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quinta-feira, 13 de maio de 2010

13 de maio - Abolição da Escravidão no Brasil (?) - 2


A Abolição e o preconceito
13/05/2010 17:21:42



Texto originalmente publicado no site da ONG Afrobras

Por José Vicente, presidente da ONG

Neste 13 de maio em que comemoramos 115 anos da Abolição do Regime Escravocrata no País - o Brasil foi o último dos países Escravocratas a aboli-lo - e que manuseamos os números oficiais do mapa da exclusão do negro no Brasil, a informação de que somente 2,2% dos jovens negros compõem o universo discente do ensino superior público - na Universidade de São Paulo -USP são tão somente 1,3% -; que os negros percebem até quarenta por cento que os demais trabalhadores para a mesma atividade ou função privada; e que são totalmente invisíveis na comunicação social e nos cargos de comando e de chefia público ou privado, em todos os escalões, é impossível outra constatação senão a de que os brasileiros negros continuam onde sempre estiveram: no porão, separados e desiguais. 

Certamente, as melhores doutrinas filosóficas e os profundos valores que norteiam o Estado Democrático de Direito, não assentiria como moral, ético e legítimo um Estado que mantém alijado da vida nacional, metade de sua gente, e que condena a infelicidade e a impossibilidade de produção e ascensão social, dezenas de milhões de talentos. 

Um dos fundamentos do racismo é aquele conceitualizado pela afirmação da supremacia do indivíduo perante outro indivíduo. Esse fundamento suporta-se no mais dos casos, em processo comparativo de análise do lugar social, da posse e usufruto de bens e objetos simbólicos, ou níveis de status amealhados que, no seu conjunto, apresentam-se como espelhos sociais. A aspectos dessa natureza, juntam-se outros fundamentos, conceitos e valores socialmente elaborados e reelaborados. 

Na defesa dessas justificativas que, ao final, permitem o usufruto e a dominação de toda a extensão dos benefícios materiais e morais, ou mesmo do próprio espaço social e do direito dele fazer parte, no mais das vezes, a arma utilizada é a desqualificação, a desvalorização, a diminuição, quando não a satanização das reivindicações e mesmo de qualquer ação, por mais tímida que seja, que procure permitir a extensão desses benefícios aos representantes de outros grupos que não aqueles. 

Assim, a igualdade que se permite é aquela igualdade estanque do mérito sobre todas as demais outras formas, enquanto a justiça entendida como exeqüível é justamente a justiça que, por deformação e exclusividade de poucos, promoveu e mantém o maior processo de Apartheid existente no planeta e que, na atualidade, mesmo diante de algumas iniciativas acanhadas de promoção da igualdade, como o são as Cotas no Ensino Superior Público, arroga-se como decreto de verdade real: é ilegal, é imoral, é inconstitucional. 

O Estatuto da Igualdade Racial em debate no Congresso Nacional, a Lei de Cotas no Ensino Superior promulgada no Estado do Rio de Janeiro, a criação da Secretaria Nacional de Promoção da Igualdade Racial pelo Governo Lula, a nomeação de negros nos escalões superiores no governo federal, - e quiçá, brevemente, nos governos estaduais e municipais - a futura nomeação de um ministro negro para o supremo, um parlamentar negro ocupando a vice-presidência do senado federal, o infinito numero de ações publica ou privadas, individuais e coletiva de inclusão e valorização do negro, as críticas, a mobilização da sociedade e, mesmo os 116 mandados de segurança e a Ação de Inconstitucionalidade no Estado do Rio de Janeiro, além de confirmar a certeza de sempre de que somos racistas sim, importa por outro lado, na também certeza, de que, para o bem geral da nação, um Brasil justo, igualitário, tolerante e efetivamente democrático, necessita urgentemente ser construído, por respeito e devoção justamente a ética, a moral e o bem-estar coletivo e, fundamentalmente, em homenagem a racionalidade e a eterna vontade de igualdade, justiça e liberdade, inerentes ao ser humano. 



Fonte: Carta Capital - http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=6704

13 de maio - Abolição da Escravidão no Brasil (?)


Lei Áurea: 120 anos

O 13 de maio é mesmo uma data a ser comemorada?





Lei Áurea: 120 anos

O 13 de maio é mesmo uma data a ser comemorada?

Antonio Carlos Olivieri*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Há um ano, em 13 de maio de 2008, comemoraram-se os 120 anos da assinatura da lei Áurea pela princesa Isabel, que ocupava então a Regência doImpério do Brasil, em virtude de um tratamento de saúde que seu pai, o imperador dom Pedro 2º, realizava na Europa.

A data está um pouco desprestigiada desde a década de 1970, quando os movimentos negros brasileiros resolveram instituir um dia da consciência negrapara ressaltar o papel dos próprios negros no processo de sua emancipação. Assim, o dia 20 de novembro, que relembra a execução de Zumbi, seria um contraponto ao 13 de maio.

De acordo com essa perspectiva, o 13 de maio seria uma data que representaria a abolição como um ato de "generosidade" da elite branca e transformaria a princesa na personagem principal da libertação dos escravos. Ao contrário, o 20 de novembro, homenageando Zumbi e o quilombo de Palmares, seria um símbolo da resistência e da combatividade dos negros, que, de fato, não aceitaram passivamente a escravidão.

Aos poucos, o dia nacional da consciência negra ganhou prestígio, até ser incluído no calendário escolar brasileiro, pelo artigo 79-B, da lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que incluiu no currículo escolar a obrigatoriedade da temática "história e cultura afro-brasileira". Tornou-se também, segundo a Agência Brasil, um feriado em 225 municípios brasileiros, inclusive São Paulo, a maior metrópole do país.

Comemorar o 13 de maio

A questão que se pode levantar a partir disso é: há ou não motivos para a comemoração do 13 de maio? A efeméride tem, sim, seu valor histórico. Ela comemora a vitória do movimento abolicionista e do parlamento brasileiro. A campanha abolicionista, um dos maiores movimentos cívicos da história do Brasil, ao lado da campanha pelas Diretas Já, atingiu o êxito no exato momento que a princesa Isabel assinou a célebre lei.

Por outro lado, é importante ter em mente que a história trata de fatos do passado, mas as interpretações desses fatos dependem da época em que elas são feitas. O significado dos fatos, portanto, varia de acordo com as gerações de historiadores que se debruçam sobre eles e, também, segundo a ideologia que está por trás de suas interpretações.

Assim, o que se valoriza numa determinada época, pode simplesmente ser considerado menos importante ou até se pôr de lado numa ocasião posterior. Um outro exemplo da história ajuda a esclarecer a questão: a comemoração de21 de abril, que relembra o martírio de Tiradentes só passou a existir após a Independência do Brasil. Enquanto éramos colônia portuguesa, Tiradentes não era considerado um herói, muito pelo contrário.

Depois da abolição

Enfim, a lei Áurea serviu para libertar 700 mil escravos que ainda existiam no Brasil em 1888 e proibir a escravidão no país. Independentemente disso, não se pode deixar de reconhecer que a abolição não resolveu diversas questões essenciais acerca da inclusão dos negros libertos na sociedade brasileira. Depois da lei Áurea, o Estado brasileiro não tomou medidas que favorecessem sua integração social, abandonando-os à própria sorte.

Essa dívida social, porém, não pode ser imputada somente à princesa Isabel e à monarquia. A situação social dos negros não melhorou com a República. Sobre isso, o Estado só veio a se pronunciar com mais veemência no ano 2003, com a instituição da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, que tem desenvolvido projetos visando a inclusão social do negro.

Apesar disso, as estatísticas do IBGE ainda registram grande desigualdade em relação a negros e brancos. Alguns exemplos referentes à educação são bastante significativos. Os dados mais recentes apontam a taxa de analfabetismo das pessoas com 15 anos de idade ou mais: 8,3% de brancos e 21% de negros.

A média de anos de estudo das pessoas com 10 anos de idade ou mais é de quase seis anos para os brancos e cerca de três e meio para negros. Enquanto 22,7% dos brancos com 18 anos ou mais concluíram o ensino médio, somente o fizeram 13% dos negros.

Fontes
  •  Barman, Roderick J. - "Princesa Isabel do Brasil", Unesp, 2005.

  •  Moura, Clóvis - "Dicionário da escravidão negra no Brasil", Edusp, 2005.

  •  Viotti da Costa, Emília - "Abolição", Editora Global, 6a. ed., s/d

  •  Silva, Eduardo - "As camélias do Leblon e a abolição da escravatura", Companhia das Letras, 2003.