domingo, 17 de outubro de 2010

Dia Internacional de Combate à Pobreza - 17 de outubro

Reproduzo abaixo um trecho sobre o pobres do excelente livro "Império" de Michel Hardt e Antonio Negri, recomendado pelo querido Prof. Roberto Bartholo, da UFRJ.


OS POBRES 

Em todos e em cada um dos períodos históricos, um sujeito social que está sempre presente em toda parte é identificado, em geral negativamente, mas apesar disso urgentemente, em torno de uma forma de vida comum. Esta forma não é a dos poderosos e dos ricos: eles são apenas figuras parciais e localizadas, quantitate signatae. O úniconome comumnão localizável de pura diferença em todas as áreas é o dos pobres. O pobre é indigente, excluído, reprimido, explorado – e ainda assim está vivo! É denominador comum da vida, o fundamento da multidão. É estranho, mas esclarecedor, que autores pós-modernistas raramente adotem essa figura em suas teorias. É estranho porque pobre é, em certo sentido, uma eterna figura pós-moderna: a figura de um sujeito transversal, onipresente, diferente e móvel; um atestado do irreprimível caráter aleatório da existência.

Esse nome comum, o pobre, é também fundamento de toda possibilidade da humanidade. Como mostrou Nicolau Maquiavel, na “volta às origens”, que caracteriza a fase revolucionária das religiões e ideologias da modernidade, o pobre é quase sempre visto como dono de uma capacidade profética: o pobre não apenas está no mundo como ele é, em si mesmo, a própria possibilidade do mundo. o pobre vive radicalmente o ser efetivo e presente, na indigência e no sofrimento, e por isso ele tem a habilidade de renovar o ser. A divindade da multidão de pobres não aponta para nenhuma transcendência. Ao contrário, aqui, e aqui neste mundo, na existência do pobre, o campo da imanência é apresentado, confirmado, consolidado e aberto. O pobre é deus na terra.

Hoje não existe sequer a ilusão de um Deus transcendente. O pobre dissolveu essa imagem e recuperou seu poder. Há muito tempo a modernidade foi inaugurada com o riso de Rabelais, com a supremacia realista da barriga do pobre, com uma poética que expressa tudo que existe na humanidade indigente “da cintura para baixo”. Mais tarde, por processos de acumulação primitiva, o proletariado surgiu como um sujeito coletivo que poderia expressar-se na materialidade e na imanência, uma multidão de pobres que não profetizou, mas produziu, e que com isso abriu possibilidades não virtuais, mas concretas. Finalmente hoje, nos regimes bipolíticos de produção e nos processos de pós-modernização, o pobre é uma figura subjugada e explorada, mas apesar disso uma figura de produção. É que está a novidade. Em toda parte, na base do conceito e do nome comum do pobre, existe uma relação de produção. Por que os pós-modernistas são incapazes de ler essas passagem? Eles nos dizem que um regime de relações lingüísticas transversais de produção entrou no universo unificado e abstrato de valor. Mas quem é o sujeito que produz “transversalmente”, queum significado criativo à linguagemquem senão os pobres, que são subjugados e ávidos, empobrecidos e poderosos, sempre mais poderosos? Aqui, deste reino de produção global, o pobre não se distingue apenas por sua capacidade profética mas também por sua presença indispensável na produção da riqueza comum, sempre mais explorado e sempre estreitamente indexado aos salários do mando. O pobre é, em si mesmo, o poder. Existe uma Pobreza Mundial, mas existe acima de tudo uma Possibilidade Mundial, e o pobre é capaz disso.

Vogelfrei, “livre como um pássaro”. É o termo que Marx usava para descrever o proletariado, que no começo da modernidade, nos processos de acumulação primitiva foi libertado duas vezes (...)

(...) mais uma vez na pós-modernidade surge à luz ofuscante do dia a multidão, o nome comum do pobre. Ela surge plenamente ao ar livre porque na pós-modernidade o subjugado absorveu o explorado. Em outras palavras, o pobre, cada pessoa pobre, a multidão de pessoas pobres, comeu e digeriu a multidão de proletários. por esse fato os pobres se tornaram produtivos. Mesmo o corpo prostituído, a pessoa indigente, a fome da multidão – todas as formas do pobre se tornaram produtivas. E os pobres tornaram-se, portanto, cada vez mais importantes: a vida do pobre cobre o planeta e o envolve com seu desejo de criatividade e liberdade. O pobre é a condição de toda a produção.

Hardt, Michael e Negri, Antonio. Império. Trad. Berilo Vargas. 2ª. Ed. Rio de janeiro: Record, 2001. pp. 174-176.

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