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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Conflitos por água

13/02/2011 - 07h15

Sem alternativa, comunidade usa água contaminada por agrotóxicos no interior do Ceará

Kamila Fernandes
Especial para o UOL Notícias
Em Fortaleza

Placa de alerta de que a água não é potável está instalada em uma das piscinas-reservatório do projeto de irrigação Jaguaribe-Apodi, no interior do Estado do Ceará
  • Placa de alerta de que a água não é potável está instalada em uma das piscinas-reservatório do projeto de irrigação Jaguaribe-Apodi, no interior do Estado do Ceará
Incolor, inodora, insípida. Assim é a água que a comunidade de Tomé, no alto da Chapada do Apodi, em Limoeiro do Norte (a 198 km de Fortaleza), recebe nas torneiras de todas as suas casas. Contudo, ao analisar 46 amostras dessa água retiradas de diferentes pontos de distribuição, um estudo da Faculdade de Medicina da UFC (Universidade Federal do Ceará) constatou que em todas há resquícios de diferentes tipos de defensivos agrícolas, o que faz dessa água uma ameaça à saúde de todos que a ingerem.
Supostamente por denunciar esse fato, o líder comunitário José Maria Filho, conhecido como Zé Maria do Tomé, foi morto com 19 tiros em abril do ano passado, crime até hoje impune. E agora, o Ministério Público do Estado do Ceará ingressou na Justiça uma ação civil pública para pedir a suspensão imediata da entrega dessa água aos moradores do local e sua substituição por água potável, própria para o consumo, nem que seja por carros-pipa.
A água, distribuída pelo SAAE (Sistema Autônomo de Água e Esgoto) de Limoeiro do Norte, é retirada de canais do projeto de irrigação Jaguaribe-Apodi, do Dnocs (Departamento Nacional de Obras contra as Secas). Nesse projeto, estão instaladas empresas nacionais e multinacionais que produzem frutas e grãos e que pulverizam agrotóxicos nas plantações, tanto com o auxílio de tratores como de aviões. Da mesma forma que atingem as lavouras, esses defensivos caem na água, que corre a céu aberto entre os lotes irrigados, até chegar nas casas das famílias de Tomé.
A água é cobrada regularmente pelo SAAE. “Em síntese, o SAAE de Limoeiro do Norte cobra pelo serviço de fornecimento de água, o qual vem prestando de forma absolutamente ineficiente, pois fornece água imprópria ao consumo humano aos consumidores residentes na comunidade do Tomé”, diz a ação civil pública assinada pela promotora Bianca Leal Mello da Silva Sampaio.
A permissão para o uso da água é dada pela Fapija (Federação das Associações do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi), que, em troca, recebe do SAAE o equivalente aos custos da energia elétrica do projeto de irrigação, cerca de R$ 350 mil por mês. Apesar de fornecer a água, o próprio presidente da Fapija, Raimundo César dos Santos, não garante que ela é potável. “Essa é uma água de uso exclusivo para irrigação. A gente não se responsabiliza por ela”, afirmou, minimizando, em seguida, o tom de alerta da própria fala. “Fizemos um estudo de R$ 1.500 nessa água e não encontramos nada de errado. E lá está disponível para qualquer cidadão atestar isso também.”
Em frente a um das piscinas do projeto que funcionam como reservatório, porém, a própria entidade mandou instalar placas com os seguintes dizeres: “Atenção, água não potável” e “Atenção, proibido banho e pesca”.
Santos justifica a permissão para o uso da água para abastecimento humano como uma forma de viabilizar o uso da energia elétrica para o bombeamento para irrigação. “Estamos no alto da Chapada do Apodi, a 110 metros de altitude, e toda a água que passa pelos 40 quilômetros de canais precisa ser bombeada o tempo todo. São 4.800 metros cúbicos de água por hora e sete bombas. Se não for assim, não dá para ter plantação de nada”, afirmou.
Danos à saúde
O estudo do grupo Tramas, da Faculdade de Medicina da UFC, constatou a presença de 22 princípios ativos de agrotóxicos na água consumida pela comunidade de Tomé, assim como em outras quatro localizadades. Entre os defensivos há inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas. Eles são usados, segundo o geógrafo Diego Gadelha, do curso de Saneamento Ambiental do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará), especialmente para combater uma praga das plantações de banana, a sigatoka-amarela, um fungo que aparece nos bananais em períodos chuvosos, por causa da umidade.
Quando há pulverização aérea, o veneno não atinge só a água. As casas dos moradores da região também são afetadas, além dos próprios moradores. A pulverização com trator também não evita estragos. “Há um estudo da Cogerh (Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará) que mostra que água subterrânea, de poços, também está contaminada. Com isso, os animais, os alimentos, as pessoas, tudo está sendo atingido. E os danos vão aparecer principalmente a longo prazo, já que o veneno fica se acumulando no organismo”, disse.
Para alguns que trabalham na agricultura, os sintomas, porém, já são visíveis. Pelo menos 17 pessoas na comunidade tiveram câncer, doença que pode estar relacionada à exposição prolongada aos agrotóxicos. Outros apresentaram doenças como dermatites, desregulação hormonal, dificuldades respiratórias e insuficiência do fígado e dos rins. Um agricultor de 29 anos morreu por uma doença crônica no fígado. Em todos esses casos, percebeu-se a influência de substâncias usadas nos defensivos agrícolas.
Depois da morte de Zé Maria com 19 tiros, bem na época em que foi divulgado o estudo da UFC comprovando a existência de agrotóxicos na água entregue no Tomé, a população dali – cerca de 2.000 pessoas - ficou assustada. Ainda assim, todo dia 21, data em que o líder da comunidade foi morto, acontece uma manifestação na região.
A constatação de que a água está imprópria para o consumo humano, porém, não fez com que a maioria parasse de usá-la. “Há uns três meses, a prefeitura começou a mandar água em carros-pipa para abastecer caixas d'água da localidade. Só que, aos poucos, como não é nada simples sair de casa com o balde para buscar água, as pessoas voltaram a usar a da torneira. E a própria prefeitura, há um mês, deixou de abastecer de novo os reservatórios com água potável”, disse o geógrafo Gadelha. “Como os problemas não surgem do dia para a noite, todos vão usando”, completou.
Para o presidente do SAAE, Antônio Mauro da Costa, as pessoas querem a água ali, e não há agora outra forma de levar se não retirando do projeto de irrigação. A única alternativa seria a construção de uma adutora, no valor de R$ 7,5 milhões, dinheiro que ainda não tem previsão de ser conseguido. Costa afirma que também tem estudos que mostram que a água é boa para o consumo, apesar de a Fapija ter instalado placas informando que ali a água não é potável.
“Se ali a água é contaminada, a do rio Jaguaribe também é, e a dos outros afluentes e de toda região do Vale do Jaguaribe também são, porque aqui existe a maior empresa a céu aberto do Nordeste, onde mais de 10 mil pessoas são empregadas. E a luta é para se aumentar a área irrigada. Se não puder mais usar os defensivos, tudo isso vai acabar”, disse Costa.

domingo, 2 de maio de 2010

Poluição da água é fator de risco para a humanidade



Poluição às margens do Rio Jaguaribe - Sertão do Ceará
ONU diz que água poluída mata mais que violência

Nações Unidas, 22 mar (EFE).- O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, afirmou hoje que a água poluída causa mais mortes que a violência e os conflitos armados, o que representa um "fracasso moral e pragmático inaceitável" para a comunidade internacional.
"Estas mortes são uma afronta à humanidade e atrapalham os esforços de muitos países para atingir o seu desenvolvimento potencial", disse Ban em uma mensagem divulgada por ocasião do Dia Mundial de Água, comemorado hoje.
Além disso, o secretário-geral da ONU ressaltou que o aumento da constante da demanda por alimentos, matérias-primas e energia causado pelo crescimento demográfico "compete" pela água com os ecossistemas de que "precisamos para sobreviver".
Segundo ele, as consequências da mudança climática devem agravar a escassez de água potável existente nas regiões mais áridas do mundo.
Em sua mensagem, Ban reiterou que proporcionar acesso à água potável aos 884 milhões de pessoas que não a têm é um fator-chave para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM).
O desafio de universalizar o acesso à água potável, assim como o de proporcionar serviços de saneamento às 2,6 bilhões de pessoas que carecem de latrinas e vasos sanitários, foi objeto de um debate realizado hoje na Assembleia Geral das Nações Unidas.
O encontro é parte dos preparativos da cúpula sobre os Objetivos do Milênio, convocada pelo secretário-geral, que será realizada entre os dias 20 e 22 de setembro.
"Quando voltarmos a nos reunir para falar dos ODM, inevitavelmente teremos que falar de água", assinalou o presidente da Assembleia Geral, o líbio Ali Abdusalam Treki.
Segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA), todos os dias, dois milhões de toneladas de resíduos de águas e esgoto, além de resíduos industriais e agrícolas, são jogados nas águas dos rios e oceanos do mundo.
Ao mesmo tempo, 1,8 milhão de crianças com menos de cinco anos morrem por ano devido a doenças causadas pela água.
"Isto é um luxo para quase um bilhão de pessoas no mundo", disse, segurando um copo de água na mão, o ex-presidente da Assembleia Geral da ONU, o sueco Jan Eliasson.
O ex-ministro de Assuntos Exteriores sueco, que participou da reunião como diretor da ONG WaterAid, pediu que se "fale mais de vasos sanitários" nos círculos políticos.
A ausência de serviços sanitários acaba por criar condições para a disseminação de doenças como a disenteria e a aparição de diarréias, que no caso das crianças frequentemente são fatais, explicou.
"É preciso mobilizar esforços, porque esta situação é uma tragédia humanitária", acrescentou Eliasson.
Em 1993, a Assembleia Geral da ONU decidiu designar o dia 22 de março como Dia Mundial de Água para chamar a atenção sobre a importância de assegurar o acesso à água potável, seu tratamento de maneira adequada e o oferecimento de serviços de saneamento.


terça-feira, 28 de julho de 2009

Novos Conflitos no Oriente Médio - Mudanças Climáticas, Desertificação e Guerra por Água

Crescente fértil deve desaparecer neste século
28/07/2009 - 16:54:22
Berço de civilizações como os babilônios e sumérios, a região do Oriente Médio compreendida entre os rios Tigre e Eufrates, famosa por sua fertilidade em meio a um ambiente desértico, deve desaparecer ainda neste século.

É isto que afirmam cientistas climáticos, que dizem que a atual seca na região deve se tornar cada vez mais intensa até que vire uma situação permanente, transformando o que era solo fértil em deserto.

Além dos efeitos das mudanças climáticas, a construção de represas e o desvio da água dos rios para a irrigação são apontados como fatores.

O pesquisador Akio Kitoh, do Instituto Japonês de Pesquisa Meteorológica, é autor do estudo mais relevante sobre a região. No “The ancient Fertile Crescent will disappear in this century”, Kitoh afirma que o fluxo do rio Eufrates deve baixar em até 73%. “Este processo já começou”, alerta.

Guerra pela água

Na semana passada, ministros iraquianos convocaram uma reunião de emergência com a Turquia e Síria, já que a vazão do rio Eufrates estaria abaixo de 250 metros cúbicos por segundo. Isto é menos de um quarto do que é necessário para manter a agricultura iraquiana.

A tensão na região vem crescendo desde maio, quando o parlamento do Iraque se recusou a aprovar um tratado econômico com a Turquia a menos que o país limitasse sua exploração dos rios. Porém a Turquia não parece estar interessada a se comprometer, tendo anunciado em julho uma nova represa no rio Tigre.

(CarbonoBrasil)
Fonte: Mercado Éttico

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Água no Ceará - a água corre para o mar




Trago hoje algumas imagens que mostram como estamos lidando com a gestão da água no território do Ceará. É inegável o avanço em relação ao sistema que gerencia a distribuição de águas, com a integração dos grandes açudes por meio do canal da integração que corta todo o estado trazendo a água para a Região litorânea. O caminho das águas é o caminho do sertanejo, que foge de seu local em busca de uma esperança, a de viver melhor na "cidade". Pois, enquanto avançamos na sofisticação das soluções para garantir a água ao meio urbano, o Sertão continua usando as ferramentas já usadas no início do século passado: ancoretas levadas em lonbo de jumentos guiados por crianças. As mesmas crianças que perdem parte da infância buscando água longe de casa. Do mesmo jeito que mulheres e idosos, nas épocas mais difíceis pegam água "aonde dá".... As fotos abaixo mostram várias momentos e condições que vivemos na gestão de águas aqui no Ceará. Começamos com as ancoretas, os meninos levando o jumento, um em 1994, outro em 2004 (e nada mudou...). Depois outras cenas de busca pela água, o carro pipa, as cisternas, o grandes açudes, o Canal e o Castanhão, que visitei na semana passada.