste mês em Buenos Aires, com a presença de mais de quatro mil pessoas, entre acadêmicos, empresários, funcionários governamentais e de organismos multilaterais, e dirigentes de um amplo leque de organizações não governamentais.

“O XIII Congresso vê preocupado o impacto da mudança climática nas florestas e fortemente enfatiza o importante papel que têm na mitigação da mudança climática e a necessidade de as pessoas e o ecossistema se adaptarem a esse desafio”, diz um documento que será apresentado em dezembro na XV Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontecerá em Copenhague. Organizado pelo governo da Argentina, com patrocínio da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o Congresso teve seu eixo principal no vínculo entre floresta e mudança climática, do qual surgiu este documento.

A questão foi tratada no Fórum de Florestas e Mudança Climática, onde foram expostas estratégias para reduzir a quantidade de gases causadores do efeito estufa oriundos do desmatamento e da degradação das áreas florestais. O acúmulo desses gases que chegam à atmosfera por diferentes atividades humanas está elevando a temperatura do planeta, segundo a ciência. Como os vegetais absorvem carbono na fotossíntese, as florestas e selvas constituem grandes depósitos deste gás, o principal entre os que provocam o efeito estufa. O corte de árvores e a redução de áreas de mata têm o efeito contrário.

Segundo a FAO, cerca de 13 milhões de hectares de florestas são cortados a cada ano no mundo, com efeitos nas emissões de gases, mas também com danos à biodiversidade e à vida de milhões de pessoas. As florestas não são apenas carbono acumulado, disse Peter Saile, do programa de política internacional de florestas da governamental Agência Alemã de Cooperação Técnica (GTZ), expondo um conceito que foi integrado no documento final. “É muito importante ter uma perspectiva mais ampla sobre os serviços ambientais das florestas e os benefícios complementares que sua preservação tem para a biodiversidade e as pessoas que ali vivem”, explicou.

Por sua vez, Gerhard Dieterle, do programa de investimento florestal do Banco Mundial, disse que os negociadores de um pacto sobre o clima devem “colocar a mudança climática dentro de uma agenda mais ampla de desenvolvimento sustentável”. Segundo o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC), quase 18% das emissões de dióxido de carbono provêm do desmatamento e da degradação de florestas, uma proporção equivalente à contaminação causada pelo sistema de transporte mundial em seu conjunto, ou os Estados Unidos em particular. No Fórum também houve vozes que insistiram na necessidade de um manejo sustentável dos ecossistemas florestais com apoio às comunidades que os habitam.

No final de setembro do ano passado, as Nações Unidas e o governo da Noruega apresentaram o programa-piloto Redução de Emissões Provocadas pelo Desmatamento e pela Degradação das Florestas (REDD), que se espera ganhe forma nas negociações de Copenhague. Trata-se de o mundo rico pagar aos países em desenvolvimento para que estes não cortem suas florestas, mas, faltando menos de dois meses para a reunião na capital dinamarquesa, persistem os debates sobre a implementação do sistema e de sua efetividade. Algumas organizações não governamentais suspeitam que poderia beneficiar apenas governos e empresas.

Em conversa com o Terramérica, Thais Linhares, diretora da Agência Florestal do Brasil, explicou que o país criou, no ano passado, o Fundo Amazônia, no contexto da iniciativa REDD, para que o Estado pague pelas emissões evitadas em razão do menor desmatamento nesta vasta região de selva tropical. “Nossa expectativa é que, em Copenhague, avancemos para uma definição maior, para que os países possam captar recursos de mercado” destinados a mitigar a mudança climática por meio do freio ao desmatamento, afirmou. “O fundo é nossa grande estratégia nacional REDD e apoiamos outros projetos” de menor escala, acrescentou.

Entretanto, nem todos concordam que esta iniciativa serve para a preservação das florestas. A ativista Ana Filippini, do secretariado internacional do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais, disse ao Terramérica que “é difícil estar contra a iniciativa REDD em si mesma”. Porém, esse mecanismo é impulsionado por governos e empresas que são os que, definitivamente, têm a capacidade de mostrar ou certificar que se absterão de explorar a floresta. “É difícil que, para receber dinheiro, uma comunidade indígena possa demonstrar que não vai destruir a floresta, como pede a REDD”, alertou.

“Os que defendem esta iniciativa querem, inclusive, que os indígenas participem, mas, se têm tanto interesse em preservar as florestas e a vida das comunidades, por que não o fizeram até agora?”, perguntou. Filippini também questionou que, entre as propostas de reflorestamento debatidas no contexto do Congresso Florestal Mundial, estejam incluídas as monoculturas industriais “que têm um impacto negativo comprovado no solo, na água e no agravamento da mudança climática. As plantações florestais não são florestas, são massas de árvores de uma única espécie”. Estes são aspectos cruciais na contagem regressiva para o encontro de Copenhague.

Roberto Acosta, representante da Secretaria da Convenção sobre Mudança Climática, argumentou que as florestas podem contribuir para reduzir as emissões aumentando a absorção de carbono, o que permitiria agir de forma “imediata” para evitar os “impactos catastróficos” da mudança climática. As florestas devem ser monitoradas adequadamente, admitiu, e devem ser gerados projetos para fortalecer a capacidade técnica e financeira dos países em desenvolvimento em matéria de preservação, com participação de comunidades locais, ponto que considera “vital” para uma estratégia de sucesso.

Por sua vez, o norueguês Trond Gabrielsen, da Iniciativa Internacional de Clima e Florestas, de seu país, disse que reduzir os gases oriundos do desmatamento “é a via mais rápida para deter em 25% as emissões nos próximos anos com o mais baixo custo”. Também afirmou que “precisamos incluir a iniciativa REDD no futuro regime climático”, que deverá estabelecer em Copenhague compromissos para depois de 2012, quando termina a vigência do primeiro período de obrigações estabelecidas no Protocolo de Kyoto.

* A autora é correspondente da IPS.
LINKS:
Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.
(Envolverde/Terramérica)
Fonte: Mercado Ético