Mostrando postagens com marcador EMBRAPA-Semiárido. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EMBRAPA-Semiárido. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Nova tecnologia garante alimento nutritivo para ruminantes no Semiárido

TÉCNICA DE AMONIZAÇÃO

Alternativas de convivência com o semiárido

3/10/2010 Clique para Ampliar
Patrões e empregados preparam "banquete vegetal". Eles transformam mato seco misturado à amônia, em alimento para animais, como alternativa para a seca 
FOTOS: ALEX PIMENTEL
Técnica desenvolvida pela Embrapa Semiárido transforma mato seco em alimento para manter atividade pecuária

Quixadá. Seca não se combate, a gente convive com ela. Acreditando nesta máxima, os proprietários da Fazenda Sitiá, situada a pouco mais de 15km do Centro de Quixadá, estão apostando em uma técnica pouco conhecida no interior do Ceará, a amonização ou amoniação.

Desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), na década de 1990, a amonização é uma alternativa para a alimentação do rebanho. Adicionando amônia em solução aquosa ao mato seco, encontrado em abundância nesta época do ano, os fazendeiros estão produzindo toneladas de forragem para a criação de gado, caprinos e ovinos.

Nova tecnologia

O processo transforma as palhadas e os restos de cultivos em forrageira nutritiva para os animais ruminantes. A amônia, resultante do processo de hidratação da ureia, em forma de gás, atua nas partes mais fibrosas do vegetal seco, rompendo a ligação lignina-hemicelulose-celulose, deixando maior a superfície de exposição para a ação dos micro-organismos do rúmen.

A reação aumenta em pelo menos 20% a digestibilidade do material tratado, enquanto o teor de proteína bruta é elevado em mais de 50%. Ainda garante uma boa preservação devido a ação fungistática do produto químico. O baixo custo associado é outra vantagem. Um quilo da forragem amoniada custa, em média, R$ 0,20.

Já pequenos produtores dedicados à agropecuária consideram estas técnicas, mais simples, muito complicadas. Misturar o mato triturado à solução de amônia preparada com ureia, de olho na proporção da dissolução com a água; armazenar por alguns dias e esperar a reação e a dispersão do gás tóxico é de assustar e desencorajar quem está acostumado a esperar chover, plantar, colher e guardar. Somente com auxílio de um profissional especializado seria possível desenvolver a técnica proposta pela Embrapa Semiárido para os períodos críticos da escassez de forragem.

Primeira experiência

Mas o advogado Juvenal Arruda Furtado contrariou as expectativas. Os filhos e a esposa, Kátia Furtado, não podiam contar mais com o auxílio de um benfeitor sertanejo, responsável pela manutenção da fazenda. Vender a herança por quase nada não estava nos planos da família. Então ele resolveu se tornar fazendeiro. Deparou-se logo com o inverno fraco deste ano. Precisava de uma solução, senão os bichos iriam morrer de fome. Pesquisou na internet e encontrou no portal da Embrapa várias delas. Aproveitar o mato seco era uma saída.

Sem qualquer experiência de convívio no campo, juntamente com a esposa e a cunhada, Alcilone Silveira, botou os pés na massa, literalmente. Eles cumpriram à risca as orientações do manual. Os trabalhadores da fazenda construíram uma meda, uma espécie de caixa com dimensões específicas revestida com plástico polietileno. Jogaram o mato triturado dentro e depois a solução de ureia. Juntos, patrões e empregados compactaram as camadas, pisoteando-as como quem produz vinho. Quinze dias depois, o silo foi aberto e o "banquete vegetal" começou a ser servido para os animais da fazenda.

Segundo Furtado, na primeira meda foram investidos R$ 600,00. Todavia, os custos iniciais podem ser cortados pela metade. Ele reconhece ter havido alguns exageros. Além da quantidade em excesso de lona plástica, usou seis filas de arame galvanizado para vedar a meda. Também comprou máscaras para evitar intoxicação com o gás na hora da abertura do silo. Não foi necessário, pois o vento dispersou o perigo rapidamente. Os bichos estão se acostumando com a nova proteína vegetal. Para melhorar o sabor, ele acredita que vai ser necessário apenas triturar um pouco mais o mato e rever a medida da solução aquosa.

Resultados

Enquanto o advogado comemora os resultados, o novo gerente da fazenda fica impressionado. Ao longo dos 40 anos de vida na roça, Antonio Costa não imaginava um dia poder transformar capim e arbustos, que geralmente eram queimados, em alimento nutritivo para os animais. Se soubesse disso antes não teria passado tanta dificuldade nas épocas de seca brava. No princípio, ele atendia meio desconfiado as orientações dos patrões. Às vezes ficava até chateado, afinal poderiam não estar acreditando na sua experiência de agricultor. "Quem havia de imaginar uma coisa dessas dando certo", comenta.

Na opinião de Juvenal Furtado, alternativas existem, mas é preciso acreditar nelas. Embora tenha passado a maior parte da vida na Capital, longe dos problemas sertanejos, quando resolveu dedicar parte do seu tempo às tarefas rurais, reconheceu a necessidade de conhecer os problemas gerados pela irregularidade do ciclo invernoso. Se a seca é um monstro tão temido, porque as pessoas continuam insistindo em morar no sertão? Para ele, a maior dificuldade não está na seca, mas nos hábitos mantidos ao longo dos anos. É preciso mudar esses costumes. A amonização é um exemplo viável.

O engenheiro agrônomo Moacir da Silva, do escritório regional da Ematerce, em Quixadá, concorda. Com praticamente 40 anos de experiência no campo, ele diz que a técnica é pouco conhecida no Sertão Central. Faltam divulgação e interesse dos agricultores e pecuaristas, além de ainda não ser utilizada pela Ematerce. Ao saber da experiência realizada na Fazenda Sitiá, através da reportagem, o agrônomo demonstrou interesse em conhecê-la. Pretende reunir um grupo para a visita. 

MAIS INFORMAÇÕES 
Fazenda Sitiá - Quixadá (CE) - (85) 9994.4246
Embrapa Semiárido - Petrolina (PE)
(87) 3862.1711

Alex Pimentel
Colaborador

terça-feira, 21 de julho de 2009

Tecnoshow Semiárido

Mais informações: http://www.cpatsa.embrapa.br/tecnoshow/Tecnoshow.pdf

Ações do documento Projeto da Embrapa estuda formas de aproveitamento do ouricuri por agricultores familiares

Palmeira é típica da Bahia

Com 82 anos, seu Rosentino Prudêncio dos Santos sempre morou em uma “tirinha de terra” no lugarejo de Pilões, município de Jacobina – BA. Planta um “pouquinho” de feijão, de milho, de mandioca. Camisa puída, facão na cintura, ele aponta com as mãos calejadas de onde costuma tirar a renda para comprar “café, açúcar”: os muitos pés de licuri que se espalham por sua pequena propriedade.

Nos tempos de inverno (janeiro a abril), e mais ainda quando as trovoadas anunciam a permanência das chuvas por mais tempo, ele sai à cata de cachos dessa palmeira para vender, quase sempre, a atravessadores que percorrem ávidos a região para comprar a coleta dos agricultores.

Os cachos que coleta, cheios de coquinhos, Seu Rosentino espalha em parte do terreiro da sua casa e deixa secar ao sol. É o único pré-beneficiamento que faz antes de quebrá-los e entregar no ponto de venda por preço que ele diz ser muito fraco (entre R$ 0,60 e R$ 1,00, o quilograma). Daí pra frente, ele não sabe exatamente o que é feito dos coquinhos, mas há uns 30 anos, “quando o povo pegou a vender”, que “dizem que é para fazer óleo”.

Mercado - O licuri ou ouricuri é uma palmeira tipicamente baiana que chega a alcançar 6 metros de altura. Em grandes áreas do semiárido do estado, inclusive nas caatingas secas e pedregosas, plantas da espécie dominam a paisagem na vegetação nativa. Nas roças, como a de seu Rosentino, é comum o consórcio dessa palmeira e culturas de subsistência: feijão, milho, mandioca e forrageiras.

“Antigamente”, o processamento caseiro da amêndoa do coquinho do licuri abastecia as famílias de tempero, sabão, óleo para alisar cabelo e cicatrizar cortes, revela o agricultor. Também, de muito tempo, se enfiam os coquinhos num cordão, à semelhança de um colar, para ser vendido em feiras livres.

A movimentação dos atravessadores pelos territórios baianos da região do Sisal, que abrange 20 municípios, e do Piemonte do Norte do Itapicuru, formado por 9 municípios, revelam que está sendo formado um mercado em torno de co-produtos da palmeira em escala comercial e até industrial, que organizações não governamentais e instituições públicas de pesquisa e desenvolvimento buscam estimular iniciativas e empreendimentos que gerem renda e emprego para um universo de agricultores como o Seu Rosentino.

100% – Uma dessas iniciativas é o projeto “Estratégias de aproveitamento dos co-produtos do coco ouricuri na alimentação humana e animal”, coordenado pelo engenheiro agrônomo José Barbosa dos Anjos, pesquisador da Embrapa Semi-Árido, e financiado pelo Instituto de Desenvolvimento da Região do Sisal (IDRSisal). Já em execução, são avaliadas técnicas de pré-processamento para utilizar a palmeira na produção de alimentos, de óleo, de fonte energética, bebida, sabonetes, sabões, detergentes e picolés.

De acordo com José Barbosa, em cada parte da planta de ouricuri, há propriedades que podem ser transformadas em ingredientes comerciais capazes de gerar renda e postos de trabalho. Análises de laboratório, registraram a propriedade de quase 100% de saponificação, por isso o óleo extraído do coco de ouricuri tem destino certo: as indústrias de saboaria. Neste caso, o percentual de soda cáustica é bem menor no processamento de sabões, sabonetes e detergentes.

Outro co-produto do ouricuri é uma espécie de casca que envolve o coquinho. De consistência muito dura, esse resíduo é apontado pelo pesquisador da Embrapa como um combustível renovável, que pode ser incluído na matriz energética da região. Com baixo teor de enxofre, a adoção desse material, para alimentar fornos de cerâmicas ou fogões de residências, reduz a pressão pelo corte da vegetação nativa para produção de lenha, como também causa pouco impacto sobre o efeito ao meio ambiente, por se tratar de uma energia limpa e de fonte renovável. Segundo ele, mais ou menos 20 kg de carvão de ouricuri geram a mesma energia de um botijão de 13 kg de GLP (gás liquefeito de petróleo).

Indústria – Para Barbosa, o ouricuri precisa ter uma exploração racional e ser encarada pelos agricultores familiares do semiárido baiano como uma cultura perene e rentável. O projeto que coordena tem a pretensão de introduzir técnicas adaptadas à exploração dos co-produtos da palmeira em nível de propriedades ou em comunidades urbanas.

Em Caldeirão Grande, um dos municípios que formam o Território do Piemonte do Norte do Itapicuru, a instalação no ano de 2008 de uma indústria no âmbito de um programa da Superintendência da Indústria e Comércio do Governo da Bahia tem dado nova dinâmica ao mercado de ouricuri na região. Inicialmente cedida a uma associação de agricultores para exploração, acabou sendo assumida pela Indústria de Extração de Óleo Vegetal (Inovec). Do processamento inicial de 600 kg/semana, já chega a esmagar, no período de safra 2000-2500 kg/ semana.

Kedna Samira Bezerra Sobreira, Gerente Administrativa da Inovec, considera pouco. Ela explica que trabalha com a meta de chegar a esmagar entre 1000 kg e 2000 kg por dia da amêndoa do ouricuri. O mercado, que se restringia a clientes fabricantes de material de limpeza (sabão, detergente e desinfetante) em municípios vizinhos (Morro do Chapéu e Euclides da Cunha), tem perspectivas de expansão para lugares tão distantes quanto Lauro de Freitas, Vitória da Conquista e Feira de Santana.

Potencial – As vantagens da industrialização são percebidas pelo genro de Seu Rosentino, Maurício Almeida dos Santos. Para ele, viabilizar o processamento da amêndoa pelos próprios agricultores é maneira que vê para conseguirem melhores preços na venda do ouricuri. Da forma como acontece atualmente, a comercialização a granel (licuri inteiro), ao preço de R$ 0,10/Kg, gera uma pequena renda que apenas compra poucos itens da cesta básica das famílias, explica.

Assistente Social, com atuação nos municípios de Filadélfia e Pindobaçu, Solange Santos Marinho considera que a instalação e o funcionamento regular de uma indústria são o modo mais acertado de ampliar a renda das famílias de agricultores e de impulsionar o desenvolvimento econômico de municípios, com base em um recurso abundante e local. Num estudo feito com o objetivo de dimensionar a densidade da palmeira de ouricuri na área territorial de Caldeirão Grande, chegou -se à estimativa da ocorrência de uma população de plantas de mais de 15 milhões de pés, com uma produção média anual estimada em 12 kg de amêndoa por palmeira.

A industrialização também é uma forma de aumentar a produtividade do trabalho dos agricultores. O rendimento da extração manual de coco ouricuri é muito baixo: em torno de 5 a 7 kg de amêndoa por dia. O equipamento desenvolvido para quebra do coco, em operação na Inovec, produz 600 kg de coquinho, por hora.

O ouricuri precisa passar a ser explorado em bases mais racionais. Algumas questões tecnológicas ainda precisam ser acertadas para aprimorar o desenvolvimento de novos co-produtos. Contudo, o planejamento de melhores estratégias de aproveitamento do coco e de seus co-produtos deve levar a atividade a evoluir de uma forma artesanal, para se consolidar em negócios rentáveis para muitas famílias do sertão baiano, afirma José Barbosa.


Contatos:
José Barbosa dos Anjos – pesquisador;
jbanjos@cpatsa.embrapa.br
Marcelino Ribeiro – jornalista;
marcelrn@cpatsa.embrapa.br
Embrapa Semi-Árido – 87 3862 1711