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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Os paladinos da economia verde

Foto: Leticia Freire


12/08/2009 - 15:38:37

Estudiosos e formadores de opinião descobrem o efeito estufa e a destruição dos recursos naturais como a fronteira para salvar o capitalismo dos excessos do mercado. E propõem uma intervenção estatal e uma mudança radical nos estilos de vida. Mas há também quem invoque a justiça ambiental para anular as desigualdades sociais. Uma forma de leitura sobre a “nova ecologia” diante da crise econômica.

A reportagem é de Mauro Trotta, publicada no jornal Il Manifesto, 08/08. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Aquecimento climático, poluição marinha e do ar, deposição de resíduos. Os problemas ligados à ecologia não só se tornaram lugares comuns, mas também influenciam sempre mais na vida de todos. Assim, entre ritmos sazonais que parecem nos enlouquecer, mudanças do território, limitações do tráfego nas cidades, praias não mais frequentáveis, lixo acumulado nas esquinas das ruas, com incômodos ainda mais graves para quem vive próximo de aterros sanitários ou incineradores, os hábitos cotidianos se modificam, para não falar dos danos à saúde que tudo isso comporta e da sensação de fim de mundo sempre mais difundida.

Em tempos de crise econômica, quando o capitalismo neoliberal parece estar com a corda no pescoço, de repente todos se descobrem atentos aos problemas ambientais, e em muitas partes se defende que uma crise global como a atual pode, na realidade, representar uma oportunidade: trata-se só de conjugar a economia com a ecologia. Desse modo, se poderá sair da crise e salvar o atual estilo de vida, tornando-o só um pouco mais ecológico. Caminho aberto então para expressões como “desenvolvimento sustentável”, “revolução verde”, “nova ecologia política”.

Os ditadores do petróleo

Há também quem, justamente partindo da análise da situação ambiental e econômica, se incline para mudanças profundas que modifiquem desde a raiz o atual sistema sócio-econômico. Enfim, parece quase que, no âmbito da análise da situação do ponto de vista econômico e ecológico, duas tendências analíticas e políticas vão tomando impulso e que relembram a clássica distinção entre reformistas e revolucionários, em que os primeiros tendem a manter com algumas correções a estrutura capitalista atualmente em auge, enquanto que os segundos propõem uma saída do neoliberalismo em nome de um outro tipo de sociedade.

Um livro como “Quente, plano e cheio” (Editora Actual, 2008), de Thomas L. Friedman, pertence sem dúvida ao campo reformista. Editorialista do New York Times, vencedor três vezes do Prêmio Pulitzer, Friedman oferece uma descrição clara, de recorte jornalístico, da situação e receitas suas para sair dela.

Parte-se de uma constatação: vivemos em um mundo em que o superaquecimento climático é uma realidade, em que em todo o lugar se afirmou o mesmo estilo de vida em detrimento das diversidades culturais e ambientais, em que o crescimento demográfico parece incontrolável. Continua-se focando sobre os cinco problemas chaves com os quais se deve lutar, ou seja, a demanda crescente de oferta de energia e recursos naturais sempre mais escassos, a transferência de riquezas aos países produtores de petróleo e aos seus “petroditadores”, a penúria energética que opõe quem tem energia em abundância e quem tem pouco, as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade.

Trata-se, então, de enfrentar essas problemáticas adotando o que Friedman chama de “código verde”, ou seja, de um lado utilizar essas tecnologias de modo maciço, desenvolvendo-as posteriormente, como a eólica e a solar, que garantam energia limpa, e, de outro, pressionar uma intervenção governamental decisiva que, empregando tanto o incentivo (leva) fiscal, com deduções e incentivos, tanto legislativo, elevando os limites em matéria de emissões de poluição, funcione como estímulo poderoso para aquela que deveria aparecer como uma “revolução verde”.

A moral da frugalidade

Certamente, trata-se de enfrentar a decisiva oposição de grupos poderosos, como o lobby do petróleo, e de adotar procedimentos fortemente impopulares, pelo menos em curto prazo, mas intervenções do gênero não podem ser adiadas. O problema é que não se entende plenamente como uma mudança dessas é possível sem modificações radicais de todo o sistema sócio-econômico.

Parece, enfim, que as instâncias propostas pelo autor se baseiam mais na necessidade moral do que na análise realista das relações concretas no interior do sistema sócio-econômico. Assim, o fato de que tudo deve ocorrer dentro de uma ótica de conservação do capitalismo fica claríssima também pela famosa frase citada por Friedman do Gattopardo [romance histórico do escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa]: “Se queremos que tudo permaneça como é, é preciso que tudo mude”.

A moral também está no centro do texto de Jean-Paul Fitoussi e Éloi Laurent, intitulado “La nuova ecologia politica. Economia e sviluppo umano” (Editora Feltrinelli, 124 p.). Desde o começo, os autores afirmam que “a questão ética se encontra no centro dos problemas econômicos”. Inclinam-se, porém, contra o paradigma econômico da regulação interna - segundo o qual o mercado, por meio da livre interação de livres atores, retorna sempre para um estado de equilíbrio ideal - em favor do paradigma da regulação externa: “O correto funcionamento da economia de mercado não é concebível sem a intervenção de um agente externo - o poder público -, enquanto a ordem econômica e social surge de um complexo equilíbrio entre decisões individuais e decisões coletivas”.

Além disso, partindo de uma análise de algumas das principais teorias econômicas - de Smith e Ricardo a Mill, Keynes, Georgescu-Roegen, Sen - Fitoussi e Laurent delineiam as características fundamentais de uma “economia verdadeiramente dinâmica”, um sistema aberto e não fechado, isto é, em que a escassez produzida pela inexorável lei da entropia possa ser combatida pelo atraso, ou seja, diferindo no tempo consumos e prazeres materiais, aproveitando-se do progresso técnico e dos conhecimentos acumulados nesse período de tempo.

A escolha de Latouche

Naturalmente, será preciso investir na educação e na pesquisa para desfrutar o tempo ganho e comprometer-se a fundo na defesa do meio ambiente. A noção de atraso deverá ser assim considerada como “um bem público produzido pelos governos e realizado por sistemas de incentivo adequados às escolhas de longo prazo”, e, nesse sentido, essa noção “pode existir apenas no longo tempo da democracia”. Uma democracia que, com a ajuda de John Rawls e Amartya Sen, quase coincide com a justiça social e é definida como “o regime que mira à repartição, do modo mais justo, os bens primários e à correção, dentro do possível, de desigualdades de capacidade”.

Um olhar sobre as várias posições que analisam a crise econômica e ecológica seria incompleto sem a teoria do decrescimento, proposta por Serge Latouche, que teve, por causa de seus traços de novidades, ampla ressonância e de cujo manifesto se ocupou mais vezes. Recentemente, foi publicado um livro interessante de Latouche intitulado “Mondializzazione e decrescita. L’alternativa africana” (Editora Dedalo, 2009, 124 p.) que reúne vários escritos dos últimos anos centrados no continente africano. O interesse do texto reside sobretudo no fato de desnudar, de forma clara e compreensível, as raízes, os fundamentos justamente de origem africana aos quais o autor se inspirou para construir a sua teoria do decrescimento sereno.

Surgem assim das páginas do livro a oposição entre a “racionalidade” ocidental e a “razoabilidade” africana, ou os contrastes e as diferenças que dividem a África das elites, a oficial, presa de modelos e produtos impostos pelo mercado global, e a outra África, a abandonada, dos pobres, mas capaz de resistir e de sobreviver graças à economia neoclânica, à lógica do dom, à solidariedade. E surgem, principalmente, os protagonistas concretos dessa economia vernacular, as mulheres, os artesãos, os agricultores que construíram esse estilo de vida resistente e alternativo ao neocapitalismo que, segundo os defensores do decrescimento, pode representar o único caminho para salvar o mundo. Se Latouche, pela sua tensão a uma mudança radical do sistema sócio-econômico, deve ser contado entre os “revolucionários”, um texto como “O ecologismo dos pobres” (Editora Contexto), de Joan Martìnez Alier, pertence ao mesmo campo e com veios mais marcados.

Livro materialista, segundo a própria definição do autor, “O ecologismo dos pobres” é um texto centrado no conflito: entre ecologia e economia, mas principalmente conflito entre grupos sociais, entre linguagens diversas. Assim, Alier define a noção de economia ecológica como o estudo do “choque inelutável entre expansão econômica e conservação do ambiente” e das suas formas. Do mesmo modo, a ecologia política não seria outra coisa que o campo interdisciplinar de estudos centrado na análise dos “conflitos ecológicos distributivos”.

A ética do conflito

O livro não é em nada um árido manual de teoria. Pelo contrário, parte-se da distinção entre as principais correntes ambientalistas: a da “wilderness”, voltada substancialmente a “preservar e manter o que resta dos espaços naturais íntegros que permaneceram fora do mercado”; a da ecoeficiência, que crê no “desenvolvimento sustentável”, na “modernização ecológica”, no “bom uso” dos recursos; e por fim uma terceira corrente, chamada “justiça ambiental”, ou “ecologismo popular” ou ainda “ecologismo dos pobres”. Esta última mostra não uma “reverência sacra pela natureza, mas sim um interesse material pelo ambiente como fonte e condição de sustento; não tanto uma preocupação pelos direitos das outras espécies e das generações humanas futuras, mas sim pelos humanos pobres de hoje… A sua ética nasce de uma demanda de justiça social entre seres humanos, hoje”.

Essa corrente está no centro da análise do livro que, com escrita ágil e clara, adentra no relato de vários conflitos em várias partes do mundo, compreendendo suas implicações teóricas, as estratégias utilizadas, principalmente linguísticas mas não só, as formas de luta. Enfim, parte-se da análise das lutas para poder compreender a teoria geral. Assim, por meio de histórias ligadas à proteção dos mangues contra a indústria dos caranguejos, à resistência contra as barragens, aos movimentos contra a exploração de gás e de petróleo em áreas tropicais, aos conflitos pela saúde e pela segurança no trabalho, às lutas ambientais urbanas sobre o uso do solo, sobre o acesso à água ou contra certas formas de deposição dos resíduos, e tantos outros relatos de resistência e luta, Alier atinge plenamente o objetivo que se prefigurava com o seu livro, ou seja, o de observar de perto “o crescimento de um movimento global pela justiça ambiental que pode conduzir a economia rumo à adequação ecológica e à justiça social”.

Dos movimentos sociais ao nascimento de uma esquerda global

A “green economy” é a expressão que evoca uma desejável mudança nas relações entre a produção e a proteção do ambiente. Fala-se de “economia verde” há mais de uma década, mas foram Al Gore e Barack Obama que a levaram para a frente dos refletores do grande público. O primeiro, por meio de sua atividade de produtor independente, a impôs como um tema central da agenda mundial. Um trabalho de denúncia premiado em 2007 com o Nobel da paz. O presidente dos EUA, por sua vez, indicou na “green economy” a porta de saída da crise econômica. Mas além da versão “mainstream”, a ecologia é também o eixo em torno ao qual gira a proposta de refundar a “esquerda política”, à luz dos movimentos sociais em defesa do meio ambiente, de crítica a multinacionais agroalimentares e aos faraônicos projetos de “modernização”. É esse o fio condutor do livro “The rise of the global left”, escrito pelo estudioso português Boaventura de Sousa Santos e publicado pela editora Zed Books (http://www.zedbooks.co.uk/).


(IHU on-line)
Fonte: Mercado Ético

terça-feira, 7 de julho de 2009

Reflexões sobrea a Crise Financeira Global

Prof. Ladislau Dowbor e Profa. Suely Chacon durante o III ENAPEGS
Juazeiro-BA, PEtrolina-PE, maio de 2009



Nota sobre o Relatório da Conferência da ONU sobre a Crise (*)

O professor Ladislau Dowbor analisa o relatório final da conferência promovida pela ONU para debater a crise econômica mundial: "visão sistêmica, articulação das dimensões econômica, social e ambiental, prioridade à geração de empregos, visão de longo prazo, menos dependência do mercado, reforço do Estado. São grandes eixos, e seria difícil pedir demais de uma instituição multilateral onde cada documento deve recolher uma amplíssima gama de apoios. Mas a visão ajuda a deslocar as dimensões estreitas dos que vêm na crise apenas um problema de regulação financeira".

Ladislau Dowbor

La Crisis representa “una importante oportunidad de efectuar cambios significativos(...). En adelante, nuestra respuesta debe centrarse en la creación de empleo, el aumento de la prosperidad, el mejoramiento del acceso a la salud y a la educación, la corrección de los desequilibrios, la formulación y utilización de vías de desarrollo sostenibles desde los puntos de vista ecológico y social y la adopción de una clara perspectiva de género. Nuestra respuesta también debe reforzar las bases de una globalización justa, inclusiva y sostenible, apoyada en un multilateralismo renovado.”(10)

A nota acima, extraída do Relatório, dá uma idéia da ampla visão de resposta à crise, muito além da dimensão financeira. A amplitude da visão fragiliza, por outro lado, a praticidade das medidas. De toda forma, pelo peso da instituição, é importante ter uma idéia geral do documento, mesmo que seja provisório e comedido. Como o documento, com 16 p., é bastante curto, e disponível no link abaixo, apontamos aqui apenas alguns pontos que nos pareceram mais relevantes.

O relatório afirma a gravidade da crise: “El mundo se enfrenta a la peor crisis financiera y económica que se há registrado desde la Gran Depresión.” Busca também resgatar o papel das Nações Unidas no processos: “Las Naciones Unidas, dadas su composición y legitimidad universales, están bien posicionadas para participar en los diversos procesos de reforma encaminados a mejorar y fortalecer el eficaz funcionamiento de la arquitectura y el sistema financieros internacionales.”(2)

Ponto importante, articula a crise financeira com o conjunto de ameaças que temos no horizonte:

“Esta crisis está vinculada a múltiples crisis y problemas globales interrelacionados, como el aumento de la inseguridad alimentaria, la volatilidad de los precios de la energía y los productos básicos y el cambio climático, así como la falta de resultados que ha habido, hasta ahora, en las negociaciones comerciales multilaterales y la pérdida de confianza en el sistema económico internacional.” (7)

Ou seja, aponta para a dimensão sistêmica da crise, com impacto tanto econômico (queda de 2,6% do PIB mundial projetada para 2009) como social (fome e subnutrição deverão atingir mais de um bilhão de pessoas).

Os impactos da crise estão bem resumidos:(8)

“En todo el planeta la crisis ha tenido efectos graves y de amplio alcance, pero diferenciados, o los ha agudizado. Desde que comenzó, numerosos Estados han informado de sus efectos negativos, que varían según el país, la región y el nivel de de desarrollo y de gravedad, y que abarcan, entre otros, los siguientes:

• Incremento rápido del desempleo, la pobreza y el hambre
• Desaceleración del crecimiento, contracción económica
• Efectos negativos en las balanzas comerciales y la balanza de pagos
• Disminución de los niveles de inversión extranjera directa
• Fluctuaciones amplias e inestables de los tipos de cambio
• Aumento de los déficits presupuestarios, caída de las recaudaciones fiscales y reducción del margen fiscal
• Contracción del comercio mundial
• Mayor volatilidad y caída de los precios de los productos básicos
• Disminución de las remesas a los países en desarrollo
• Reducción brusca de los ingresos del turismo
• Inversión generalizada de las corrientes de capital privado
• Menor acceso a los créditos y a la financiación del comercio
• Menor confianza del público en las instituciones financieras
• Reducción de la capacidad de mantener redes de seguridad social y prestar otros servicios sociales, como los de salud y educación
• Incremento de la mortalidad infantil y materna
• Derrumbe de los mercados inmobiliarios.

A lista de medidas a serem tomadas, qualificadas de “decisivas e imediatas”, é extremamente geral: (11)

“Nos comprometemos a colaborar de manera solidaria para dar una respuesta mundial coordinada y amplia a la crisis y a adoptar medidas encaminadas, entre otras cosas, a:

• Restablecer la confianza, reactivar el crecimiento económico y crear empleo pleno y productivo y trabajo decente para todos
• Salvaguardar los beneficios económicos, sociales y de desarrollo
• Prestar apoyo suficiente a los países en desarrollo para que puedan afrontar los efectos humanos y sociales de la crisis a fin de preservar y consolidar los beneficios económicos y de desarrollo que tanto les ha costado conseguir, incluidos los progresos alcanzados en el logro de los Objetivos de Desarrollo del Milenio
• Asegurar la sostenibilidad de la deuda de los países en desarrollo a largo plazo
• Tratar de proporcionar a los países en desarrollo suficientes recursos para el desarrollo sin imponer condiciones injustificadas
• Reconstruir la confianza en el sector financiero y restablecer el crédito
• Promover y revitalizar un comercio y una inversión abiertos y rechazar el
proteccionismo
• Fomentar una recuperación inclusiva, ecológica y sostenible y seguir
prestando apoyo a los esfuerzos que despliegan los países en desarrollo para lograr el desarrollo sostenible
• Reforzar la función del sistema de las Naciones Unidas para el desarrollo en la respuesta a la crisis económica y sus efectos en el desarrollo
• Reformar y reforzar el sistema y la estructura financieros y económicos
internacionales, según corresponda, para adaptarlos a los desafíos actuales
• Promover la buena gobernanza a todos los niveles, incluso en las instituciones financieras y los mercados financieros internacionales
• Afrontar los efectos humanos y sociales de la crisis.

Em termos da regulação, o documento aponta para a gravidade do “excesso de confiança nos mecanismos de autoregulação do mercado”, e para a necessidade de se resgatar o papel do Estado, afirmando “la necesidad de una intervención más efectiva por parte del Gobierno para lograr un equilibrio apropiado entre el interés del mercado y el interés público.”(9).

“Estamos todos juntos nesta crise”, afirma o relatório, o que tem uma certa dimensão irônica, pois na fase dos ganhos financeiros evidentemente não estávamos. Mas de toda maneira, é real a visão global do processo: “La crisis actual ha revelado cuán integradas están nuestras economías, cuán indivisible es nuestro bienestar colectivo y lo insostenible que resulta centrarse de forma prioritaria en los beneficios a corto plazo.”(42)

Portanto, visão sistêmica, articulação das dimensões econômica, social e ambiental, prioridade à geração de empregos (“job-intensive recovery from the crisis”), visão de longo prazo, menos dependência do mercado, reforço do Estado. São grandes eixos, e seria difícil pedir demais de uma instituição multilateral onde cada documento deve recolher uma amplíssima gama de apoios. Mas a visão ajuda a deslocar as dimensões estreitas dos que vêm na crise apenas um problema de regulação financeira.

(*) Conferencia sobre la crisis financiera y económica mundial y sus efectos en el desarrollo Distr. General 22 de junio de 2009 – Os números entre parêntesis no nosso texto representam o parágrafo do Relatório. O Relatório, provisório, está disponível em espanhol em:

http://www.un.org/ga/search/view_doc.asp?symbol=A/CONF.214/3&referer=http://www.un.org/ga/econcrisissummit/&Lang=S


Ladislau Dowbor – http://dowbor.org

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Crise e mudanças: a vez da solidariedade e da sustentabilidade

28/04/2009 - 16:01:37

Democratizando as finanças

Hazel Henderson

A crise financeira gerada por Wall Street e pelos bancos globais “muito grandes para quebrar” está gerando iniciativas locais e demandas para descentralizar e democratizar o mundo financeiro.
Ao mesmo tempo, em nível global, os países que formam o G-20 exigem a democratização das estruturas no FMI e no Banco Mundial, como condição essencial para refletir as mudanças no equilíbrio das forças econômicas. Os países do G-7 e G-8 não são tão importantes agora, quando o grupo G-20, que tomou o centro das atenções.
Enquanto redes de segurança nacionais são espalhadas, através de cortes em orçamentos, a liderança local cresce, oferecendo alternativas criativas para as comunidades que desejam estabelecer economias domésticas bem mais saudáveis:
Clubes locais de permuta, como o Freecycle.com, Craigslist e LETS e “scrip currencies” (moedas alternativas) proliferam - como ocorre sempre que os bancos centrais e o Fundo Monetário Internacional falham ou aplicam as alternativas erradas que só fazem com que as coisas piorem. Algumas das mais bem sucedidas moedas complementares locais são o WIR na Suíça e o Berkshare nos Estados Unidos, com o equivalente à $2 milhões em circulação e aceita por bancos e negócios em Massachusetts. Moedas complementares similares estão equilibrando necessidades e recursos e estão desobstruindo os mercados locais na Grã Bretanha, Canadá, Austrália, Argentina, Brasil e outros países.
Empréstimos interpessoais e projetos microfinanceiros estão florescendo em muitos países. Entre muitos podemos citar o Women’s World Banking, Grameen Bank em Bangladesh, hoje duplicado em muitos países, o FINCA e o ACCION na América Latina, assim como as novíssimas versões online, incluindo o Microplace, o Kiva, como também os que emprestam no Prosper.com, nos EUA e o Zopa.com na Grã Bretanha. As cooperativas de crédito, presentes na Europa e nos Estados Unidos há um século, agora estão mais pró-ativas. Essas entidades estão satisfazendo as necessidades locais, atendendo as pessoas mais pobres e melhorando o escopo micro-financeiro e emprestando para os pequenos negócios.
As associações que reúnem pequenos bancos e negócios locais estão trabalhando uma esfera mais política, se comparadas com as cooperativas de crédito. Nos EUA, elas estão exigindo tratamento igual no TARP e TALF do governo e junto a outros fundos de ajuda que atualmente trabalham junto aos grandes bancos, cujas temerárias políticas de empréstimo acabaram por desencadear a desordem financeira atual. O Venture capital (Capital Empreendedor) e empresas de filantropia empreendedoras, incluindo a Rudolf Steiner Foundation, Acumen e as entidades dos fundadores do Ebay Pierre Omidyar e Jeffrey Skoll estão investindo em empreendimentos sociais que satisfaçam necessidades sociais e, ao mesmo tempo, visem lucros modestos. Tal capital social está criando um novo setor híbrido em diversas economias.
A Business Alliance for Local Living Economics (BALLE) é uma grande rede nos Estados Unidos da América, como também o New Voice of Business, Green America, a Social Enterprise Alliance, o Fourth Sector Network e o Business-NGO Working Group. O Entrex.net se concentra em ajudar pequenos negócios com seu Índice de Empresa Privada (Private Company Index - PCI) que hoje supera a maioria dos índices do mercado. A britânica New Economics Foundation (NEF) tem gerado iniciativas locais, como o movimento Transition Towns, assim como seu Green New Deal e indicadores alternativos para corrigir o PIB (GDP), avaliando o bem-estar e a sustentabilidade ecológica. A proposta da NEF é de salvar 11.500 postos do correio na Grã Bretanha, com a adição de funções bancárias em todos eles, com o apoio das cooperativas comerciais, pequenos negócios, grupos de interesse público e aposentados e pensionistas.
“Time banking”, uma idéia de Edgar Cahn, nos EUA (visite o site www.ethicalmarkets.tv) hoje ajuda a população local a se conectar e compartilhar serviços com o Japão, Europa e outros países. Os vizinhos se comunicam, via um “time banker” local e oferecem refeições e auxílio para indivíduos reclusos, cuidar uns dos filhos dos outros, vigiar propriedades, cortar a grama e compartilhar eletrodomésticos. O compartilhamento de veículos já se espalhou, com novas empresas como o Zip Car, nos EUA e outras semelhantes no Canadá e na Europa, onde as pessoas podem dar/pegar caronas, rapidamente, acessando seus Blackberrys e laptops.
A China hoje abriga muitas iniciativas locais, relacionadas com pequenos negócios formando redes, incluindo o Baidu.com e o Alibaba.com, como também o Qifang.com que oferece empréstimos razoáveis para mais de 25 milhões de estudantes na China. O Circle Pleasure é uma empresa privada que vende cartões, pré-pagos, para o consumidor, uma parceria com a Qifang para oferecer serviços bancários do tipo pessoa-a-pessoa, a primeira empresa privada a receber uma licença bancária do Banco Central da China. Em muitos países na África, serviços bancários por celular já decolaram. Os celulares são a base para as “phone ladies” em vilas na Índia e em Bangladesh, que alugam seus celulares para outras pessoas no vilarejo. Os fazendeiros e pescadores, nas áreas rurais, podem consultar os preços que estão sendo oferecidos nas aldeias e mercados, ao redor de seus vilarejos, usando seus celulares, para obter os melhores preços e mercados para seus produtos.
Até onde os sistemas financeiros interpessoais podem ir, ultrapassando os grandes e gananciosos bancos, desafiando eticamente Wall Street e seus aliados políticos? O caminho é longo, graças a todas as ferramentas de comunicação que hoje dispomos em todo o mundo. O uso dessas novas ferramentas para compartilhamento de informações ajuda as pessoas a se dar conta, mais uma vez, do real significado do dinheiro, ou seja: apenas uma forma de informação. Hoje é possível fazer negócios usando apenas a troca de informações. Por exemplo, em áreas rurais da Flórida, as estações de rádio têm programas onde os fazendeiros podem anunciar, por exemplo, “Eu tenho certo tempo ocioso com o meu trator e gostaria de trocar por fertilizantes ou sementes de pimenta, melão e berinjela.” O fazendeiro informa seu telefone e as trocas são feitas “fora do ar”. Similarmente, o crescimento das trocas entre os fazendeiros e da agricultura sob contrato permite que os consumidores locais comprem produtos frescos diretamente das fazendas que ficam perto de suas residências.
Todas essas soluções locais e redes de segurança, nos levam a perguntar “Como é que deixamos os grandes bancos e sistemas financeiros centralizados crescerem tanto, até se tornarem predadores das economias de vida reais que produzem a real riqueza mundial”? As populações locais, em todo o mundo, estão se dando conta que podem, simplesmente, ignorar os grandes bancos e os mercados de ações, criando esses serviços localmente. Os velhos e inchados setores financeiros devem ajustar-se, cortar seus bônus e assumir as perdas causadas por suas apostas impensadas no cassino global que eles mesmos montaram. Serviços financeiros verdadeiramente eficientes devem representar menos de 10% do PIB do país. Os mercados financeiros na Grã Bretanha e nos Estados Unidos chegaram a crescer até 25% do PIB, formando metástases com seus “engenheiros financeiros”, predadores da economia real. Agora, alunos procuram trabalho como verdadeiros engenheiros, professores, médicos e empresários.
De maneira bastante real, nossa crise não é uma crise financeira, mas uma crise de percepção. Agora começamos a ver nosso mundo de maneira diferente, longe dos retratos pintados pela mídia em geral. Vemos nossas escolhas com novos olhos. Sabemos que o dinheiro não é sinônimo de riqueza real. Nós aprendemos enquanto testemunhamos os bancos centrais imprimindo dinheiro na TV. A riqueza real é aquela gerada por pessoas produtivas, usando sabiamente os recursos da Terra. O dinheiro é uma grande invenção. Quando administrado apropriadamente, localmente, nacionalmente, globalmente ou eletronicamente é uma ferramenta útil de troca. Acumular dinheiro não é mais uma maneira confiável de armazenar valor. Estamos todos redescobrindo muitos estoques de valor em nossas próprias comunidades. Nós encontramos riqueza muito além do dinheiro. Podemos mudar nossos valores para nos conformar aos novos tempos em que vivemos e restaurar as economias de amor aos seus papéis centrais em nossas vidas.

Hazel Henderson é economista, líder mundial da plataforma Mercado Ético. Autora de vários livros, entre eles Ethical Markets: Growing the Green Economy. Co-criadora do Calvert-Henderson Quality of Life Indicators, juntamente com o Calvert Group. Participou do Comitê Organizador da conferência Beyond GDP no Parlamento Europeu (www.beyond-gdp.eu).


Fonte: Mercado Ético (http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/democratizando-as-financas/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje)