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sábado, 16 de outubro de 2010

ALERTA: estamos consumindo além da capacidade do Planeta

14/10/2010

Relatório da WWF diz que humanidade já consome 50% mais recursos do que a Terra consegue oferecer

Perda, alteração e fragmentação de habitats, exploração de espécies selvagens, poluição e mudança do clima são as principais ameaças
RELATORIO_WWF
Nos últimos 40 anos, o consumo excessivo dos recursos naturais cresceu a um ritmo acelerado e hoje já consumimos 50% mais do que a capacidade de renovação do planeta, seja em ar limpo, água potável, terra ou recursos naturais e agrícolas. O resultado desse excesso é a perda da biodiversidade mundial, que chegou a 30% no período.

Os dados são da edição de 2010 do Relatório do Planeta Vivo, da Rede WWF, publicada mundialmente na quarta-feira (13/10). Produzido a cada dois anos, o levantamento mede a saúde de quase 8.000 populações de mais de 2.500
espécies. 

A pegada ecológica, um dos indicadores da devastação ambiental utilizados no relatório, mostra que a demanda da humanidade por recursos naturais duplicou desde 1996 e, atualmente, utilizamos o equivalente a um planeta e meio para sustentar nosso estilo de vida. Se continuarmos a viver além da capacidade do planeta, aponta o relatório, até 2030 precisaremos de uma capacidade produtiva equivalente à exploração de dois planetas.  

Segundo o relatório, os ricos demandam mais recursos, mas a degradação e a conseqüente perda da biodiversidade são mais acentuadas nas regiões tropicais – como o Brasil –, que também são as mais pobres, onde houve uma queda de 60% das espécies de plantas e animais. 

Segundo o relatório, nas regiões temperadas (e mais ricas), houve uma recuperação de 29% das espécies, graças, em parte, ao aumento dos esforços de conservação da natureza e a um melhor controle da poluição e do lixo.
 
“É alarmante o ritmo da perda de biodiversidade que se verifica nos países de baixa renda, em sua maioria situados  nos trópicos, enquanto o mundo desenvolvido vive num falso paraíso, alimentado pelo consumo excessivo e elevadas emissões de carbono”, alerta Jim Leape, diretor geral da Rede WWF. 

O documento aponta a perda, alteração e fragmentação de habitats, a exploração excessiva de espécies selvagens, a poluição e a mudança do clima como os principais fatores que ameaçam a biodiversidade.

Clique aqui para ler a versão completa do relatório.

Consumo desigual
O relatório reafirma um dado que já é conhecido: além de excessivo, o consumo é desigual. O excesso é predominante em nações mais ricas. Apenas os 32 países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – grupo das economias mais ricas e industrializadas do planeta – são responsáveis pelo consumo de 40% dos recursos disponíveis.  

Brasil, Rússia, índia e China não fazem parte da OCDE, mas, somados, têm o dobro dos habitantes dos países do grupo. E o relatório alerta que, mantido o atual modelo de desenvolvimento, os chamados países emergentes seguirão a mesma trajetória de degradação ambiental dos ricos.

“Seriam necessários quatro planetas e meio para atender a uma população mundial (6,8 bilhões de pessoas) com um estilo de vida equiparável ao de quem vive hoje nos Emirados Árabes ou nos Estados Unidos", alerta Leape.

Mudanças climáticas
Segundo o documento, devido ao aumento da geração e emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, causado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento e processos industriais, o planeta entrou em uma espécie de “cheque sem fundo” ecológico. 

Nossa pegada de gás carbônico, principal causador do efeito estufa, aumentou em 35% nos últimos 20 anos e atualmente é responsável por mais da metade da pegada ecológica global.

Segundo o documento, os dez países com a maior pegada ecológica per capita são: Emirados Árabes Unidos, Catar, Dinamarca, Bélgica, Estados Unidos, Estônia, Canadá, Austrália, Kuwait e Irlanda.  O Brasil ocupa a 56º posição neste ranking.

Mais uma vez, a maior pegada é a dos países de alta renda. Em média, a pegada desses países é cinco vezes maior do que a dos países de baixa renda.  

“As espécies são a base dos ecossistemas,” afirmou Jonathan Baillie, diretor do Programa de Conservação da Sociedade Zoológica de Londres, entidade que participou do levantamento.  “Ecossistemas saudáveis constituem as fundações de tudo o que nós temos – se perdemos isso, destruímos o sistema do qual depende a vida”, completou Baillie.

Brasil
O Brasil possui uma alta biocapacidade – relação entre a área disponível para agricultura, pastagem, pesca e florestas e o potencial de produtividade –, mas isso não nos coloca em uma situação confortável.

“A redução da desigualdade com aumento do poder aquisitivo da população brasileira é uma conquista positiva. No entanto, também nos coloca frente a um grande desafio que é o de crescer sem esgotar nossos recursos naturais”, destaca a Secretária-Geral do WWF-Brasil, Denise Hamú. 

Para Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu, o consumo das riquezas naturais é indispensável para a vida no planeta e é fator determinante do crescimento econômico. “O que precisamos é consumir menos e diferente. Ou seja, consumir de forma mais responsável, buscando um equilíbrio entre nossas necessidades e a capacidade da renovação da Terra”.

“O principal benefício do relatório é servir de ferramenta para os tomadores de decisão estimularem uma economia de baixo carbono, uma economia verde, criando novas oportunidades de crescimento para o país e protegendo os serviços ecossistêmicos que são a base de nosso desenvolvimento econômico”, afirma Hamú.

domingo, 18 de abril de 2010

Akatu: campanha sustentável tem destaque mundial



Débora Spitzcovsky - 15/04/2010
A campanha do Instituto Akatu “1/3 de tudo o que você compra vai direto para o lixo”, que chama a atenção para a questão do desperdício de alimentos, foi selecionada para a lista das melhores campanhas sobre sustentabilidade do mundo, feita pelo The Guardian

Lançada pelo Akatu no início de 2009 e veiculada em diversas mídias, a partir de peças publicitárias criadas pela agência Leo Burnett, a campanha visa incentivar o consumidor a diminuir o desperdício de alimentos, ao mostrar o quanto a atitude impacta no bolso das pessoas. 

Com a chamada “Olha que loucura”, as peças publicitárias da campanha mostram imagens de alimentos estragados e o preço de cada um deles, traduzindo em cifras o quanto o consumidor está desperdiçando de comida. Segundo a campanha, ao jogar fora um quilo de anchova, por exemplo, desperdiçamos R$ 12,90. 

A iniciativa do Akatu aparece na lista do The Guardian ao lado de outras 26 campanhas sobre sustentabilidade que foram veiculadas em diversas partes do mundo. Veja a relação completaaqui

sexta-feira, 5 de março de 2010

III Feira de Responsabilidade Social Empresarial Bacia de Campos



Evento será em Macaé (RJ) e terá como tema “Consumo Consciente por uma Economia Sustentável”
Promovida desde 2008 pela revista Visão Socioambiental  (visaosocioambiental.com.br) e parceiros para disseminar conceitos e estimular ações de Responsabilidade Social e Sustentabilidade nos municípios da área de influência da Bacia de Campos, região que tem como principal atividade econômica a exploração de petróleo - fonte energética não renovável -, a Feira de Responsabilidade Social Empresarial Bacia de Campos (feirarsebaciadecampos.co m.br) será realizada este ano nos dias 19, 20 e 21 de maio, no Centro de Convenções Jornalista Roberto Marinho (Macaé Centro), das 14h às 21h.
Como aconteceu nas duas versões anteriores, a  III Feira de RSE Bacia de Campos – cujo tema central é “Consumo Consciente por uma Economia Sustentável - terá a participação de empresas, organizações não governamentais, gestores públicos, universidades, profissionais liberais, estudantes, instituições de classe, entidades socioambientais, entre outros.
No evento  estão incluídos stands, Fórum com palestras, painéis e mesa-redonda, Rodada de Negócios Sustentáveis, Sala de Projeção de Filmes e Vídeos ambientais, apresentações artísticas e culturais com talentos da terra e artistas já consagrados etc. A entrada é inteiramente gratuita, inclusive para o Fórum, bastando o interessa do se credenciar pela internet ou no local.
A III Feira de RSE Bacia de Campos contará com a participação de nomes consagrados na área de Responsabilidade Social Empresarial e Sustentabilidade, tais como a economista Amyra El Khalili, o também economista e ambientalista Sérgio Besserman, presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável e de Governança Metropolitana do Rio de Janeiro e professor de economia brasileira na PUC-Rio, a jornalista Amélia Gonzalez, editora do caderno Razão Social de O Globo, Higino Aquino, presidente do Instituto Brasileiro de Florestas, entre outros convidados, além de representantes de organizações não governamentais e de grandes empresas e entidades que lideram o movimento em prol da sustentabilidade no Brasil e no exterior.
De acordo com o jornalista Martinho Santafé, diretor da Revista Visão Socioambiental, as du as Feiras anteriores mostraram ser o evento uma excelente oportunidade para a troca de conhecimentos e experiências, possibilitando, inclusive, o surgimento de parcerias e de ações pela sustentabilidade regional envolvendo atores diversos, como prefeituras, entidades empresariais, sindicatos, universidades, ONG´s e Agendas 21 locais. “O grande objetivo da Feira de Responsabilidade Social Empresarial Bacia de Campos é sensibilizar pessoas a participarem ativamente da construção de um mundo mais sustentável”, diz o jornalista.
 Evento: III Feira de Responsabilidade Social Empresarial Bacia de Campos
 Período: 19, 20 e 21 de maio de 2010
 Horário: 14h às 21h
 Objetivo: Apresentação de projetos e ações nas áreas de Responsabilidade Social e Sustentabilidade, disseminando, através de palestras, oficinas do conhecimento, painéis, mesas-redondas e debates, conceitos e ações de Responsabilidade Social e Sustentabilidade, direcionados para o desenvolvimento regional sustentável.
 Realização: Revista Visão Socioambiental e parceiros.
 Tema: “Consumo Consciente por uma Economia Sustentável”.
 Target: Empresários, gestores públicos, educadores, profissionais que atuam nas ár eas de Responsabilidade Social Corporativa, Meio Ambiente e Recursos Humanos, organizações não governamentais, universitários e integrantes das demais instituições representativas da sociedade organizada.
 Programação: Fórum de palestras e debates, Rodada de Negócios Sustentáveis, Feira de Exposições, Oficinas de Conhecimento, Projeção de Vídeos e Filmes sobre Sustentabilidade e Apresentações Artísticas e Culturais de ONGS, talentos da terra e artistas consagrados.
 Local: Centro de Convenções Jornalista Roberto Marinho (Macaé Centro)
           Área com 19 mil m²  /   Pavilhão Especial com 10 mil m²
          10 salas de convenções com capacidade para 100 pessoas cada, reversíveis.
           Praça de alimentação  /    Restaurante
           Estacionamento para 1.500 carros
           Rodovia Amaral Peixoto, Km 170 - Barreto – Macaé/RJ
           www.feirabaciadecampos.com.br
Apoio: Planeta Voluntários
Entrada gratuita, mediante credenciamento, incluindo a participação no Fórum de Palestras.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

ARTIGO - Mudanças no consumo


26/02/2010 16:11:29

Está surgindo no mundo uma nova tendência de consumo. De acordo com uma pesquisa mundial divulgada no Brasil pelo Instituto Akatu no final de 2009, consumidores reconhecem as boas causas e estão cada vez mais dispostos a apoiar as marcas e empresas que as praticam, percebendo o poder que possuem para determinar as tendências do mercado. 

Uma das mudanças de valores mais significativas é que encontrar felicidade em consumir parece fazer parte do passado. Apenas 16% dos consumidores ouvidos disseram tirar satisfação em fazer compras. Em 2008, eram 25%. Entre os consumidores brasileiros, a diferença é ainda maior: 29% disseram encontrar satisfação em ir às compras em 2008, enquanto em 2009 foram apenas 14%. 

Esse cenário faz emergir um paradoxo para as empresas e para o mercado em geral: como atender as demandas de inclusão social e transformar a base do consumo no mundo? É necessária uma revolução nos processos industriais e isso inclui os aspectos relacionados ao consumo, que precisa urgentemente ser reinventado. 

E é aqui que surge minha frustração. Durante o encontro desta manhã, onde estavam presentes CEOs de grandes multinacionais como Carrefour, Henkel, Banco da Índia e HTC, ficou muito claro que as empresas não estão preparadas para enfrentar as mudanças que estão em curso no mundo hoje. 

Os grandes líderes de mercado parecem ainda ter dificuldade para entender o que está acontecendo de fato. O discurso e a prática destas empresas ainda estão baseadas em modelos ultrapassados, que vêem os custos ainda da maneira tradicional, deixando as externalidades para a sociedade. 

E mais, não são apenas os grandes líderes do setor privado que demonstram essa dificuldade. Uma manchete recente num grande jornal diário mostra que pesquisadores e jornalistas também não entenderam as oportunidades que estão surgindo a partir das transformações que estamos vivendo. O título da matéria diz: “Só estagnação econômica pode reduzir aquecimento global, diz estudo”. 

O relatório da Fundação Nova Economia (NEF, na sigla em inglês) explica que, segundo a Nasa, a agência espacial americana, a concentração máxima de gás carbônico na atmosfera para manter o aquecimento global dentro dos 2º C deveria ser de 350 ppm (partículas por milhão). E para atingir essa meta até 2050, a humanidade teria de reduzir sua intensidade de carbono na economia em 95%. 


Então, o estudo classifica essa drástica redução na intensidade de carbono na economia como "sem precedente e, provavelmente, impossível", reforçando a defesa pela estagnação econômica. 

Porém, esse é um grande equívoco. Uma análise desse tipo está claramente baseada em uma visão ultrapassada de desenvolvimento. As demandas provenientes das mudanças climáticas nos obrigam a repensar e recriar nossos modelos, com inovação e visão de futuro. É isso que estão fazendo (ou deveriam estar fazendo) os líderes mundiais reunidos nesta semana em Davos. 

É possível e imprescindível criar uma nova economia, com base em novos modelos, que incluam de fato os aspectos sociais e ambientais.


Ricardo Young
Ricardo Young, 51 anos, empresário, graduado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, São Paulo, pós graduado em Administração Geral pela PDG/EXEC. Presidente do Conselho Deliberativo do Yázigi Internexus; fundador e presidente por três mandatos da Associação Brasileira de Franquias (ABF). Presidente do Instituto Ethos e do UniEthos; conselheiro das organizações Global Reporting Initiative (GRI) em Amsterdam, Holanda, Accountability, em Londres (Inglaterra) e Grupo de Zurich (Suiça) . Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), da Presidência da República, até dezembro de 2006.



Fonte: Carta Capital

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A revolução do slow food (comer devagar)

Paolo di Croce, secretário-geral do Slow Food International. Foto: Miren Gutiérrez/IPS

Miren Gutiérrez*
27/07/2009 - 16:39:48

A ideia de slow food (comida lenta) está na contramão daquela que postula a comida rápida, ou fast food. Hoje, além do mais, é o nome de um movimento com mais de cem mil pessoas em 132 países. Mas, o que significa na prática? A pergunta foi feita em uma entrevista exclusiva com o secretário-geral do movimento Slow Food International, o italiano Paolo di Croce, promotor de uma alimentação “boa, limpa e justa”.

IPS/IFEJ: O movimento Slow Food se apresenta como defensor da biodiversidade, mas o que tem a ver a boa cozinha, a tradição e a cultura culinária com os arrecifes de coral e as florestas tropicais?

PAOLO DI CROCE: Um tema fundamental para uma boa alimentação é a promoção do diverso. A globalização, o desaparecimento de espécies e a padronização dos mercados tendem a reduzir a diversidade. Todas as maçãs que comemos pertencem a apenas quatro das centenas de variedades que existem. Preservar a variedade dos alimentos é fundamental para o meio ambiente, a história e a cultura. O Slow Food tem muitos programas para lutar contra a extinção de espécies. Por exemplo, há um na selva amazônica para proteger a Bertholetia excelsa, uma noz que cresce em árvores de 40 metros de altura em comunidades indígenas. Procuramos criar mercados para essa noz, e assim preservar sua existência. Além disso, a perda de biodiversidade afeta a todos pessoalmente. Se continuarmos comendo atum no ritmo atual, em poucos anos não haverá mais atum. A alimentação está essencialmente unida à diversidade agrícola. Os lobos e os ursos polares não são nossa prioridade, mas temos sócios preocupados com eles, pois o fim último é preservar nossa identidade cultural e nosso ambiente, incluindo a vida silvestre. De fato, temos programas sobre música e vestimentas tradicionais, línguas indígenas.

IPS/IFEJ: Na cúpula do Grupo dos Oito (G8) países mais poderosos (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia), realizada este mês em L’Áquila, na Itália, falou-se em “mobilizar US$ 20 bilhões em três anos” para combater a crise alimentar. Foi dito que esse dinheiro para a crise poderia ser usado para promover a agricultura, ao contrário da ajuda tradicional. Como viu esse anúncio?

DI CROCE: Em L’Áquila debateu-se sobre biodiversidade e comprometeram mais dinheiro para a agricultura. É positivo. Não apenas os países do G-8, mas todos se dão conta do enorme risco de nada fazer para resolver a crise alimentar. Porém, é preciso ver se esse investimento é bom, limpo e justo. Temos a oportunidade de influir no uso desse dinheiro. O sistema vigente fracassou. Basta ver a quantidade de pessoas passando fome, a crise financeira, a crise da saúde nos países ricos, como obesidade, diabetes, problemas cardiovasculares. A indústria alimentícia criada por este sistema tem de mudar. Todos têm direito a alimentos bons, limpos e justos. Também é errado responder à crise alimentar com “dinheiro para a crise”. Porque este problema é resultado de décadas. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e outras organizações indicam que cada vez mais gente tem fome e desnutrição. Temos de mudar para um modelo responsável, não tapar os buracos com dinheiro para a crise.

IPS/IFEJ: Na cúpula, a Oxfam Internacional apresentou o informe “Evidência que dói: A mudança climática, as pessoas e a pobreza”, que mostra como os instáveis ciclos das estações complicam o planejamento de semeaduras e colheitas. Assim, milhões de pessoas sofrerão escassez de alimentos e deverão abandonar cultivos tradicionais, o que possivelmente derive em migrações maciças. O que pensa a respeito?

DI CROCE: A mudança climática tem enorme impacto na agricultura e nas pessoas. Populações inteiras terão de abandonar seus territórios. Com o aumento das temperaturas na Suécia e Noruega, comunidades do povo sami se deslocam seguindo as renas, que são seu sustento. As renas estão abandonando seu hábitat rumo ao norte, e os samis fazem o mesmo. Os cultivos tradicionais podem ser uma ferramenta. No México temos um projeto para promover o amaranto (Amaranthus spp.), cujo cultivo foi abandonado quando chegaram os conquistadores espanhóis. Seu valor nutricional é importante e pode crescer em áreas secas. Estamos tentando replantá-lo como alternativa ao milho, que depende muito da água.

IPS/IFEJ: O Slow Food afirma que podemos ser coprodutores, não apenas consumidores, nos informando sobre como são elaborados os alimentos e apoiando os que o fazem. Mas, produzir e consumir comida boa, limpa e justa é muito mais caro. Alguém já disse que com US$ 0,99 pode-se comprar um hambúrguer com queijo, mas não dá para comprar brócolis. Seu movimento é qualificado de elitista…

DI CROCE: É preciso analisar dois temas. Um é a porcentagem de nossa renda que dedicamos a nos alimentar. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostra que na década de 70 as famílias gastavam cerca de 6% de sua renda em cuidados com a saúde e aproximadamente 7% com comida. Ao fazer a mesma pesquisa há pouco tempo, descobriu-se que agora as famílias gastam 15% e 10%, respectivamente. O gasto com alimentos não aumentou muito, mas o da saúde cresceu mais que o dobro. Provavelmente haja uma correlação. É preciso considerar todos os excessos de custos originados em uma dieta deficiente, o dinheiro gasto com nutricionistas e médicos. Penso que 10% da renda das famílias não é suficiente, se comparado com gastos com telefone celular. O outro é o preço real do alimento. Há muitos custos externos associados à comida rápida. Além do cuidado com a saúde, existe o custo ambiental da indústria alimentícia, que pagamos com impostos para reparar os danos que ela causa ou para financiar subsídios, e que a próxima geração continuará pagando. Os alimentos baratos são possíveis pelos subsídios, sempre e quando a sociedade pagar a conta ambiental. Em 2008, um dos produtos com vendas em crescimento na Itália foi a salada pré-lavada. Em comparação com a que você elabora comprando as verduras no mercado de seu bairro, a pré-lavada é oito vezes mais cara. E é menos sustentável, porque vem em uma embalagem plástica. Uma porção de cem gramas de batata frita “chip” custa nove vezes mais do que comprar a batata crua e fritá-la em azeite de oliva extravirgem. E ninguém pode dizer que as batatas fritas são elitistas. Por fim, está o desperdício. Na Itália, jogamos fora cerca de 22 quilos de comida por segundo. Se somarmos o que gastamos sem nos darmos conta, os custos de saúde e meio ambiente e o que desperdiçamos, o custo é insustentável. Por outro lado, você pode ter comida boa, limpa e justa sem pagar muito.

IPS/IFEJ: Convenhamos que não é exatamente uma mensagem de massa. Não se sente frustrado?

DI CROCE: Nos últimos cinco anos vi muitas mudanças. Onde quer que vá, há mais interesse. E não me refiro ao Banco Mundial, mas às pessoas comuns, essas que mudam o mundo, os “coprodutores”. O dia em que decidirmos comer alimentos frescos cultivados perto da gente, e menos carne, haverá uma revolução com essas simples decisões cotidianas. Contudo, tem de se tornar maciça. É fundamental trabalhar com outras organizações, qualquer uma que acredite ser possível comer de outra maneira. E um dia poderemos mudar o sistema.

* Miren Gutiérres é editora-chefe da IPS. Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável .


Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


(Envolverde/Terramérica)

Fonte: Mercado Ético

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Educação Ambiental - fragmentos para a reflexão

Abaixo transcrevo algumas matérias veiculadas nesse ano de 2008 pelo Jornal Diário do Nordeste, com minha participação. Falo sobre educação ambiental e a responsabilidade que temos diante dos nossos semelhantes e do Planeta.


Jornal Diário do Nordeste - Caderno Negócios (Fortaleza, 3/12/2008)

SOCIORRESPONSABILIDADE NO NATAL

Presente sustentável faz bem ao planeta.
Consumo responsável ajuda a construir, desde a infância, o entendimento sobre a preservação ambiental e a produção justa.


Produtos feitos com matéria-prima reciclada, reaproveitada, orgânica ou fruto de produção limpa são opções para o NatalEm tempos de crise, muita gente está pensando duas vezes antes de comprar presente de Natal, mesmo as lembrancinhas. Para quem está nesse dilema e não quer deixar de presentear, que a compra seja pelo menos útil. Produtos feitos com matéria-prima sustentável, que tanto preservam como valorizam a natureza e ainda são frutos de produção e comércio justos são opções que vão além do material. Além de serem bacanas, acompanham valor simbólico que ajudam a sensibilizar quem compra e quem ganha.Independente da escolha, importante é que a aquisição tenha como meta o consumo consciente e sustentável. De acordo com a professora Suely Salgueiro Chacon, doutora em Desenvolvimento Sustentável, pela Universidade de Brasília (UnB), a forma como a sociedade se organiza, produz e consome revela muito do que ela é enquanto grupo.Isso vale para o mercado local, regional e até mesmo o global. Isso porque, segundo a professora, o mercado interfere no comportamento e cria necessidades de forma tão rápida que induz os consumidores a adquirir itens supérfluos. Chacon percebe que há mudanças na forma de consumir, graças à mídia. “Há até avanços, no sentido de compreender que a sustentabilidade vai além da questão ambiental, e envolve questões sociais e políticas”, frisa.
OPÇÕES
Se a proposta for levar a natureza para a casa do presenteado, com velas e sachês feitos de matéria-prima elementar, o resultado surge em várias versões. Se for de cravo, a idéia é que o aroma leve proteção ao ambiente; erva-doce, estímulo; canela, prosperidade; e camomila, tranqüilidade. Assim, é possível presentear por valores na faixa de R$ 6,00, com velas e aromatizadores de cerâmica feitos de materiais reaproveitados. “Muitas pessoas procuram presentes que não usam tantas química e valorizam o que a terra oferece. O mundo está mudando e nós precisamos cuidar dele e da gente”, diz a vendedora da Mundo Verde da Avenida Engenheiro Santana Júnior, Rogéria França.Mas se a idéia for estender o presente ao uso diário, agendas e itens de escritório feitos com papel reciclado são opção para mudar o ambiente do escritório. Na CD Max da Avenida Santos Dumont os preços variam de R$ R$ 22,80 (agenda Naturalis, da Tilibra) a R$ 72,50 (caderno-agenda grande da Gráfica Ótima).Para iniciar crianças no consumo consciente, uma escolha é o estojo de R$ 23,25 da Faber-Castell, com Ecolápis feitos com madeira reflorestada, em espaços bem manejados. Porta-clips, porta-caneta e outros adereços de escritório são encontrados em várias livrarias, inclusive feitos com papel reciclado e fibras naturais, com preços na faixa dos R$ 20,00.Para crianças, a vendedora Regiane Salmito, da Caixa de Brinquedos na Rua Desembargador Leite Albuquerque, recomenda presentes feitos de madeira reflorestada. Os preços variam. A casa com mobília fica R$ 291,00, mas há opções por R$ 28,35, como o jogo Bate-Pino, e o quadrado mágico por R$ 18,40.
COMPORTAMENTO
Comércio justo ainda enfrenta dificuldadesA comercialização de produtos feitos com matéria-prima orgânica ainda enfrenta dificuldades, em especial na produção em grande escala. Por isso, mesmo que o consumidor encontre roupas e acessórios do tipo em lojas da cidade, as peças são minoria nas prateleiras e têm preços mais altos do que as não confeccionadas com orgânicos. Uma alternativa é fazer compras na Internet.De acordo com o engenheiro agrônomo Pedro Jorge Ferreira Lima, da ONG Esplar, pioneira no apoio à cultura do algodão orgânico no Ceará e referência nacional no assunto, mesmo com a produção estabelecida e clientes garantidos, as roupas da Justa Trama não são fáceis de encontrar porque a idéia do projeto, que de 30 costureiras saltou para uma central de cooperativas, é vender a preço justo, sem exploração. “Quando as roupas vão para as lojas, normalmente os preços são muito altos”, justifica.Além de servir de base para roupas da marca, o algodão orgânico do Ceará também está no tecido dos tênis da marca francesa Veja. O fio e a lona são de São Paulo, o couro do Rio Grande do Sul e a borracha, de seringueiras do Acre.No Brasil a Osklen é referência na criação de peças feitas com couro certificado por órgãos ambientais e com fibras e tintas cultivadas com agricultura familiar. Para comprar pela Internet, a WWF Brasil é uma alternativa. No www.wwf.org.br é possível escolher entre camisetas, bonés, lápis e adesivos cuja renda ajuda em projetos de preservação ambiental no País.
Marta Bruno - Repórter
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=595144


Jornal Diário do Nordeste - Gestão Ambiental (Fortaleza, 29/10/2008)

Uma nova forma de relação com o mundo

Segundo a professora Suely Chacon, Educação Ambiental não se ensina apenas com palavras ou livros.

Foi-se o tempo em que educação ambiental se restringia a colocar papel no cesto de lixo ou a plantar mudinhas. A degradação do meio ambiente exige que a questão seja tratada com maior profundidade e que, junto com a orientação, o indivíduo seja preparado para transformar seus modos de consumo, pensando no coletivo e de forma atemporal. Fazer o habitual — e mais um pouco — para manter a casa, o ambiente de trabalho e a própria cidade saudáveis não é escolha, mas necessidade.“A mudança de atitude em relação à forma de consumir é parte de um processo amplo de tomada de consciência, sobre como conviver com nossos semelhantes e com o meio ambiente”, sugere a professora e pesquisadora da área de Desenvolvimento Sustentável, Suely Salgueiro Chacon. Isso acontece, segundo ela, à medida em que as ações de Educação Ambiental se disseminam em variadas instâncias e de forma transversal, não só nas salas de aula, mas em empresas, na mídia e no ambiente familiar.Como o ser humano precisa de alimentação, vestuário e moradia para sobreviver, a idéia é pensar o consumo de uma forma mais ampla: “Precisa-se de outros itens para viver, como educação e cultura. Precisamos, agora, de itens de saúde mais sofisticados e de transporte, o que amplia a base de necessidades e interfere no consumo. Importante é que a aquisição de bens e serviços não afete negativamente o ambiente´.“Educação Ambiental não se ensina apenas com palavras ou livros. A troca de informações enriquece a formação e aumenta a consciência ambiental. Há muitos aspectos implícitos no ato de encher um carrinho de supermercado, escolher um carro ou comprar roupa.
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=584798



Jornal Diário do Nordeste - Gestão Ambiental (Fortaleza, 05/06/2008)

Caderno Gestão Ambiental - A opinião do especialista


Somos uma espécie!

Por Suely Salgueiro Chacon

O que é ser humano? Essa simples interjeição nos leva a uma profunda reflexão sobre o que temos feito com nossa casa, o Planeta Terra. O homem foi se distanciando da sua real condição de ser pertencente a uma espécie, a espécie humana, que habita na natureza e dela faz parte. Achando-se acima de tudo e de todos, inclusive de seus semelhantes, o homem foi instituindo um ´reinado´ que privilegia a sensação de ter, em detrimento da plenitude do ser.As conseqüências desse ´modelo´ de existência foram se engendrando ao longo da história conhecida da humanidade, e se exacerbaram com as possibilidades ampliadas de consumo em massa. Na medida em que os bens se tornam descartáveis, o homem explora cada vez mais a natureza e seus semelhantes para garantir que uma minoria privilegiada possa acumular e consumir, enquanto a maioria da humanidade é cada vez mais excluída e explorada, assim como a própria natureza. O aumento do desmatamento, a desertificação, a falta de água, as mudanças climáticas, bem como a fome a exclusão, a exploração irracional do trabalho humano, inclusive de crianças, a falta de respeito aos idosos e todas as formas de racismo e preconceito são exemplos do que nós mesmos fizemos ao nosso planeta e aos nossos semelhantes.No momento em que comemoramos o Dia Mundial do Meio Ambiente, cabe refletirmos sobre o que podemos fazer como espécie para reverter esse processo autodestrutivo. Muitos já se mobilizam. É preciso perceber nossa responsabilidade com o semelhante hoje e no futuro, e nos comprometermos com uma transformação real, para que todos se beneficiem. Garantir o acesso de todos à informação e a uma vida digna é o mínimo, e pode ser cobrado de governantes, mas a responsabilidade ética de mudar de atitude começa em cada um de nós.