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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Cordel no Ceará

LITERATURA POPULAR

Cordel é expressão viva da cultura nordestina

14/11/2010 Clique para Ampliar
Ao contrário do que se pensava, a tradição do cordel continua viva, e revela talentos raros preservados no interior

Crato. A cultura popular é um magnífico tesouro que brota da alma da nação nordestina. Abrange um elenco de manifestações que fazem parte do cotidiano do sertanejo que guarda no peito um verdadeiro relicário de valores expressivos, que vão se perpetuando pelas gerações, e alimentando a memória viva da nação. Uma das maiores expressões dessa cultura é a literatura de cordel, que enche de poesia os terreiros das casas sertanejas e, também, as feiras livres do interior.

O cordelista é um representante do povo, o repórter dos acontecimentos da vida no Nordeste do Brasil. Não há limite na escolha dos temas para a criação de um folheto. Pode narrar desde os feitos de Lampião, com até as "presepadas" de heróis como João Grilo ou Cancão de Fogo, uma história de amor ou acontecimentos importantes de interesse público.

A literatura de cordel é assim chamada, segundo pesquisa da Fundação Joaquim Nabuco, pela forma como são vendidos os folhetos, dependurados em barbantes (cordão), nas feiras, mercados, praças e bancas de jornal, principalmente das cidades do interior e nos subúrbios das grandes cidades.

Linguajar
Devido ao linguajar despreocupado, regionalizado e informal utilizado para a composição dos textos, essa modalidade de literatura nem sempre foi respeitada, e já houve até quem declarasse a morte do cordel. Ao contrário do que se previa, o cordel ganhou o mundo.

Os versos do Patativa do Assaré, por exemplo, passaram a ser estudados na Universidade de Sorbonne, na França. Os violeiros de ontem que eram vistos com certo preconceito, ganharam as ruas, as universidades e os teatros.

Ao longo deste tempo, além de mudanças temáticas, o cordel passa também por várias transformações no plano da forma. Nas capas, anteriormente ilustradas com clichês utilizados em jornais e revistas, passa-se a empregar cartões postais, fotografias de artistas de cinema, desenhos e xilogravuras.

Outros elementos tomados de empréstimo da imprensa escrita foram abandonados como, por exemplo, a divisão, seguindo o estilo dos folhetins, de uma mesma história em três diferentes folhetos. As histórias, por sua vez, diminuem de tamanho passando a predominar os folhetos de 8 ou 16 páginas sobre os de 32 ou 64 páginas.

Pesquisa
Acompanhando o processo de globalização e de abertura do modelo cultural, o cordel é estudado e pesquisado, com grande interesse, nos meios acadêmicos, debatido em ciclos literários e até mesmo em conferências mundiais.

De acordo com Ariano Suassuna, um estudioso do assunto, a literatura popular em versos do Nordeste brasileiro pode ser classificada nos seguintes ciclos: o heroico, o maravilhoso, o religioso ou moral, o satírico e o histórico. A região do Cariri, no Brasil, é o celeiro de grandes poetas cordelistas.

Entre os mais famosos podem ser citados os irmãos Bandeira (Pedro, João Chico e Daudeth Bandeiras), que aqui aportaram, trazendo na alma a fé no Padre Cícero e, no sangue, a veia poética do avô Manoel Galdino Bandeira, um dos maiores cantadores da viola do sertão paraibano.

Nas pegadas dos Bandeiras, surgiram outros valores que transformaram em poesias os programas de rádio das emissores caririenses, ou varando as madrugadas em desafios poéticos que ecoam nos pés de serra da região do Cariri.

"Com esta nova geração de poetas, a literatura popular está longe de desaparecer e continua aí para, talvez, ser uma primeira opção na luta pela difusão da leitura no Brasil", aposta o poeta João Bandeira de Caldas.

Jornalismo
O cordel tem uma estreita ligação com o jornalismo. Eram impressos nas mesmas impressoras dos jornais do passado. No início do século passado, quando os jornais não chegavam ao interior, o cordel ocupava o espaço dos jornais e emissoras de rádio. O cordelista era uma espécie de repórter itinerante que andava de feira em feira, levando à população os últimos acontecimentos da semana.

Notícia
Para que se tenha uma ideia dessa função jornalística, basta lembrar que, quando Getúlio Vargas morreu, um dos poetas de cordel mal ouviu a notícia pelo rádio, começou a escrever "A lamentável morte de Getúlio Vargas". Entregou os originais ao meio-dia e à tarde recebeu os primeiros exemplares. Vendeu 70 mil em 48 horas.

Outro assunto que teve grande repercussão foi "O trágico romance de Doca e Ângela Diniz". A "Carta do Satanás a Roberto Carlos" também teve grande sucesso, inspirado na música que dizia "E que tudo mais vá pro inferno!". Os folhetos de cordel tratam, de forma cômica e, de certa forma irônica, diversos temas como, por exemplo, seca, traição, violência, amor, desilusões, entre outros.

Comunicação
"Tem sido grande a procura por cordéis que hoje são encontrados em praças"
Eugênio Dantas
Presidente da Academia dos Cordelistas do Crato

"O cordel é o mais simples instrumento de comunicação o povão"
Luciano Carneiro
Poeta cordelista

"Nas vilas, os livretos no cordel davam a última notícia que percorria o sertão"
Josenir Lacerda
Poetisa cordelista

MAIS INFORMAÇÕES 
Academia dos Cordelistas do Crato. Praça Filemon Teles, em frente ao Parque de Exposições

(88) 3523.3947 / 3523.4442


Antônio VicelmoRepórter

sábado, 9 de outubro de 2010

Tradição e Fé no Sertão Central

FESTA DE SÃO FRANCISCO

Missa do Vaqueiro renova a tradição

9/10/2010 Clique para Ampliar
Este ano, os vaqueiros saem em cortejo pelas principais ruas da cidade até a igreja de São Pedro. Os organizadores esperam que cerca de 1.500 vaqueiros participem da missa 
FOTO: ALEX COSTA
A missa ocorre desde 1970 em Canindé, único lugar que tem um dia para celebrar um dos símbolos do Nordeste

Canindé. Acontece, hoje, a partir das 10 horas, na Igreja de São Pedro, neste Município, a 40ª edição da tradicional Missa do Vaqueiro. O evento faz parte da programação da romaria em homenagem a São Francisco das Chagas. A festa foi iniciada na última quinta-feira e prossegue até o dia 17 de outubro.

Este ano, a festa em homenagem ao vaqueiro, maior símbolo vivo do sertão nordestino, sai do Parque de Exposição Francisco Diassis Bessa Xavier, às 8 horas. O cortejo percorre a Avenida São Francisco, ruas Joaquim Magalhães, Romeu Martins, Joaquim Custodio, José Veloso Jucá, Travessa J. Pinto até chegar na Igreja de São Pedro, totalizando um percurso de cinco quilômetros.

Histórico

A celebração começou a integrar o calendário da festa em 1970, por intermédio do poeta popular Raimundo Marreiro, já falecido, do executivo Juarez Coutinho e da vaqueira (hoje Mestra da Cultura do Ceará) Dina Maria Martins. A ideia é manter viva uma tradição entre vaqueiros e a fé.

De acordo com Dina Martins, a primeira missa foi celebrada em 1º de outubro daquele ano, pelo então vigário da Paróquia de São Francisco, frei Lucas Dolle. Em 1976, devido ao grande sucesso da festa, a missa e a cavalgada da fé contaram com a presença do inesquecível "Rei do Baião", Luiz Gonzaga, grande divulgador dos temas e tradições do sertão.

Os festejos são coordenados pela Associação dos Vaqueiros de Canindé, com o apoio da Cavalaria Montada da Policia Militar, Guarda Municipal e batedores da Polícia Militar. A quarta edição da Missa dos Vaqueiros terá a participação do pároco e reitor do santuário de São Francisco, frei João Amilton dos santos. Para Dina Martins, a missa é uma forma de render homenagens a um dos santos mais populares do Nordeste e valorizar a tradição do ofício de vaqueiro.

"Estamos realizando mais uma missa na maior romaria franciscana das Américas, e esperamos contar com a participação de 1.500 vaqueiros de vários Municípios do Ceará. A missa é uma forma de agradecimento a São Francisco por tudo de bom que ele nos proporciona durante o ano, principalmente na proteção divina, quando estamos na luta diária entre cavalo e gado", ressalta a integrante da Associação.

Homenagem

Canindé é o único Município do Ceará que tem uma data especial para celebrar a coragem e determinação do vaqueiro. "Nossa categoria comemora uma data especial, no dia 22 de agosto, Dia do Folclore, conforme a lei Municipal 2.051, de 29 de abril de 2008", afirma a vaqueira Dina Martins.

Hoje, o Diário do Nordeste será homenageado pelos vaqueiros. É uma forma de reconhecimento ao trabalho de cobertura da Festa de São Francisco, feito pelo jornal todos os anos. A comenda será entregue após a celebração eucarística.

A romaria entra hoje no seu terceiro dia de celebração. Ontem, na primeira novena, o tema foi: "São Francisco espelho da solidariedade para com a pobreza", em que o Estado do Ceará foi homenageado. O pregador da novena foi dom José Hering, bispo da Diocese de Limoeiro do Norte, e os responsáveis pela celebração foram membros da Pastoral da Educação, Escolas do Município, Estaduais e Particulares.

Hoje, no terceiro dia da festa, a novena será de responsabilidade da Pastoral Catequética e Pastoral do Batismo. A pregação será de padre Cláudio Kramer, de Piripiri no Piauí. O tema é: "São Francisco espelho da solidariedade para com as necessidades da Igreja". O Estado homenageado será o Piauí, de onde centenas de romeiros vêm para pagar promessas e renovar a devoção ao santo.

Quem passou ontem pela cidade foi o governador reeleito Cid Gomes, que veio cumprir sua devoção a São Francisco e visitar os amigos franciscanos. Ele assistiu à missa, participou das homenagens pelos 120 anos do painel do santo e depois foi recebido pelos freis João Amilton dos Santos e Jean de Sousa. Cid Gomes disse à reportagem que sua vinda a Canindé foi uma visita espiritual. "Vim pedir forças a São Francisco para continuar nessa luta para melhorar o Ceará", disse Cid Gomes, que foi reeleito para mais quatro anos de governo.

A devoção a São Francisco das Chagas de Canindé já acontece há 252 anos.

Participação

1500 vaqueiros de diversas regiões do Ceará devem seguir para Canindé a fim de participar da Missa do Vaqueiro, que ressalta a religiosidade popular e as tradições do sertão

MAIS INFORMAÇÕES 

Santuário de São Francisco das Chagas, Praça da Basílica
(85) 3343.0774
Canindé-CE

ANTÔNIO CARLOS ALVES
COLABORADOR

Cultura do Sertão do Cariri

´NO TERREIRO DE BRINCANTES´ (7/10/2010)

Reisado tematiza filmagens

7/10/2010 Clique para Ampliar
Formado em 1955, no Sítio Cobras, no Crato, o Reisado Dedé de Luna, das filhas do Mestre José Francisco, é tema do novo documentário do projeto que resgata tradições populares
FOTO: ELIZÂNGELA SANTOS
Tradições populares são preservadas por meio de projeto que realiza documentários com seus fundadores

Crato. Grupos de tradição popular do Cariri estão sendo documentados por meio do projeto "No Terreiro dos Brincantes". O primeiro documentário foi sobre "Mulheres do Coco da Batateira" e o segundo sobre a "Mestra Zulene Galdino". Agora será a vez do Reisado Dedé de Luna, no bairro Muriti, no Crato. O reisado teve sua primeira formação em 1955, no Sítio Cobras, constituído por homens que animavam as renovações em sítios do Município. As brincadeiras atravessavam um dia para o outro. A segunda formação ocorreu em 1984 já no Bairro Muriti e tendo à frente as filhas do Mestre José Francisco Luna, popularmente conhecido como Dedé de Luna.

O grupo inicialmente era denominado de Decolores. Após a morte do Mestre em 2002, a filhas prestaram uma homenagem mudando o nome do Reisado para Dedé de Luna. Atualmente constituído por 30 brincantes, a maioria mulheres, o reisado se destaca pela inovação das roupas que recebem detalhes minuciosos de lantejoulas, espelhos e tecidos brilhosos. O traje se diferencia dos demais reisados da região do Cariri.

Atualmente coordenado pela filhas, mestras Mazé e Penha, o trabalho se renova e cresce. Além desta tradição, o grupo mantém ainda teatro de rua, coco, lapinha e reisado infantil.

A história do grupo será resgatada pelo documentário que contará a trajetória desse reisado, grupo que se mantém vivo há várias décadas. O trabalho será o terceiro desenvolvido pelo Projeto "No Terreiro dos Brincantes". É realizado pelo Instituto Ecológico e Cultural Martins Filho (IEC), vinculado à Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Regional do Cariri (Urca) e ao Coletivo Camaradas.

Para a Mestra Mazé, esse documentário é importante para o grupo, pois fica na memória das pessoas. Ela destaca que resgatará uma história que vem de uma tradição e que servirá como fonte de pesquisa para estudiosos do assunto. A acadêmica de História da Urca e monitoria do Ppojeto "No Terreiro dos Brincantes", Ana Cristina de Sales enfatiza que o trabalho é uma forma de se aproximar e conhecer a realidade dos grupos da cultura popular.

Ela destaca que os documentários são importantes recursos pedagógicos para serem utilizado em sala de aula. Já o professor Alexandre Lucas, coordenador do projeto "No Terreiro dos Brincantes", ressalta que o documentário será disponibilizado na Internet para que as pessoas possam ter acesso de forma democrática. Lucas enfatiza que serão produzidos mais nove documentários.

O projeto "No Terreiro dos Brincantes" visa contribuir para a memória social e afirmação da identidade e diversidade cultural das manifestações artísticas e culturais da região do Cariri. O trabalho é desenvolvido através de registros audiovisuais e entrevistas com os mestres e mestras do saber popular na própria comunidade. Um dos objetivos do documentário é contextualizar a realidade socioeconômica dos brincantes. O projeto conta com sete acadêmicos monitores.

Fique por dentro 
Novas formações

O Cariri tem a presença de dezenas de grupos de reisado, em diversas cidades da região. Novos grupos têm sido formados, com crianças e adolescentes, objetivando manter a tradição. Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, diz que reisado é a denominação erudita para os grupos que cantam e dançam na véspera e no Dia de Reis. A manifestação chegou ao Brasil através dos colonizadores portugueses, que ainda conservam a tradição em suas pequenas aldeias, celebrando o nascimento do Menino Jesus, o Filho de Deus.

MAIS INFORMAÇÕES 

Instituto Ecológico e Cultural Martins Filho , Pro-Reitoria de Extensão (Proex/Urca), (88) 3102.1200 - Prof. Alexandre Lucas, (88) 8847.6946

ELIZÂNGELA SANTOS
REPÓRTER

Chá com Poesia

Recital de poesias, música, chá, lanche fraterno, bate-papo e literatura


O Chá com Poesia acontece sempre no 1º  e 2° sábado de cada mês, das 17h às 19h. Lá, a proposta é fazer trocas com as mais diferentes pessoas, envolvendo recital de poesias, música, chá, lanche fraterno, bate-papo e literatura. Você pode levar seu poema e subir no palco neste banquete poético, e depois você pode compartilhar, tanto quanto a poesia. Eles solicitam aos convidados, se puderem, que tragam um alimento saudável para partilhar neste dia e um livro para doação para a biblioteca.
O quê: Chá com Poesia.

Onde: O Templo da Poesia fica na Rua Barão de Aratanha, 201 - Esquina com Meton de Alencar.  (Fortaleza- Ceará)
Quando: Dias 2 e 9 de outubro, das 17h às 19h.
Informações: 8855.4289; 8603.4105; 8659.6809; 8643.8887; 8759.8272
Quanto: Grátis. 

terça-feira, 13 de julho de 2010

O sertão está em todo lugar

MÚSICA
13/7/2010 Clique para Ampliar
Cristiano Pinho: segundo trabalho solo passeia por imagens do sertão e pelos diversos ritmos que fazem parte da formação musical do guitarrista cearense 
DIVULGAÇÃO/LARISSA FREITAS
Segundo disco solo do guitarrista Cristiano Pinho, "Cortejo" é um bordado em que se costuram memórias visuais e musicais

Se fosse um livro, "Cortejo" seria definido como romance de formação. Certamente, é o mais próximo que disso se pode chegar se valendo de outra linguagem, a música. Segundo trabalho solo de Cristiano Pinho, guitarrista experiente conhecido por suas parcerias com os "highlights" da música cearense, o álbum é carregado de imagens, de fragmentos da memória. O próprio músico confirma, remetendo aos cenários sertanejos tão presentes na infância (confira entrevista ao lado).

A relação estreita de "Cortejo" com as imagens e o imaginário cearenses salta aos olhos. Da capa, com um pé sujo pelo trabalho pesado e um cenário castigado pelo sol (ainda que bonito) aos títulos das canções. A religiosidade sugerida pelo título do disco "Cortejo" (e da quarta faixa do álbum) é confirmada em outras passagens. Canções que se alinham e sucedem no meio do disco, partindo da segunda música ("Devoto"), seguindo por "Caldeirão/Juazeiro", passando pela já citada faixa-título, até chegar em "Curandeiro" e "Brejo Santo".

Passando da leitura à audição, percebe-se que a evocação memorialística de Cristiano Pinho é ainda mais complexa. Não é macumba para gringo ver. O disco não se esgota no sertão, nem este respeita os limites normalmente aceitos. Primeiro, porque o músico não esquece sua trajetória. Evoca o jazz (que teve presença marcante em seu primeiro solo, "Pessoa", de 1997), o blues, o rock, o pop mais orgânico, a MPB e os ritmos tradicionais, caso do maracatu e do baião. O disco traz uma interpretação das sonoridades sertanejas que se distingue de outros hibridismos musicais. Não é o caso da "mistura" do som cabeça, urbano, com o som rural, da tradição. É como se, na própria urbe, o músico encontrasse o Interior, pulsante e definidor. Neste ponto, o disco remete a um aspecto particular da capital cearense, que se moderniza por vezes tentando negar a presença do sertão em seus hábitos. Ainda que essa dissociação não seja possível. No caso de Cristiano, tal amálgama não deve ser rejeitado, mas celebrado.

Faixa a faixa

O disco abre com "Mar de saudades". É um dueto da guitarra de Cristiano Pinho com a percussão do maracatu cearense (no caso, o Az de Ouro). Uma das soluções mais interessantes para o cruzamento do maracatu cearense com outro gênero. Mais cadenciado e lento do que seu correspondente pernambucano, ele não se presta ao frenesi roqueiro que marcou o manguebeat. A guitarra de Pinho desliza suave. E acerta ao não deixar o blues ocupar todo o espaço (combinado com o maracatu, renderia decerto uma canção bastante triste). Pinho adiciona uma levada roqueira, virtuoses, com irrupções de solos, que levam a canção em outra direção. E abre o disco em grande estilo.

Em "Devoto", Cristiano Pinho tem como parceira a cantora Katia Freitas, sua mulher e, ao lado dele, produtora do álbum. O músico foge do óbvio que o título pode sugerir. Os elementos religiosos são de outra ordem, o piano e o teclado de Marcus Vinnie e os vocais de Katia Freitas se destacam, num blues-gospel. Os metais de Zé Carlos, Ferreira Junior, Carlinhos Ferreira e Edson Pinho se sobressaem, ora entrando em sintonia com o lado espiritual da canção, ora fazendo passeios profanos (que remetem aos bons metais dos discos dos Stones na década de 1970).

Cristiano Pinho troca de armas em "Caldeirão". Substitui as seis cordas pelo teclado e pela rabeca. A passagem, contudo, não é abrupta. Dos ritmos norte-americanos da canção anterior, o músico entra num território meio "western" nos primeiros momentos da canção (quase como se tocasse um slide). Aos poucos, adentra e imerge na tradição sertaneja. Seu "Caldeirão" se encontra com "Juazeiro", da lavra dos mestres Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

Na sequencia, fica clara a razão de "Cortejo" ter desencadeado tal projeto. Em seus quase cinco minutos de duração, ela é uma miniopera rock sertaneja. Nasce como uma balada, mergulha no blues, passa rápido pelo jazz e lembra "You don´t know me", de Caetano Veloso. No centro há um show de virtuose na guitarra, não naquela linha chata e exibicionista, mas climática, esfumaçada. E se encerra algo apoteótica, crescendo e lançado rasgos de lamentos.

Com assobio do parceiro, "Curandeiro" é uma vinheta estranha, experimental e onírica. "Brejo santo" segue na linha experimental, ainda que o tom principal seja o do baião.

Em "Sertão noturno", ouvem-se as influencias ibéricas, com um arranjo romântico que parece saído de um drama antigo. Mais uma vez Pinho foge aos cruzamentos óbvios, apostando nas linhagens menos dançantes dos dois gêneros. Destaque para os vocais de Fagner, que literalmente usa a voz como instrumento.

"O menino e o cego" é, aparentemente, a mais sertaneja, a mais enraizada na tradição. E seria mesmo, não fossem evidenciados na canção elementos de nossa formação que costumam passar despercebidos - caso dos ritmos orientais traduzidos via Portugal.

"Mãe das dores" é um blues-rock, marcado pela slide de Cristiano Pinho e por interferências do teclado. Canção triste, é uma das expressões máximas do minimalismo do compositor. Chega a ser tenso o diálogo de sua guitarras com os ruídos dos demais instrumentos. Impressiona que Cristiano Pinho a tire desse ponto na metade final da música, que ascende num dos melhores momentos do disco.

Gonzagão torna a dar às caras em "A volta de Asa Branca" (parceria com Zé Dantas"). Numa interpretação minimalista e até tradicional, ela abre espaço para "Sertão linda flor", mais uma faixa com acento luso.

O disco fecha com uma pequena peróla: "Capineiro", um surpreendente repente-blues. Única faixa cantada do disco, nela Cristiano Pinho toca a guitarra e uma percussão mínima, enquanto Raimundo Fagner canta uma quadra tradicional.

Instrumental 
"Cortejo"
Cristiano Pinho
R$ 30,00
11 faixas
2010
Ellemento

ENTREVISTA - Cristiano Pinho *

"´Cortejo´ tem a ver com as influências das origens, do início da carreira"

Como se deu o processo de criação de "Cortejo"?

O primeiro passo foi reunir um repertório para o disco. No CD, estão músicas que eu vinha fazendo ao longo da minha carreira. Teve uma parte burocrática, de enviar projetos para captar recursos por leis de incentivo, de conseguir um patrocínio com o Banco do Nordeste. E aí fomos gravando, enquanto o conceito ia se moldando. Produzi parte no meu home studio, em São Paulo, depois no Ararena, em Fortaleza, e mais alguma coisa em São Paulo. Não foi um processo de gravação contínuo, aconteceram pausas.

O motivo dos intervalos não foi apenas a burocracia, mas também o trabalho que você desenvolve com outros artistas. Essas pausas ajudam ou atrapalham?

Ajudam, sempre ajudam. É claro que não sei dizer como o CD seria se tivesse sido gravado de outra forma. Mas é bom sair e voltar. E ver o que você já fez com outros olhos.

Treze anos separam seu primeiro disco solo de "Cortejo". O que mudou de lá para cá?

Continuei produzindo, com outros artistas. Katia Freitas, Fausto Nilo, Fagner... Só que meu trabalho paralelo continuava dentro do meu estúdio. Estava sempre registrando minhas ideias. Foi mesmo um processo de amadurecimento, não só como músico.

"Cortejo" é um trabalho coeso, como um disco temático. Como chegou a esse ponto?

Nesse projeto, parti de uma música, a própria "Cortejo" (quarta faixa do CD). Fui moldando esse repertório em cima, compondo outras músicas. O que posso dizer é que é algo muito em cima das imagens, das nossas referências, tem a ver com influencias das origens, do início da minha carreira. No meu trabalho, ora estou em São Paulo, depois no Rio, aqui e acolá. Mas a minha música guarda uma relação forte e estreita com o Ceará, com as imagens do sertão. Ouve-se também um pouco das minhas influências do rock. É um pouco disso tudo.

Como é trabalhar como artista solo ao invés de colaborador?

É bem diferente. Quando você trabalha com outro artista, é preciso compreender o que ele quer. Então, por conta disso, você fica mais comedido. Porém, claro, contribuindo, colaborando e dando personalidade ao trabalho. Quando é um disco seu, você pilota tudo.

Alguma coisa de que você gosta ficou de fora do disco?

Ficou sim. Nossa! Sempre compus muito. Tem até material para produzir outro disco, mas esse não é o momento. Só espero não precisar mais desse tempo todo. Num disco, você precisa fazer uma triagem do material. Não quer dizer que o que ficou de fora é inferior. Só não estava no contexto e deixei para outra hora.

Guitarrista, violonista e compositor

DELLANO RIOSREPÓRTER