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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Experiência com Agroecologia no Ceará

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Agroecologia favorece produtividade da mandioca

5/9/2010 Clique para Ampliar
Produtores da comunidade de Pirangi, em Itapipoca, cultivam a variedade “pretinha” e alcançam melhor rendimento que a modalidade anterior 
FOTOS: WILSON GOMES

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Casa de farinha em comunidade de Itapipoca. A produção do derivado da mandioca responde por 85% do que é produzido neste tipo de cultura no Estado, destinando-se à alimentação humana
Aumento de oito toneladas para 20t por hectare de mandioca é o resultado positivo alcançado em Itapipoca

Itapipoca - Uma associação formada por 25 famílias está atuando na transição da agricultura convencional para a agroecologia, fazendo com que a produção no campo aumente e se torne bastante rentável para todos que estão envolvidos no projeto. Este projeto foi implantado na comunidade de Pirangi, zona rural deste município e está sendo assistido pela Ematerce.

É um sistema de produção que visa o resgate de práticas agrícolas já conhecidas pelos produtores, a partir do uso de ferramentas tecnológicas e sociais cujo objetivo é o melhor incremento da produção e maiores possibilidades de mercado para o produtor.

O projeto implantado, que está servindo de piloto para outras comunidades, visa mostrar ao produtor de mandioca que ele pode optar por uma diversificação das espécies do cultivo de mandioca, ou usar somente uma variedade. "Aqui estamos trabalhando com uma única espécie, a mandioca variedade pretinha", disse Zilval Fonteles, engenheiro agrônomo da Ematerce. Segundo ele, a espécie tem uma produtividade de até 15 toneladas por hectare plantado, contra as 10 toneladas produzidas em área de igual tamanho com outros tipos de mandioca. "Além disso, a ´pretinha´ permite a colheita num tempo menor, algo em torno de um ano. Outra vantagem é o descascamento mais rápido, facilitando o trabalho das casas de farinha", ilustra Zilval Fonteles.

A transição da agricultura convencional para a agroecologia já mostrou suas vantagens e em pouco tempo conseguiu fazer com que os produtores aumentasse de oito toneladas por hectare, para 20t, por hectare. "A modernização da mandicultura foi necessário com a construção de uma fábrica de beneficiamento moderna, visando o aumento da produção de goma, farinha e outros subprodutos" explica Zilval Fonteles.

Melhor preço

"Antes a gente produzia de forma desordenada perdendo muito na qualidade obtendo um valor na venda muito inferior ao praticado no mercado local. Muitos compradores só pagavam R$ 35,00 por uma saca de 60 quilos, hoje o preço chegou a R$ 45,00", disse o presidente da Associação Prodesenvolvimento de Sítio Pirangi, José Cláudio Rosa.

Para o presidente da associação, um dos fatores que hoje devem ser levado em conta é a seleção de matéria adequada, higiene e os cuidados durante todo o processo de fabricação. "Com as novas tecnologias que estão sendo implantada na nova casa de farinha, o rendimento médio hoje chega a 30%", disse José Cláudio.

De acordo com engenheiro agrônomo da Ematerce, Zilval Fonteles, a agroecologia é constituída de diversos fatores que vão muito além da agricultura convencional, que é uma agricultura de exclusão.

"É um apanhado de técnicas, de parâmetros, de conhecimento local, de conhecimento do agricultor sobre o ecossistema em que ele vive, interação do meio ambiente com a natureza e o ser humano", disse Zilval Fonteles, acrescentando que devido a essa modernização introduzida, dentro das especificações tecnológicas exigidas, permite a produção de produtos de boa qualidade e de maior valor comercial, por custos razoáveis, proporcionando aumento na renda do produtor rural, o que gera uma grande expressividade apresentada pela cultura da mandioca no cenário socioeconômico do Estado.

Cultura de subsistência

Por não exigir maiores cuidados, o plantio da mandioca é um dos cultivos mais comuns realizados pelo homem do campo, considerado inclusive como cultura de subsistência no meio rural nordestino.

A mandioca é uma espécie nativa do Brasil e está distribuída em todo o território nacional. As principais regiões produtoras são: Nordeste (46%), Norte (25%), Sul (17%), Sudeste (7%) e Centro-Oeste (4%). Em nível nacional, 40 a 45% da produção destinam-se para farinha, 10% a fabricação do amido, 30% ao consumo de mesa e o restante é para a alimentação animal.

No Ceará em torno de 85% da produção de raiz de mandioca destina-se ao consumo humano, principalmente na forma de farinha e amido (goma), produtos considerados de baixa qualidade em razão das agroindústrias existentes serem artesanais e munidas de equipamentos obsoletos. O restante da raiz produzido é utilizado na alimentação animal, na forma fresca, ensilada ou fenada.

O interesse pela cultura deve-se a sua capacidade de adaptação as mais variadas condições ambientais.

Por suas características de rusticidade, em períodos de seca, comuns nas regiões semiáridas, a mandioca é capaz de produzir alimento, mesmo que precariamente, o que não acontece com a quase totalidade das mesófitas cultivadas nessas regiões, desempenhando assim, um importante papel social, notadamente junto às populações de baixa renda.

Quando as condições ambientais lhe são favoráveis, a mandioca se destaca das outras espécies cultivadas por sua elevada produção de biomassa por unidade de área. Daí a preferência de muitos produtores.

Fique por dentro 
Valor econômico

O cultivo da mandioca é de grande relevância econômica como principal fonte de carboidratos para milhões de pessoas, essencialmente nos países em desenvolvimento. O Brasil possui aproximadamente dois milhões de hectares é um dos maiores produtores mundiais, com produção 23 milhões de toneladas de raízes frescas de mandioca. Normalmente se recomenda o plantio de maio a outubro. Entretanto o plantio pode ser recomendado em qualquer época, desde que haja umidade suficiente para garantir a brotação das hastes. As principais pragas são: mandarovás, ácaros, percevejo de renda, mosca branca, mosca do broto, broca do caule, cupins e formigas. As doenças mais comuns são: Podridão de raiz, Bacteriose, superbrotamento, viroses. Ao ser constatada qualquer alteração no estado fitossanitário, consultar o órgão competente mais próximo.

MAIS INFORMAÇÕES

Associação Pro-Desenvolvimento do Pirangi
Sítio Pirangi, Itapipoca
(88) 3631.8008

VANTAGENS
Cultivo é base para a agricultura familiar

A mandioca apresenta rendimento superior a outras culturas e gera expressiva fonte de trabalho no Estado

A cultura da mandioca constitui a base da economia dos agricultores familiares das regiões litorânea, Chapada do Araripe e parte da Chapada da Ibiapaba. Ainda que haja uma intensificação da exploração de culturas permanentes, na zona mandioqueira, a cultura da mandioca persiste por ser responsável pela ocupação da maior parcela da força de trabalho das famílias rurais, além de ser a base alimentar dessas famílias e seus animais.

No Estado, 85% da produção de mandioca é transformada em farinha, sendo totalmente destinada à alimentação humana, principalmente para a população de menor poder aquisitivo. A maior produção de farinha ainda é feita em pequenas unidades fabris, as chamadas "casas de farinha", situadas nas próprias propriedades. Os equipamentos são primitivos, com exceção dos motores a explosão e elétrico, e a energia elétrica, monofásica, está bastante difundida no interior cearense.

O que torna a mandioca um cultivo sustentável é a sua capacidade de produzir em solos, cujo teor de fósforo é baixo e de realizar fotossíntese em condições de estresse hídrico, além das diversas utilidades e aplicabilidades.

Até agosto, no Ceará, a lavoura da mandioca apresentou um rendimento de 12,03%, enquanto que o café, outro produto em alta, teve um rendimento de 4,03%. Os dados foram divulgados recentemente pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Valor bruto

Assim, a cultura da mandioca continua sendo o 4º maior produto em valor bruto da produção agrícola (VBP), no Estado, com R$ 157,9 milhões, 47% a mais do que em 2009.

Quatro anos atrás, o Estado atingiu uma área de cultivo de 180.602 hectares com a cultura da mandioca, representando 9,7% da sua área apta, sendo colhido 88.602 ha, onde foram produzidas 860.780t de raiz de mandioca.

Outra cultura que vem ganhando força na região de Itapipoca é a cajucultura. Na comunidade de Pirangi foi realizado um trabalho intensivo de substituição de copas nos cajueiros velhos e improdutivos por cajueiros anão precoce. Com esse trabalho, a produção de caju passou de 380 quilos/ha para 600 quilos/ha.

Com a utilização de tratos culturais, levando em conta técnicas agroecológicas, as perdas médias nos cajueiros foi de 40%, diferente da média da região que chegou a 80%, em 2009.

Uma fonte de renda importante para a comunidade vem do ensino de técnicas de enxertia para agricultores de outras comunidades. A capacitação também favorece o intercâmbio entre produtores.

Renda

"A comunidade já tinha um potencial muito grande voltado para mandiocultura"

Zilval Fonteles
Engenheiro agrônomo da Ematerce

"Com a nova tecnologia melhorou a qualidade da farinha e o preço também"

José Cláudio Rocha
Presidente da Associação de Produtores

"O cultivo da mandioca tem ajudado tanto na produção, quanto na renda familiar"

Parlim Monteiro dos SantosAgricultor

Wilson Gomes
Colaborador

domingo, 16 de maio de 2010

História da Industrialização no Ceará


Publicada em 13.05.2010

Travessia pela industrialização do Ceará



Aos 60 anos, a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) convida o leitor a um passeio pelo tempo. Embarque-se, então, em um navio a vapor até o século 18, quando a Inglaterra iniciava a Revolução Industrial. O Brasil – ainda colônia portuguesa e com uma economia à base da lavoura da cana-de-açúcar (no litoral), da lavra nas minas de ouro e diamantes (no interior), da pecuária (no sertão nordestino e na planície sulista) e do extrativismo (no Norte) –  ficou para trás.

Mais distante ainda, o Ceará. À época em que a Inglaterra substituía ferramentas por máquinas e incrementava a mão de obra humana com o conhecimento científico, o estado se configurava em um campo aberto para a criação de gado. A hostilidade dos índios, seguindo-se da invasão holandesa e das lutas contra os quilombos, em meados do século 17, “haviam desorganizado os rebanhos, criando sérios problemas para os fazendeiros, que procuraram novas regiões para criar, sendo atendidos nos sertões do Piauí, da Paraíba, do Rio Grande do Norte, de Pernambuco e, principalmente, do Ceará” – como enumera o historiador, jornalista e memorialista Geraldo da Silva Nobre, no livro O Processo Histórico de Industrialização do Ceará (2001).


No Nordeste brasileiro do tempo da colonização, registram-se ainda os ciclos do algodão e o da cana-de-açúcar como propulsores de uma economia incipiente. Mas, para Nobre, é a pecuária que caracteriza uma “atividade pré-industrial” no Ceará. Ensaiava-se um comércio de carnes pelo Porto dos Barcos de Santa Cruz (depois, Aracati) e oficinas eram abertas para a artesania do couro, dos ossos, dos chifres e até das banhas dos animais: “O artesanato do couro já se encontrava bastante difundido, no Ceará (em cidades como Aracati e Acaraú), antes do terceiro decênio do século 18, com o fabrico de selas e arreios, botas e sapatos, gibões, chapéus, malas, baús, alforjes”.

A pecuária, estendendo-se em fazendas de gado, contribuiu para o povoamento do estado. Além de predispor a população à indústria, compreende Geraldo Nobre, “pelo desenvolvimento da capacidade criativa”. Nossa industrialização tem raízes pastoris, como também conclui Thomás Pompeu Sobrinho, em A Indústria Pastoril no Ceará (1917, citado por Nobre): foi o criatório extensivo que possibilitou, efetivamente, a colonização do Ceará – e esboçou uma atividade econômica mais próspera –, após fracassadas tentativas militares e jesuíticas.


Em seu garimpo peculiar, historiadores encontram ainda documentos expedindo licenças para teares e para engenhos de moer, datados dos séculos 18 e 19, que contam histórias paralelas à pecuária. O Ceará também foi tecido pelo algodão (que, na aridez do Nordeste, brotava como “ouro branco”) e teve uma pitada de cana-de-açúcar no caldeirão de sua economia. “A lavoura algodoeira prepondera desde 1775, aproximadamente, quando lhe deram grande impulso os portugueses Antônio José Moreira Gomes, Felipe Lourenço, Gregório Álvares Pontes e outros, para suprirem de matéria-prima os tecelões da Metrópole (Portugal), como alternativa aos preços elevados da lã”, relaciona Geraldo Nobre.

De certa forma, gado, algodão e cana-de-açúcar (que derivava na produção de açúcar grosseiro e rapadura, além de uma pequena, mas atrevida, produção de aguardente que concorria com Pernambuco) se encontraram no caminho pré-industrial do Ceará – enquanto, além-mar, a Revolução Industrial impulsionava a Europa.

Alguma coisa “respingava” aqui. Se a pecuária levava à inventividade elementar da industrialização, passando pelos curtumes, o beneficiamento do algodão ou da cana demandava instrumentos e máquinas. “O fabrico de açúcar (ou rapadura), da farinha (desmancha da mandioca) e de tecidos grossos de algodão, ofícios diversos e construção de edifícios públicos, igrejas (ou capelas) e casas de moradia foram, por conseguinte, naquele período de formação da gente cearense, atividades pré-industriais de relativa importância, pelo menos predispondo uma parcela considerável da população a profissões qualificadas, que não as de agricultor, vaqueiro ou negociante”, soma Geraldo Nobre.

Até ocorrer a Revolução Industrial a partir da Inglaterra, vivia-se em Fortaleza (hoje, a quinta capital do país) “um marasmo econômico” – como resume a socióloga Auxiliadora Lemenhe, no suplemento Revista Fortaleza – do Ouro Branco ao Empório (jornal O Povo, 23 de abril de 2006). A vila pintava um “quadro natural hostil que demorou a despertar interesse do colonizador”, dialoga o geógrafo e professor José Borzacchiello da Silva.

Em contrapartida, Aracati (no litoral leste, a cerca de 150 quilômetros da capital) já possuía um porto de “mar acessível”, aponta Borzacchiello, próximo a Recife. A reviravolta se deu com o cultivo do algodão: “Foi fundamental para a hegemonia de Fortaleza no cenário urbano cearense”, firmando a vila como cidade portuária e empório comercial a partir de 1777, considera o PhD em Geografia Humana.

“No sertão, desenvolvia-se a pecuária. Ao redor do gado, movimentava-se a economia do período”, retoma, para anexar: com a Revolução Industrial e o esgarçamento da indústria têxtil no mundo, a procura por algodão aumenta. E os Estados Unidos, principal abastecedor, estavam fragilizados pela Guerra da Secessão (1861-1865). Fez-se tempo bom para o Nordeste brasileiro. No Ceará, a exportação do algodão (cultivado, por exemplo, na Serra de Uruburetama) logo passava pelo porto de Fortaleza, e a vila ia se tornando “centro coletor da produção agrícola e pastoril do interior”.

“A pecuária e o algodão foram responsáveis pelo surgimento dos primeiros estabelecimentos industriais de Fortaleza (têxtil e de curtume, principalmente). Duas vocações do estado até hoje”, ratifica José Borzacchiello da Silva. “A fiação cearense cresceu”, informa a Revista FIEC – edição comemorativa dos 50 anos (12 de maio de 2000), “passando do pano grosso (que vestia os escravos) para o cacondé, vendido no exterior”. O Ceará tirava proveito, especialmente, dos períodos entre guerras mundiais.


Mas não vamos com tanta pressa – lembre-se, caro leitor, de que embarcamos em um navio a vapor, para cruzar as histórias. Não podemos perder de vista que faltavam condições para colocar o jeitinho brasileiro e a inventividade cearense em uma prática industrial. E instrumentos e mecanismos de trabalho – como um exemplar do descaroçador de algodão do francês Auguste Mulet e máquinas para espremer a mandioca e melhorar a produção de farinha – só desembarcaram por aqui em meados do século 19.

Foi quando o Ceará contava com certos visionários e uma economia que rendia capital para essas importações, destaca Geraldo Nobre. Ao mesmo tempo, atraíam-se artífices estrangeiros (ferreiros, pintores, marceneiros, arquitetos, engenheiros franceses e germânicos), intercambiando habilidades.

Aqui, vale uma curiosidade: “Dentre tantos que desenvolveram atividade profissional em Fortaleza, marearam sua presença João Vogeley, que se estabeleceu na rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), 78, com uma oficina, propondo-se a fabricar, consertar e afinar pianos, atividade pouco promissora naquele 1869; e a Senhora Bison, costureira e chapeleira originária de Paris, que residiu em 1882 na capital cearense, tendo movimentado a população mulheril com as últimas novidades da moda europeia, de maneira a despertar vaidades e transmitir artifícios até então desconhecidos na acanhada cidade provinciana”, recupera Geraldo Nobre. Também a imprensa corria e trazia notícias dos achados científicos e técnicos.

Bom, mas até as novidades atravessarem, de fato, o Atlântico, improvisava-se. Ou melhor, adaptava-se. Desde o Aracati da produção de carne seca, os cearenses conciliavam os processos estrangeiros à realidade local. Da invenção da vela de carnaúba (por volta de 1849), exportada para iluminar casas e igrejas das povoações de Pernambuco, à criação de uma despolpadora (1861) que tornava mecânicas as operações manuais nas lavouras de café.



“Uma das atividades em que os cearenses se mostraram imaginativos e inovadores foi a da farmácia oficinal, certamente uma das mais antigas, considerando-se o aproveitamento de propriedades medicamentosas pelos aborígenes”, ressalta Geraldo Nobre. Esse foi o embrião para o desenvolvimento da indústria farmacêutica no Ceará, demarca Geraldo Nobre, com o cirurgião Francisco José de Matos, “fabricante das pílulas vegetais depurativas”.

Mas a industrialização implica custos elevados: é imperativo ter capital para bancar máquinas e instalações, além do corpo funcional. E, no Ceará colonial, a economia não se desenvolveu na mesma proporção do povoamento. O estado padecia ainda com as secas e a falta de mão de obra especializada. “Até mesmo tipógrafos e impressores faziam falta na capital cearense”, exemplifica Geraldo Nobre. Como esboço de nossa industrialização, tem-se, então, pequenas fábricas, retratadas nos documentos oficiais dos anos 1800: de chapéus, de velas de cera de carnaúba, de selins, de sabão, rapés, mais padarias e oficinas de sapateiros e alfaiatarias dispersas. “Observa-se que a indústria cearense do início da segunda metade do século 19 era incipiente, atendendo a necessidades da população”, resume o historiador.

Em 1856, o governo imperial dá um impulso no desenvolvimento do país, revendo impostos e taxas que atravancavam a industrialização nacional. O resultado é que, entre 1861 e 1870, houve “uma frequência bem maior de iniciativas no campo da produção fabril”. Um dos destaques do período é a instalação da Fundição Cearense (agosto de 1868), nossa primeira metalurgia, “como o mais antigo estabelecimento de natureza industrial, devendo-se esclarecer que essa denominação era a de uma oficina aberta desde 1855, trabalhando com ferro batido”, sublinha Geraldo Nobre.

Nesse ínterim (decênio 1860-1870), compila o historiador, também se fortaleceram fábricas de charutos, sabão e a tipografia, “empreendimentos de pouca expressão... Observa-se que se registraram pequenas inovações, com melhoramentos significativos em apenas alguns setores, o da fundição notadamente, e a expansão de algumas atividades tradicionais, cabendo uma referência à tipografia, cujas oficinas aumentaram em número, em consonância com o adiantamento intelectual proporcionado pelo Liceu do Ceará e pelo surgimento de livrarias”.

Fortaleza acompanhava, a passos curtos, o progresso industrial que corria no mundo. A Fábrica de Tecidos Progresso, de Thomás Pompeu de Souza Brasil e Antônio Pinto Nogueira Acioly, aberta em 1884, concordam pesquisadores, é que inaugura o processo de industrialização cearense. Essa fase elementar, a propósito, é marcada pelo predomínio de investimentos privados e familiares e se estende até os anos 1950. Há registros que contam 150 instalações industriais, na Fortaleza de 1895, e 310 estabelecimentos do gênero em meados do século 20.

A oiticica e a castanha de caju, anexa o geógrafo José Borzacchiello, também caracterizavam a indústria agroexportadora da capital-moça. A partir de 1891, foram criadas a Cia. Cearense de Curtume, pioneira na industrialização de couros e peles, a Cia. Fabril de Meias, e a Companhia Industrial do Ceará, que explorava as pedreiras existentes no estado para fabricação de cal, tijolos, telhas, ladrilhos e azulejos.

Mas as fábricas daquele tempo tinham infraestrutura precária, a exemplo do sistema de energia elétrica falho. Para se ter uma ideia: somente em 1857, as ruas de Fortaleza foram pavimentadas e se implantaram os trilhos dos bondes. Outro fato que impulsionou a economia da capital foi a instalação da primeira ferrovia do Ceará, em 1873. A Estrada de Ferro Baturité ia do bairro Parangaba ao município do Crato (região do Cariri), passando pela “mina” de ouro branco em Baturité.

Caminhava-se contra as secas – como a “seca grande” de 1877 – e o movimento da República que, avalia Geraldo Nobre, freou as atividades econômicas, “caracterizando um período de recesso”. As raízes do Brasil estavam fincadas em uma base agrícola, o que demorou a despertar no povo, “acomodado à rotina e à satisfação das necessidades imediatas”, identifica Geraldo Nobre, a vocação para a indústria.

Por isso o artesanato, extensão da pecuária, é tão importante para o historiador na evolução da economia cearense: vai elaborar a iniciativa empresarial. “A evolução da atividade econômica do cearense, do pastoreio com os produtos derivados à agricultura da cana e da farinha de mandioca, igualmente caracterizada por tarefas complementares (moagem, fabricação de rapadura), em seguida às lavouras de exportação (algodão e café), concomitantemente com a vida urbana e as necessidades por ela impostas (construções, carpintaria, olaria), representou uma herança de trabalho que a Monarquia transmitiu à República, valorizada por uma numerosa classe de artesãos”, defende Geraldo Nobre.

Os artesãos embalam ainda as primeiras associações, unindo-se em defesa de objetivos econômicos comuns. Ficaram célebres “grupos prestigiosos como os dos gráficos, alfaiates, pedreiros e outros e em associações, a exemplo do centro Artístico Cearense e da Sociedade Artística Beneficente, também na capital”.

O “espírito empresarial, que a construção de ferrovias desenvolvera inicialmente”, afirma Nobre, voltou a se manifestar a partir de 1891 – vejam-se as companhias já citadas anteriormente. Em par com “alguns estabelecimentos de menor expressão econômica e financeira”, foram alimentando a economia e as finanças locais, nos primeiros anos de governo republicano.

No Ceará, ao contrário de estados do Sul (onde o contínuo fluxo de imigrantes impulsiona as atividades econômicas após o fim da escravatura e a proclamação da República), subsistiram as atividades agroindustriais que eram praticadas desde o início do povoamento. Também os investimentos governamentais em favor das atividades industriais “mantiveram-se modestos, no primeiro decênio da República, limitados à construção do novo mercado público da capital (1897), e à do teatro (José de Alencar, de 1910)”, pontua Geraldo Nobre.

Além da “carga tributária extorsiva”, imposta pelo governo, acrescenta. Um retrato dessa época foi tirado pelo Centro Industrial do Brasil. Seu relatório de 1907 exemplifica – ainda que os números sejam questionados por Geraldo Nobre – o panorama da atividade fabril no Ceará: eram 18 estabelecimentos, 1.207 operários e 3.521 contos de réis como capital (sendo o valor da produção de 2.951 contos de réis).

As indústrias de tecido de algodão (quatro, fundadas entre 1883 e 1894) despontavam. E o ramo das “especialidades farmacêuticas”, uma indústria que se estendeu até a década de 1931- 1940, tinha uma “capacidade extraordinária” de suportar a concorrência – as Pílulas de Matos, as Gotas Amargas de Artur de Carvalho e o sabão líquido Aseptol são algumas das memórias diletas dessa história.


Já a década de 1950 começa a compor uma nova paisagem para o Nordeste. Uma sequência de medidas do governo federal influencia a industrialização da região: aproveitamento do Vale do São Francisco, transformação do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs) em autarquia, implantação da hidrelétrica de Paulo Afonso e a criação da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

“Esforçaram-se os cearenses por acompanhar o ritmo da industrialização do Nordeste, podendo-se considerar a instituição do Conselho Estadual de Economia, pela Lei nº 2.464, de 30 de outubro de 1954, o marco da atuação do governo do estado na promoção do desenvolvimento, embora as condições financeiras não houvessem permitido a estruturação completa do órgão”, ressalta Geraldo Nobre.

Já as ações da Sudene demarcam a segunda fase de implantação de indústrias, no Ceará, a partir de 1960. A instituição se torna um canal de recursos que vinham de outras regiões. A Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Banco do Nordeste (BNB), mais a construção do Porto do Mucuripe e incentivos fiscais (como o Fundo de Investimentos do Nordeste – Finor), somam-se no reforço da industrialização de Fortaleza e região metropolitana.


Entramos em território militar, a partir de 1964 e até 1985. A ditadura brasileira tem a pretensão de modernizar a economia para inserir o Brasil no contexto de competitividade mundial. Para o Ceará, o período vai significar, principalmente, a ênfase na industrialização da região metropolitana da capital.

É quando o então governador Virgílio Távora estabelece o Plano Diretor do Primeiro Distrito Industrial de Fortaleza – embrião do atual Distrito Industrial de Maracanaú (inaugurado em março de 1966, com a presença do marechal Castelo Branco, presidente da República à época). É nesse ínterim, até a reabertura política, que a economia cearense passa de agrícola a urbanizada, com as indústrias fortalecendo a participação na geração de renda interna.

Um caminho sem volta. Com a redemocratização brasileira, um grupo comandado pelo industrial Tasso Ribeiro Jereissati toma as rédeas do desenvolvimento local. Tasso, herdeiro das empresas da família Jereissati, primeiro contribuiu para a retomada do Centro Industrial do Ceará (CIC, fundado em julho de 1919) como fórum de debates sobre a economia e a política da região, em associação com o cenário brasileiro.

O empresário passou ainda pelo Conselho de Política Econômica e Social da Confederação Nacional da Indústria (CNI) antes de chegar ao governo do estado por três mandatos (nas eleições de 1986, 1994 e 1999). Com o Plano de Desenvolvimento Sustentável do Ceará (da segunda gestão, 1995-1998), por exemplo, criou polos industriais no interior e investiu na infraestrutura turística.

“Durante a década de 1990, o grupo de Tasso Jereissati reorganizou as contas públicas, criou um programa de atração de indústrias e investiu pesadamente na melhoria da infraestrutura de Fortaleza”, resume a economista Suely Salgueiro Chacon, no artigo Sustentabilidade: o grande desafio (Revista Fortaleza – do Ouro Branco ao Empório). “O crescimento acelerado experimentado pela capital e região metropolitana nas últimas décadas definiu-a como polo de atração de investimentos e de turistas. O comércio e os serviços são hoje a grande vocação de Fortaleza, embora as indústrias ainda estejam fortemente concentradas na região metropolitana”, conclui.

Desde então se fala em metrô, refinaria, siderúrgica, estaleiro... Mas, antes do desembarque no século 21, é preciso levar uma fotografia para que não se perca de vista a nossa travessia: “O grande desafio para nossa cidade é tornar seu desenvolvimento um processo sustentável, com melhor distribuição de renda, maior acesso aos serviços públicos, com respeito ao meio ambiente, mais segurança e oportunidade de emprego para todos os nossos cidadãos”, pondera Suely Chacon.


Fonte: FIEC - Revista da FIEC (edição comemorativa dos 60 anos da FIEC.
http://www.fiec.org.br/portalv2/sites/revista/files/files/revistaFIEC_60anos_lowres.pdf

segunda-feira, 29 de março de 2010

“O Livro e a leitura dos Sentimentos do Mundo”


IX Bienal do Livro do Ceará

Bienal será realizada de 9 a 18 de abril com o tema “O Livro e a leitura dos Sentimentos do Mundo”
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
A IX Bienal Internacional do Livro do Estado do Ceará será realizada de 9 a 18 de abril, no Centro de Convenções de Fortaleza. O evento traz como tema principal “O Livro e a Leitura dos Sentimentos do Mundo” e pretende revelar os caminhos que se unem no universo da leitura. A homenageada desta edição é a escritora cearense Rachel de Queiroz, que completaria 100 anos em 2010 e cujas obras irão nomear espaços montados no local de realização do evento. A Bienal do Ceará reunirá alguns dos principais nomes da literatura mundial e nacional, editoras, livrarias e profissionais que compõem as cadeias do livro e da leitura, em uma vasta programação nos turnos da manhã, tarde e noite.
Além de lançamentos de livros, palestras e encontros entre escritores e o público, a Bienal do Livro terá em sua programação encontros paralelos, debates e eventos, entre eles: o V Encontro do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas; o III Encontro Estadual de Agentes de Leitura; o Encontro dos Amigos da Leitura; o I Encontro dos Clubes de Leitura do Ceará; o I Encontro dos Pontos de Leitura; o II Congresso Nordestino de Poetas Cordelistas, Editores e Folheteiros; e o I Fórum Nordeste do Livro e da Leitura. Além disso, serão promovidas oficinas, declamações, recitais, saraus, palestras e encontros que movimentarão todo o Centro de Convenções durante os dez dias de Bienal Internacional do Livro do Ceará.
Outro destaque na programação será a realização do seminário Cultura, Democracia e Socialismo na América Latina e Caribe, que reunirá destacados intelectuais para discutir integração cultural, comunicação, integração regional e o futuro do Socialismo na América Latina e Caribe. Entre os nomes consagrados da literatura que participarão estão Cláudio Katz, Justo Pereda Rodríguez e Emir Sader.
Homenagem a Raquel de Queiroz
No ano em que completaria 100 anos, a escritora Rachel de Queiroz será a grande homenageada da IX Bienal Internacional do Livro do Estado do Ceará. O espaço “Não me Deixes”, elaborado para homenagear a ilustre cearense, terá a presença de editoras e empresas, além de receber durante todos os dias do evento diversos grupos e projetos onde os focos principais serão a vida e a obra da escritora. Entre as editoras e projetos já confirmados estão: Literatura de Lua (Livraria Lua Nova), Poesia Remix, Pausa Dramática, Bazar das Letras do SESC, projeto Ouvi Dizer do CCBNB, Poemas Violados, Templo da Poesia, Os Poetinhas de Caucaia, Zona Poética Liberada, Academia Cearense de Letras, Associação Cearense de Escritores, Academia Maria Ester de Literatura, Papo Literário (TVC) e muitos outros.
Autora de destaque na ficção social nordestina, Raquel de Queiroz foi primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1977. Foi também a primeira mulher contemplada com o Prêmio Camões, equivalente ao Nobel, na língua portuguesa, no ano de 1993. Autora de obras célebres, como “O Quinze” e “Memorial e Maria Moura”, Rachel de Queiroz também teve incursões na literatura infantil, em obras como “O Menino Mágico” e “Cafute & Perna-de-Pau”, e no teatro, assinando obras como “Lampião” e “A beata Maria do Egito”.
Outros espaços da Bienal terão nomes de obras da escritora, como por exemplo o Espaço Dôra, Doralina, que trará a exposição Livros de Artistas, e a Arena Cultural Memorial de Maria Moura, que reunirá diversas tendências, tribos e interesses em encontros leves nos quais se discutirá a literatura e suas relações com as artes do cinema, do desenho, da música e dos quadrinhos.
Aniversário de Fortaleza
No dia 13 de abril, data de comemoração do aniversário da cidade de Fortaleza, a Bienal terá uma programação especial. Está agendada a execução do Hino de Fortaleza e um cortejo do Maracatu Nação Fortaleza, além do lançamento da quinta edição do livro Fortaleza Belle Èpoque, do historiador Sebastião Ponte, e da realização de mesa especial de debates, reunindo alguns dos mais conceituados memorialistas do Ceará, como Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez), Christiano Câmara, Marciano Lopes, Zenilo Almada e Nilo Firmeza (Estrigas).
Ação Social
O projeto Visitação Escolar à IX Bienal Internacional do Livro, do Programa Por Um Pacto Social pelo Livro, da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult), levará alunos da rede pública e privada de ensino para o mundo do livro. A ação premiará também oito alunos e suas escolas no concurso de redação A Bienal nas Escolas. Este ano, o tema do concurso será “Ser culto é a única forma de ser livre”, verso do poeta libertário cubano José Martí.
Literatura Infantil
No domingo (18), último dia da Bienal, a programação de todos os espaços será voltada à literatura infantil e contará com a presença de grandes expoentes do imaginário das crianças, como Maurício de Souza e Pedro Bandeira. A jornalista e escritora que faz livros para o público adolescente, Thalita Rebouças, também estará presente na Bienal. Para encerrar, o músico e escritor Arnaldo Antunes apresentará o espetáculo Pequeno Cidadão.
IX Bienal Internacional do Livro do Estado do Ceará
Local: Centro de Convenções de Fortaleza
Data: 9 a 18 de abril de 2010
Informações da assessoria.