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domingo, 25 de abril de 2010

Projeto Sertão Vivo


JORNADA DAS ARTES

Jovens aprendem com o sertão

25/4/2010 Clique para Ampliar
JOVENS FAZEM trilha ecológica pela reserva de Caatinga preservada no Sítio Aroeiras, zona rural de Orós 
FOTOS: HONÓRIO BARBOSA

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JOVENS participantes do projeto Sertão Vivo, fazem uma pintura de painel na casa mãe, no Sítio Aroeiras, zona rural de Orós. Todos deixaram sua marca com tinta e arte
As atividades de saúde e artes fazem parte do Projeto Sertão Vivo, uma ONG criada pelo músico Zé Vicente

Orós As chuvas deixaram a Caatinga verde, a plantação renasce no solo que até então estava seco. É hora de o sertanejo renovar as esperanças no inverno, ainda que tardio. É tempo de reativar as manifestações culturais na localidade de Aroeiras, área rural deste Município.

E foi com esse espírito que crianças, adolescentes e monitores estiveram reunidos na 5ª Jornada de Artes na Roça, que neste ano teve como tema central "A arte do bem viver no sertão". As atividades fazem parte do Projeto Sertão Vivo, uma ONG criada pelo músico Zé Vicente. A programação incluiu oficinas sobre saúde e de artes, com várias manifestações.

No âmbito do Programa Cuidando da Saúde, houve vivências e atendimentos à comunidade local, com assessoria das terapeutas de Fortaleza, Ana Maria Oliveira e Lourdes Carvalho, do Espaço Holístico Santa Tereza.

Aconteceu a capacitação técnica com um grupo de jovens que cultiva hortas e inicia a atividade de apicultura. "Neste ano, enfrentamos dificuldades porque, até março, houve falta de chuvas e perda das plantações", observou Zé Vicente. "O calor quase insuportável trouxe dificuldades de animação do grupo, mas conseguimos manter o evento em seu 5º ano".

O objetivo do projeto é oferecer melhores condições de vida e convívio no semiárido, para a comunidade local. "Os moradores precisam cultivar a cultura do encantamento e do cuidado com a natureza, que é a nossa grande e sagrada matriz", defende Zé Vicente, que na letra de suas músicas assume uma postura ecológica e mística.

"A arte, em suas várias expressões, é a bandeira principal, que motiva, reúne e provoca". Antes do início das atividades, Zé Vicente e Eliane Brasileiro realizaram show na cidade de Dormentes (PE). Uma força da arte solidária, cujos recursos arrecadados foram investidos na Jornada. A dupla contou neste ano com o trabalho voluntário de Dida Tomé, artista plástica, criadora de belíssimos cartões ecológicos cujo trabalho é denominado de eco-ternura; e Carlita Souza, educadora e militante social, vindas do Espírito Santo.

Oficinas

A chegada dos artistas e organizadores do evento atrairam os adolescentes que ficam ansiosos em participar das oficinas de artes. Os vizinhos são solidários. O agricultor Zé Darlô levou presentes: jerimuns de sua vazante e uma galinha caipira. ´Seu´ Amadeu mandou feijão. José e Vegiane, da equipe "Cuidando da Saúde", fizeram uma campanha na comunidade de Guassussê, entre pequenos comerciantes e amigos. O casal arrecadou e trouxe uma sacola de cereais.

Uma voluntária de Orós ofereceu uma toalha de banho que as mulheres resolveram utilizar numa rifa, que correu no encerramento da Jornada, gerando R$ 63,00.

Durante o dia, foram realizadas oficinas de canto e de confecção de cartões, com vários momentos de dinâmicas e interação conjunta. Cerca de 30 jovens participaram inquietos e atentos. "Transformamos o tema, num refrão repetido em todas as vozes, a arte do bem viver, pro sertão vivo crescer", explicou Zé Vicente.

De Fortaleza, outros artistas como, Conceição Almeida, Ivo Sousa, Gisele e Francisca Pérsico, participaram do encontro. A casa do Sítio Aroeira acolhe a todos. O almoço é uma festa comunitária, da partilha. Parentes e vizinhos celebram a vida.

Neste ano, a novidade foi a presença do bispo da Diocese de Iguatu, dom João Costa, e do padre Lázaro Augusto, da Paróquia de Senhora Sant´Ana. Os sacerdotes ofereceram cesta de alimentos e uma partilha financeira para a jornada.

Intercâmbio

A programação incluiu também oficinas de confecção e manipulação de bonecos e canto coral. Um grupo de visitantes do Espírito Santo veio conhecer o projeto. Zé Vicente e Ivo Souza gravaram uma entrevista com o primeiro bispo da Diocese de Iguatu, dom José Mauro Ramalho, com seus quase 85 anos de idade, e apaixonado por música. "O documento sairá em breve, na série memórias do Sertão Vivo", adiantou Zé Vicente.

A jornada inclui a celebração das memórias do bispo dom Oscar Romero, no seu aniversário de martírio. Houve também homenagem a Zé Martins, cantor e animador das comunidades rurais, falecido em outubro de 2009.

O "Bando do Padim Vô", grupo de sete jovens, vindos de Camaçari (BA), participou neste ano da Jornada. Eles percorreram quase mil quilômetros, para um encontro marcante, pois o coordenador do grupo, Enoque Norberto, havia monitorado a primeira oficina de flauta-doce na primeira Jornada realizada em 2006.

A programação também incluiu trilha ecológica pela reserva de Caatinga natural, que o Projeto Sertão Vivo está preservando no Sítio Aroeiras.

Mais uma vez, a Jornada de Arte no Sertão despertou o riso em cada rosto, provocado pelo grito dos bonequeiros e bonequeiras mirins. O coro de palmas para marcar o jogo dos capoeiristas. A atenção participada nas músicas do "Bando do Padim Vô" e o encontro no palco livre, com Zé Vicente e o grupo de Canto local. O encerramento, já é tradição com a ciranda, que marca a festa das artes da Jornada na Roça, com um novo refrão, tema deste ano: "A arte do bem viver, pro Sertão Vivo crescer!".

"Temos a certeza de que o sentido especial desses eventos do projeto precisa ser mesmo um encontro informal, a leveza, o repouso e o convívio entre artistas, famílias do sertão, parceiros e a troca e partilha de nossas criações e descobertas", disse Zé Vicente. Os organizadores anunciaram a produção de um DVD mostrando a experiência de várias jornadas no sertão de Orós.

Esta é apenas uma prática que enfatiza o quanto o sertão e a convivência com o semiárido podem ajudar a pensar em novas práticas de relacionamentos entre sociedades.

Honório Barbosa
Repórter

CRIATIVIDADE
Oficinas e teatro marcam encontro

Jovens do Ceará e Bahia participaram de atividades de pintura e encerraram o encontro com musical

Orós As oficinas de teatro de bonecos, feitura de cartões ecológicos, desenhos e pinturas, na parede da Casa de Artes, monitorados pelo Ivo Souza, motivam os jovens que abrem o espírito num processo de criação espontânea e coletiva.

Até o motorista, identificado apenas por Severino, que veio com o grupo baiano, surpreendeu e se destacou, deixando uma pintura em um painel para o Projeto Sertão Vivo.

A vivência musical foi assumida pelo grupo de canto Sertão Vivo, com a troca de experiência com o ´Bando do Podem Vão´. A mistura de sons da Bahia e do Ceará foi animada. A programação oferece também oficinas de produtos de limpeza, pintura em tecido e de criação de artesanato, com diversos materiais, como cipós, fitas e penas.

As atividades artísticas atraíram a visita de professoras da Escola Isaías Cândido, do distrito Guassussê, que se dividiram, acompanhando as várias oficinas. Houve retribuição. Na escola, onde cerca de 180 alunos estavam presentes, os monitores de arte fizeram desenhos e rápidas oficinas de teatro de bonecos e música.

Para encerrar as atividades, houve uma pequena exposição preparada, no alpendre da casa, com fotos das atividades do Projeto Sertão Vivo, e cartões ecológicos, criados desde 1996, na época com a presença da artista Elda Broilo. Mostra de camisetas e tecidos pintados, velas e remédios caseiros. Uma banca com produtos de limpeza foi instalada sob uma árvore.

Na varanda da casa de Ézio Barros e Denir, o cenário para os bonecos. No centro do terreiro, a roda de capoeira do grupo Água de Beber, de Guassussê. Na esquina das pinturas, o palco para a música. Foi o cenário para o encerramento da festa com um cortejo, com mais de 100 participantes, que seguiram o estandarte de São José, o padroeiro da comunidade.

MAIS INFORMAÇÕES 

Projeto Sertão Vivo
Município de Orós
Zé Vicente

regional@diariodonordeste.com.br
Fonte: Jornal Diário do Nordeste - Caderno Regional - http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=773681

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

AÇÕES CULTURAIS - Projeto dá oportunidade a jovens do semiárido

Os jovens desenvolvem diversas atividades em várias áreas, uma delas é a comunicação. Atualmente, eles estão finalizando um documentário sobre o beato José Lourenço (Foto: Antônio Vicelmo)

A padaria comunitária virou uma fonte de renda para os moradores de Ponta da Serra, no Crato (Foto: Antônio Vicelmo)

ONG Verde Vida desenvolve projeto social com jovens da zona rural do Crato e ganha apoio de entidade do exterior

Crato. O Nordeste seco, estorricado pelo sol causticante, é também o berço de ideias que florescem no meio do pedregulho. Assim é a catingueira, uma árvore que, apesar da adversidade, mantem-se viva no meio da Caatinga. O exemplo de resistência vem justamente do Sítio Catingueira, uma das áreas mais secas do Crato. Como a planta que se ergue altaneira, na terra árida, um grupo de jovens simples, pobres, filhos de agricultores, se destaca pela criatividade.

O Programa Ações Culturais para Povos Rurais, da ONG Verde Vida, com sede no Sítio Catingueira, foi indicado como semifinalista entre os 1.917 inscritos na oitava edição do Prêmio Itaú-Unicef 2009. A solenidade de premiação regional ocorreu no "Museu do Homem do Nordeste" em Recife, com a presença dos promotores do evento, avaliadores, integrantes das Comissões Técnicas Regionais e autoridades. O programa não conseguiu passar para a final, no entanto, para o presidente do "Verde Vida", Genivan Brasil, esta classificação abrirá portas para melhor interagir com outras instituições do gênero no País.

O projeto atende 150 crianças e adolescentes com faixa etária entre 5 e 17 anos, além do acompanhamento de 15 famílias e jovens que recebem apoio educacional. Na sede rural foram construídos uma quadra de esporte, parque infantil, refeitório e salas de aula. Tudo funciona em uma área de dois hectares, em meio a canteiros de frutas e verduras, uma pequena horta e criação de peixes ornamentais em tanques.

No Distrito de Ponta da Serra, funciona um núcleo equipado com computadores, ilha de edição, para a produção dos vídeos e suporte técnico das ações na área de comunicação. Quando a reportagem do Diário do Nordeste chegou ao local, os jovens estavam concluindo um vídeo sobre o Caldeirão do beato José Lourenço. O documentário faz parte do trabalho que é realizado na região com a finalidade de resgatar a cultura popular.

O coordenador do projeto, Marcos Antônio Xenofonte, lembra que "em 2004 estiveram na Alemanha quatro adolescentes que levaram um pouco da nossa cultura". Em 2007, foram convidadas 11 crianças e adolescentes do projeto para mais uma vez mostrarem os valores culturais, grandeza e a simplicidade de uma comunidade antes esquecida do sertão nordestino.

O "Verde Vida" recebe visitas de entidades sociais, poderes públicos e universidades, para pesquisas, estudos e intercâmbios, o que faz da ONG uma referência na ação com jovens no Cariri. Este projeto concorreu e foi selecionado em vários editais como Criança Esperança e Petrobras Cultural. Recebeu premiações como o Ponto de Mídia Livre pelo seu trabalho com comunicação e cultura.

História

Depois de trabalhar 10 anos com crianças de rua no Recife, o artista plástico Marcos Xenofonte voltou às origens, no Sítio Catingueira, a 30km do Crato, onde constatou que as crianças do local abandonavam a escola para trabalharem com os pais na roça, e as que permaneciam tinham baixo rendimento escolar. Não havia opções de lazer ou alternativas para o desenvolvimento das crianças na comunidade. Esta realidade o levou a ministrar oficinas de pinturas e artesanato para elas.

A experiência contou com 20 crianças, embora na comunidade existissem outras em condições de vulnerabilidade. Frequentar e obter boas notas na escola eram condições para participar do projeto. O convencimento das famílias não foi fácil. No começo houve resistências, que foram vencidas pelas próprias crianças que mostraram melhor desempenho na escola e elevação da autoestima. O projeto recebeu a visita da organização alemã Aktionskreis Pater Beda que passou a financiar as atividades já existentes e foram implantadas novas, como reforço escolar, capoeira, teatro, dança, coral, catequese, esporte, música e alimentação diária.

Parceiros institucionais foram surgindo como o Mesa Brasil do Serviço Social do Comércio (Sesc), unidade Crato, que doa alimentos com frequência, e a Prefeitura do Crato, por meio da Secretaria do Trabalho e da Ação Social, que repassa recursos por meio de convênio.

Hoje, o projeto se espalha por todo o município cratense, resgatando valores e mostrando para o mundo que em meio às inclemências do Nordeste seco e sem assistência, nascem também ideias criativas.

PADARIA COMUNITÁRIA
Intercâmbio oferece fonte de renda

Crato. Quem passa na estrada que liga Crato a Farias Brito, observa uma construção estilo europeu, que chama a atenção dos transeuntes. Ali funciona uma Padaria Comunitária, administrada por oito jovens, sob a orientação de um padeiro alemão. No momento, o instrutor é Chistian Cornilsen, um aposentado alemão, com 70 anos, que orienta a fabricação de pães, bolachas, biscoitos e bolos. O intercâmbio profissional tem objetivo, além de formar padeiros e padeiras para o mercado de trabalho, oferecer uma ocupação para alemães aposentados.

A iniciativa que segue os precipícios da economia solidária funciona como vitrine do projeto. A comunidade de Ponta da Serra está se habituando a comer produtos de farinha de trigo com receitas alemães. Estimulada com o sucesso da padaria, a coordenação do projeto já está pensando em agregar uma lanchonete que deve ser inaugurada até o fim do ano.

É um conceito diferente das tradicionais padarias da região, a começar pela automação. Seguindo o objetivo do projeto, em defesa da natureza, a padaria não utiliza lenha. Os fornos são alimentados com gás e energia elétrica. A cliente acompanha a fabricação dos alimentos por janelas de vidros. Os espaços são divididos com PVC.

A gerente da padaria, Marineide Alves, conhecida por "Duda", que já esteve na Alemanha e foi treinada em Salvador, Bahia, diz que a movimentação financeira está correspondendo à expectativa. Mas não é este o principal objetivo do projeto.

A prioridade, segundo afirma, é a formação de profissionais. "Muito mais importante do que o lucro é o capital humano. Os oito adolescentes que estão trabalhando na padaria vão sair daqui capacitados para trabalhar em qualquer panificadora", garante ela.

FIQUE POR DENTRO
Esporte e formação cultural são objetivos

O Projeto Verde Vida, dentro de sua programação pontual, há cinco anos oferece aulas de capoeira para os alunos da sede campestre no Sítio Catingueira. A partir de 2009, essa ação foi ampliada para a sede do distrito de Ponta da Serra. A ideia é oportunizar aos participantes, além da prática dos exercícios físicos propostos, informação dos fundamentos da manifestação esportiva e cultural, a história da influência da cultura ´afro´ na constituição da identidade. As aulas, que ocorrem semanalmente no Polo Edvardo Ribeiro e são ministradas pela professora Gabriela Rodrigues, já contam com dezenas de participantes da sede do distrito e de comunidades vizinhas. Jovens que passaram pelo projeto, hoje são profissionais pós-graduados e artesãos profissionais, universitários, absorvidos pelo mercado de trabalho e contribuindo para o desenvolvimento desta região.

Mais informações
Projeto Verde Vida - Ponta da Serra Crato: (88) 3521.6729
(85) 3523.9262
verdevidas@yahoo.com.br

ANTÔNIO VICELMO
REPÓRTER

Fonte: Jornal Diário do Nordeste. Caderno Regional. Fortaleza, 26 de outubro de 2009.
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=683700