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domingo, 8 de novembro de 2009

Gonzagão ganha disco, filme e museu, 20 anos após sua morte

O cantor Luiz Gonzaga em foto tirada no início da década de 1950. Foto: Paulo Vanderley/Divulgação

JOSÉ ORENSTEIN
colaboração para a Folha
MARCUS PRETO
da Folha de S.Paulo
08/11/2009 - 10h30


"Já fui sanfoneiro, rei do baião, quase sumi na poeira. Agora, sou lúdico, autêntico. Virei um tal de folclore." Assim Luiz Gonzaga, então com 60 anos de vida, se definia no encarte da série Disco de Bolso do "Pasquim", em 1972.

Agora, 20 anos após sua morte, o "folclore" em torno da figura de Gonzaga pode ser redimensionado. A data redonda reacende, ainda que timidamente, as luzes sobre o artista --raiz da formatação da música popular brasileira no século 20.

Em termos musicais, surgem agora alguns --poucos-- lançamentos em que seu nome está envolvido. O principal é um disco com regravações de valsas que Gonzaga compôs na década de 1940 --algumas ganharam letras inéditas por artistas como Zeca Baleiro, Abel Silva, Fernando Brant e Capinan.

Projetos maiores, no entanto, estão previstos para mais adiante. Ainda sem data definida, um museu dedicado à obra do artista deve ser inaugurado em Pernambuco.

E um longa contando parte de sua história tem estreia programada para 2011 --um ano antes daquele que seria o centésimo aniversário do músico.

Baseado na biografia da jornalista Regina Echeverria, o longa "Gonzaguinha e Gonzagão - Explode Coração" já está em processo de pré-produção. A direção fica aos cuidados de Breno Silveira, o mesmo de "2 Filhos de Francisco".

Como fez no trabalho dedicado a Zezé Di Camargo e Luciano, Breno vai partir da vida real para criar um filme não documental, que pode incluir licenças poéticas. O roteiro, que já está pronto, parte do olhar do filho Gonzaguinha para contar algumas das histórias do pai.

"Gonzaga é nosso primeiro artista pop", diz o diretor. "Com sua música, emendou pela primeira vez as pontas desse país, Nordeste e Sudeste."

Líder da banda Cordel do Fogo Encantado, o pernambucano Lirinha concorda com esse conceito. "Ele era o nosso Elvis Presley", diz. "Antes dele, ninguém por aqui ainda tinha pensado em criar um personagem para fazer música, com conceitos definidos de figurino e tudo mais. Ele inventou isso."

Lenine também considera Gonzaga o precursor do "artista vestido, com música e com luz num ginásio". Além disso, lembra, ele e o letrista Humberto Teixeira "botaram o Nordeste no centro da atenção, no mapa do Brasil". "É um débito que temos com ele", diz.

Rei do Baião

Gonzagão foi realmente popular, de Norte a Sul do país. Mas, entre 1941 e 1945, era proibido de cantar nos próprios discos. Exigência das gravadoras, que então só admitiam cantores "de vozeirão" no primeiro plano. Sua voz foi gravada pela primeira vez em um 78 rotações de 1945. A canção era "Dança Mariquinha", parceria dele com Miguel Lima.

Ainda assim, o baião formatado por ele se manteve entre os ritmos predominantes na música brasileira entre aqueles anos 40 e o surgimento da bossa nova (de que, aliás, Gonzaga também foi influência), no final da década seguinte.

"A bossa nova era coisa da elite, não reunia milhares de pessoas em uma praça como acontece com o baião e a música de Gonzaga até hoje", diz o pesquisador Paulo Vanderley, criador de site dedicado ao artista (www.luizluagonzaga.com.br). "Aqui, no Nordeste, todo ano tem missa em homenagem a ele no dia de sua morte."

Já no Sudeste, a importância de Gonzaga, ainda que jamais negada, parece ser subestimada. Seu nome nunca aparece antes de outros "gênios" como Tom Jobim, João Gilberto e Heitor Villa-Lobos.

O momento de maior baixa aconteceu nos anos que se seguiram ao surgimento da bossa nova. Quando, em 1968, o agitador cultural Carlos Imperial criou o boato de que os Beatles gravariam "Asa Branca", Gonzaga voltou à mídia. Essa é, até hoje, a música mais emblemática criada pelo artista.

"É importante para a minha geração rever 'Asa Branca' como hino do Nordeste", diz Lirinha. "Não nos identificamos mais com versos como 'Que braseiro, quer fornalha, nenhum pé de plantação'. Precisamos mudar essa imagem."

Valsas

Com 32 anos, Lirinha é o mais novo dos "parceiros" de Luiz Gonzaga escalados por Gereba, cantor e violonista baiano, para o CD que ele organiza em homenagem ao Rei do Baião. Integram o time nomes ligados à trajetória de Gonzagão, como Gil, Dominguinhos, Elba Ramalho e Fagner.

O projeto nasceu em 1985, numa visita que Gereba fez ao sítio de Luiz Gonzaga em Exu, terra em que nasceu. "Ele me mostrou todas as suas gravações em 78 rotações", lembra. "Fiquei encantado com a sofisticação daquela música."

Passados mais de 20 anos, a ideia de recuperar aquele material amadureceu. Gereba reuniu --com a ajuda de pesquisadores-- aquelas antigas gravações e, aos poucos, fez os convites para letristas, cantores e sanfoneiros trabalharem as canções de Gonzagão.

Com lançamento previsto para o começo do ano que vem, o álbum vai se chamar "Luas do Gonzaga". Por ser um disco de valsas, pode ajudar a resgatar Gonzaga da imagem "regionalista" que ainda o persegue.

A partir daí, quem sabe, o tal "folclore" que o próprio artista já disse ter se tornado pode finalmente dar lugar ao gigante da música que ele de fato foi.

Editoria de Arte/Folha de S.Paulo

domingo, 2 de agosto de 2009

2 de agosto de 2009 - 20 anos sem Gonzagão

SAMARICA PARTEIRA

Luiz Gonzaga


- Oi sertão!
- Ooi!
- Sertão d' Capitão Barbino! Sertão dos caba valente...
- Tá falando com ele!...
- ...e dos caba frouxo também.
-...já num tô dento.
- Há, há, há... [risos]
- sertão das mulhé bonita...
– ôoopa
- ...e dos caba fei' também ha, ha
- ...há, há, há... [risos]

- Lula!
- Pronto patrão.
- Monte na bestinha melada e risque. Vá ligeiro buscar Samarica parteira que Juvita já tá com dô de menino.

Ah, menino! Quando eu já ia riscando, Capitão Barbino ainda deu a última instrução:
- Olha, Lula, vou cuspi no chão, hein?! Tu tem que vortá antes do cuspe secá!
Foi a maior carreira que eu dei na minha vida. A eguinha tava miada.

Piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri
uma cancela: nheeeiim ... pá...
Piriri piriri piriri piriri piriri piriri
outra cancela: nheeeiim... pá!
Piriri piriri piriri pir... êpa !
Cancela como o diabo nesse sertão: nheeeiim... pá!
Piriri piriri piriri piriri
Um lajedo: patatac patatac patatac patatac patatac . Saí por fora !
Piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri
Uma lagoa, lagoão: bluu bluu, oi oi, kik' k' - a saparia tava cantando.

Aha! Ah menino! Na velocidade que eu vinha essa égua deu uma freada tão danada na beirada dessa lagoa, minha cabeça foi junto com a dela!... e o sapo gritou lá de dentro d'água:
- ói, ói, ói ele agora quaje cai!

... Sapequei a espora pro suvaco no vazi' dessa égua, ela se jogou n'água parecia uma jangada cearense: [bluu bluu, oi oi, kik' k'] Tchi, tchi, tchi.
Saí por fora.

Piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri
Outra cancela: nheeeiim... pá!
piriri piriri piriri piriri piriri piriri

Um rancho, rancho de pobe...
- Au au!
Cachorro de pobe, cachorro de pobe late fino...
- Tá me estranhan'o cruvina?
Era cruvina mermo. Balançô o rabo. Não sei porque cachorro de pobe tem sempre nome de peixe: é cruvina, traíra, piaba, matrinxã, baleia, piranha.
Há! Maguinho mas caçadozinh' como o diabo!
Cachorro de rico é gooordo, num caça nada, rabo grosso, só vive dormindo. Há há ... num presta prá nada, só presta prá bufar, agora o nome é bonito: é white, flike, rex, whiski, jumm.
Há! Cachorro de pobe é ximbica!

- Samarica, ooooh, Samarica parteeeeira!

Qual o quê, aquelas hora no sertão, meu fi', só responde s'a gente dê o prefixo:
- Louvado seja nosso senhor J'us Cristo!
- Para sempre seja Deus louvado.

- Samarica, é Lula... Capitão Barbino mandou vê a senhora que Dona Juvita já tá com dô de menino.
- Essas hora, Lula?
- Nesse instante, Capitão Barbino cuspiu no chão, eu tem que vortá antes do cuspe secá.

Peguei o cavalo véi de Samarica que comia no murturo ? Todo cavalo de parteira é danado prá comer no murturo, não sei porque. Botei a cela no lombo desse cavalo e acochei a cia peguei a véia joguei em riba, quase que ela imbica p'outa banda.

- Vamos s'imbora Samarica que eu tô avexado!
- Vamo fazê um negócio Lula? Meu cavalin' é mago, sua eguinha é gorda, eu vou na frente.
- Que é que há Samarica, prá gente num chegá hoje? Já viu cavalo andar na frente de égua, Samarica? Vamo s'imbora que eu tô avexado!!

Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
nheeeiim... pá!
Piriri tic tic piriri tic tic
bluu oi oi bluu oi, uu, uu

- ói, ói, ói ele já voltoooou!

Saí por fora.

Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
Patateco teco teco, patateco teco teco, patateco teco teco

Saí por fora da pedreira

Piriri piriri tic tic piriri tic tic
nheeeiim... pá !
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
nheeeiim... pá !
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
nheeeiim... pá!
Piriri piriri tic tic piriri tic tic

- Uu uu.

- Tá me estranhando, Nero? Capitão Barbino, Samarica chegou.

- Samarica chegou!!

Samarica sartou do cavalo véi embaixo, cumprimentou o Capitão, entrou prá camarinha, vestiu o vestido verde e amerelo, padrão nacioná, amarrou a cabeça c'um pano e foi dando as instrução:

- Acende um incenso. Boa noite, D. Juvita.
- Ai, Samarica, que dô !
- É assim mermo, minha fi'a, aproveite a dô. Chama as muié dessa casa, p'a rezá a oração de São Reimundo, que esse cristão vem ao mundo nesse instante. B'a noite, cumade Tota.
- B'a noite, Samarica.
- B'a noite, cumade Gerolina.
- B'a noite, Samarica.
- B'a noite, cumade Toinha.
- B'a noite, Samarica.
- B'a noite, cumade Zefa.
- B'a noite, Samarica.
- Vosmecês sabe a oração de São Reimundo?
- Nós sabe.
- Ah Sabe, né? Pois vão rezando aí, já viu??

[vozes rezando]

- Capitão Barbiiino! Capitão Barbino tem fumo de Arapiraca? Me dê uma capinha pr' ela mastigar. Pegue D. Juvita, mastigue essa capinha de fumo e não se incomode. É do bom! Aguenta nas oração, muié! [vozes rezando] Mastiga o fumo, D. Juvita... Capitão Barbino, tem cibola do Cabrobró?
- Ai Samarica! Cebola não, que eu espirro.
- Pois é prá espirrar mesmo minha fi'a, ajuda.
- Ui.
- Aproveite a dor, minha fi'a. Aguenta nas oração, muié. [vozes rezando] Mastigue o fumo D. Juvita.
- Capitão Barbiiino, bote uma faca fria na ponta do dedão do pé dela, bote. Mastigue o fumo, D. Juvita. Aguenta nas oração, muié. [vozes rezando alto].
- Ai Samarica, se eu soubesse que era assim, eu num tinha casado com o diabo desse véi macho.
- Pois é assim merm' minha fi'a, vosmecê casou com o vein' pensando que ela num era de nada? Agora cumpra seu dever, minha fi'a. Desde que o mundo é muundo, que a muié tem que passar por esse pedacinh'. Ai, que saudade! Aguenta nas oração, muié! [vozes rezando alto].Mastigue o fumo, D. Juvita.
- Ai, que dô!
- Aproveite a dô, minha fi'a. Dê uma garrafa pr' ela soprá, dê. Ô, muié, hein? Essa é a oração de S. Reimundo, mermo?
- É..é [muitas vozes].
- Vosmecês num sabe outra oração?
- Nós num sabe... [muitas vozes].
- Uma oração mais forte que essa, vocês num têm?
- Tem não, tem não, essa é boa [muitas vozes]
- Pois deixe comigo, deixe comigo, eu vou rezar uma oração aqui, que se ele num nascer, ele num tá nem cum diabo de num nascer: "Sant' Antoin pequenino, mansadô de burro brabo, fazei nascer esse menino, com mil e seiscentos diabo!"
[choro de criança]

- Nasceu e é menino homem!
- E é macho!
- Ah, se é menino homem, olha se é? Venha vê os documento dele! E essa voz!

Capitão Barbino foi lá detrás da porta, pegou o bacamarte que tava guardado a mais de 8 dia, chegou no terreiro, destambocou no oco do mundo, deu um tiro tão danado, que lascou o cano. Samarica dixe:

- Lascou, Capitão?
- Lascou, Samarica. É mas em redor de 7 légua, não tem fi' duma égua que num tenha escutado. Prepare aí a meladinha, ah, prepare a meladinha, que o nome do menino... é Bastião.


YOUTUBE = http://www.youtube.com/watch?v=GW6flkxqTog

sábado, 18 de julho de 2009

20 anos sem o Rei do Baião

Luiz Gonzaga consagrou-se como o ´Rei do Baião´ ao criar um estilo próprio com ritmo peculiar que caracterizou a música essencialmente nordestina (Foto: Mário Tadeu (11/05/1983))

Em 2 de agosto de 2009 completaremos 20 anos sem Luiz Gonzaga, o nosso Rei do Baião. Mas as homenagens já começaram. Além de novas coletâneas, vários artistas relebram Gonzagão em seus trabalhos. Zé Ramalho lançou um disco interpretando suas músicas. Uma maravilha. E em São Paulo, nos p´roximos dias teremos uma programação especial para lembrar o Rei do Baião, o forró e o Sertão. Confiram na matéria abaixo. Para quem está em Sampa, aproveitem!!

Abraços a todos!

Suely


Luiz Gonzaga é homenageado com três dias de shows em São Paulo

Da Redação
15/07/2009 - 12h17


Entre os dias 17 e 19 de julho, o cantor e compositor Luiz Gonzaga será homenageado com uma série de apresentações gratuitas no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo. A programação marca os 20 anos da morte do músico nordestino.

Entre os artistas que participam da homenagem estão Elba Ramalho --que abre a programação--, Alceu Valença, Dominguinhos, Oswaldinho do Acordeon, Antonio Nóbrega, Cordel do Fogo Encantado, Caju e Castanha, Mais Maria Do Que Zé, Seu Chico e Orquestra Popular do Recife.

A homenagem começa na sexta-feira (17), às 18h, com o show "Balaio de Elba", da cantora Elba Ramalho, e segue até as 3h. No sábado, o evento acontece entre 10h e 3h. No domingo (19), a festa vai das 10h às 19h.

Além dos shows, a homenagem a Gonzagão terá barracas de comidas típicas do nordeste e intervenções artísticas como o Teatro de Mamulengo.

Nascido em 13 de dezembro de 1912, em Pernambuco, Luiz Gonzaga foi o maior divulgador da música nordestina no país. Entre os clássicos do "rei do baião" estão "Asa Branca", "Xote das Meninas", "Cintura Fina", "Meu Pé de Serra" e "Assum Preto". Luiz Gonzaga morreu em 2 de agosto de 1989 de morreu de câncer na próstata e osteoporose.

Veja abaixo a programação completa da homenagem a Luiz Gonzaga. Para mais informações, visite o site da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

Sexta-feira (17)
18h - Abertura Oficial com Elba Ramalho
20h - Caracaxá
20h30 - Pirofagia na Perna-de-Pau – Grupo Irmãos Becker
21h - Jazz Sinfônica – Concerto Nordestino
22h - Sebastião Marinho e Luzivan Mathias
22h30 - Maracatu Prego Batido
23h - Mais Maria do que Zé
0h30 - Cordel do Fogo Encantado
2h - Trio Marrom

Sábado (18)
10h - O Salto Mortal – Circo Nosotros
11h - Simão e o Boi Pintadinho – Valdeck de Garanhuns
12h - Nega Duda
13h - O Salto Mortal – Circo Nosotros
14h - Banda Seu Chico
15h - Peneira e Sonhador
15h30 - Tem Gonzaga no Molho – Carlinhos Antunes & Quinteto Mundano
16h30 - Afoxé Prego Batido
17h - Nicolas Krassik e Cordestinos
18h - Caju e Castanha
19h - Dominguinhos
20h - Charanga Bombeiro – Cia. Capadócia
21h - Família Gonzaga
22h - Ilú Oba De Min
23h - Oswaldinho do Acordeon
0h - Orquestra Popular do Recife
1h - DJ Bruno Pedrosa
2h30 - DJ Tudo

Domingo (19)
10h - Acordeônicos - Orquestra de Sanfonas
11h - Silêncio Total - Grupo de Teatro Piolin
12h - Terreiro de Folia - Grupo Folias e Folguedos
13h - Banda de Pífanos de Caruaru
14h - Antonio Nóbrega
15h - Zé Brown
16h - Trio Virgulino
17h - Andaime – Companhia Linhas Aéreas
18h - Alceu Valença



O cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga em foto de 1984


Fonte: UOL online - http://musica.uol.com.br/ultnot/2009/07/15/luiz-gonzaga-e-homenageado-com-tres-dias-de-shows-em-sao-paulo.jhtm